http://iledeobokum.blogspot.com/2009/01/etnografia-religiosa-iorub-e-probidade.html
http://iledeobokum.blogspot.com/2009/01/pierre-verger-e-os-resduos-coloniais-o.html
A
leitura de dois textos propostos pelo Prof. Olavo (Mestre Ygbere) foi difícil
no terceiro ano da FTU (Faculdade de Teologia Umbandista), em 2010. Eu ainda aluna
e sedenta de conhecimento a respeito das religiões afro-brasileiras. Página após página, dúvidas
surgiam.
Os dois autores, Pierre Verger e Juana
Elbein, são respeitadíssimos em seus meios. Ambos constituem leitura
obrigatória para quem se propõe a compreender as Religiões Afro-Brasileiras, e
são de fundamental importância para quem deseja ser um Teólogo Umbandista.
Pierre Verger, um jovem francês abastado,
resolveu viver fotografando a cultura africana, e ficou famoso com isso. Ele veio
para o Brasil, e se aproximou das Religiões Afro-Brasileiras, passando a
escrever sobre elas. Ele chegou a visitar a África algumas vezes, onde recebeu
o título de Fatumbi (“nascido pelo Ifa”), e a outorga de Babalawô.
Juana Elbein, antropóloga, iniciada
no Candomblé e esposa de um Babaogê famoso na Bahia, defendeu seu doutorado em
Sorbone/França com a tese Os Nagô e a Morte, e que posteriormente foi publicado,
tornando-se um dos livros mais lidos pelos adeptos das Religiões
Afro-Brasileiras.
O primeiro texto, escrito por
Pierre Verger, é uma crítica ao livro Os Nagô e a Morte, escrito por Juana
Elbein. Neste texto ele a acusa formalmente de construir um sistema teogônico
sofisticado, estruturado, embelezado, dualista.
Chama atenção para obras que deram origem a erros crassos de
interpretação da cultura africana, e como estas obras foram sendo assimiladas e
reproduzidas por outros autores, até chegarem aos dias atuais. Erros conceituais, e até de simples tradução
ou entonação vocal originaram, segundo ele, erros irreparáveis. E para os
pesquisadores menos preparados, ou menos sérios, estes conceitos foram fatais.
Enfim, Verger coloca dúvidas razoáveis na obra de Juana Elbein. Questiona sua
idoneidade e sua reputação como Antropóloga.
O segundo texto foi escrito por
Juana Elbein, como direito de resposta dado pela mesma revista que publicou o
texto de Verger. Neste texto, Juana fala do conceito “desde dentro” como
uma iniciada e verdadeiramente envolvida com o Santo, chamando a atenção para o
fato de que, embora Verger tenha o título de Babalawô, jamais teve terreiro.
Segundo ela, sua experiência de anos vividos em dois terreiros famosos da
Bahia, mais a sua convivência conjugal com seu Pai de Santo, capacitaram-na
para escrever sobre tudo que viu e ouviu. Ela chamou isto de Antropologia
Iniciática.
Ela, por sua vez, acusou
Verger de buscar o exotismo, a beleza e o bom primitivo, desprezando a
capacidade do povo africano em construir uma teogonia tão complexa e
paradigmática. Questionou ela os conceitos expostos no conhecimento acadêmico.
Questionou também a capacidade de Verger em interpretar os valores dos povos
africanos. Acusando-o de falta de probidade, de limitações metodológicas, e da
produção de conceitos esvaziados de conteúdos filosóficos.
Segundo ela, Verger insiste em
manter a cultura africana no primitivismo, num estágio inferior, fácil de ser
manipulada e dominada. Mais um discurso colonialista europeu tentando
desvalorizar a tradição oral, fonte primordial do conhecimento das Religiões
Afro-Brasileiras, procurando desacreditar a sagrada relação mestre-discípulo,
que caracteriza o caminho da Iniciação dos terreiros.
Acusa-o de que, em sua visão
racista, mantém a visão folclorizante do outro, que se deseja dominar,
procurando alienar e cooptar.
Ela ressalta que o discurso de
Pureza esconde o vil preconceito. Com a intenção de proteger os incapazes,
procura manter o monopólio da Verdade, e reage à mínima contrariedade, quando
vê seu Poder ameaçado.
Juana mostra-se coerente,
consciente de seu papel. Verger, ao contrário, mostra-se arrogante e superior.
Ficam bem claros os conflitos
de gênero entre Verger e Joana. Mas, acima de tudo, fica evidente a questão de
hierarquia. Como pode uma iniciada sobrepor a opinião de um Babalawô? Verger
não suportou, por certo, as duas coisas ao mesmo tempo. Perda de prestígio,
humilhação e medo do ostracismo, teria sido isso que pensou Verger para
compilar seu texto?
É inegável o valor de Verger,
ele é referência em todos os textos escritos sobre o Povo de Santo. Mas, é
inegável que este texto deixou bem claro que a tolerância com as diferenças não
era uma qualidade dele.
Em minha pouca experiência,
achei fabuloso poder encontrar textos tão bem escritos, e capazes de manter
minha atenção por tão longo tempo.
Jociane Neves Negrao
Mestra Obaositalá (Sacerdotisa
da OITC Templo do Caboclo 7 Ondas) – Iniciada de F. Rivas Neto (Pai Rivas –
Yamunishida Arapiaga).



