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quarta-feira, 6 de abril de 2011

CASO BOLSONARO - A censura e outras confusões

Por Deonísio da Silva em 5/4/2011


Luís Fernando Veríssimo lembrou em O Globo (3/4, pág. 7):

"Quando o deputado Jair Bolsonaro, tempos atrás, lamentou publicamente que a ditadura não tivesse matado o então presidente Fernando Henrique Cardoso quando teve a oportunidade, a reação não foi a metade da causada pelas suas recentes declarações racistas e homofóbicas. Fobias por fobias, a FHCfobia extrema pareceu só um destempero enquanto as manifestadas agora chocaram todo o mundo. Mas o Bolsonaro é o mesmo, com o mesmo cargo. Talvez, antes, só não se tivesse prestado atenção".Há muitos anos, aqueles que estudam a censura com um olhar mais largo, pregam no deserto e são ouvidos somente por seus pares. Ou por gafanhotos e abelhas que produzem mel silvestre. Os outros só acham feia e errada a censura quando é contra eles ou contra seus amigos, sua turma. Quando é contra os inimigos ou desafetos, nada têm a declarar sobre vetos, proibições, apagamentos, silenciamentos etc. Tudo vale a pena para que os diferentes não falem. Assim, não são pautados e é como se não existissem.
Até que chegue a História, mas daí será tarde para os excluídos, embora cadáveres tenham às vezes vozes retumbantes, como estamos no momento presenciando com a indicação de locais onde foram enterrados os corpos de vítimas da repressão pós-64 (atrás do Hotel Quitandinha, em Petrópolis).

Direito de dizerNós precisamos de uma sociedade que se indigne sempre, não importa quem seja o ofendido, o excluído, sua cor, etnia, condição social, cultural, se militar, paisano, civil, religioso, ateu, agnóstico, nada.
É por isso que devemos garantir ao deputado Jair Bolsonaro o direito de ele dizer o que quiser. Se infringiu as leis com suas declarações, deve responder pelo que disse nos tribunais, não na mídia, mediante edições marotas que misturem aleivosamente perguntas e respostas fora de contexto, piorando o que ele já acha sobre notórios excluídos.
Quando Lula disse ao então prefeito de Pelotas, Fernando Marroni, sem saber que estava sendo filmado num estúdio de televisão, que "Pelotas é um polo exportador de veados" e a piada infame vazou, não houve gritaria nenhuma. Ricardo Noblat, comentando episódio em O Globo (4/4, pág. 2), escreve:
"Se o direito de ser contra for negado a Bolsonaro hoje, o direito de ser a favor pode ser negado a mim amanhã, de acordo com a ideologia dos que estiverem no poder".Defendendo liberdade para o deputado Jair Bolsonaro, defendemos liberdade para todos nós. E assim procedemos de modo radicalmente diverso daqueles que acham que vão fazer uma sociedade melhor quando excluírem quem pensa, declara e age diferentemente deles.
Ao defender o direito de ele dizer o que bem quiser, nós lembramos, como a vítima ao algoz, que pensamos, falamos e agimos de modo diferente. Que quando se quer justiça, não se quer vingança.
Nas redaçõesTambém em O Globo de domingo (3/4, pág. 16), Elio Gaspari comentou a censura sofrida pela revista Caras. A causa foi a reportagem de 19 páginas sobre as angústias que levaram a atriz Cibele Dorsa ao suicídio. O jornalista referiu a estranha alegação de Antonio Carlos Mendes, advogado do campeão de hipismo Alvaro "Doda" Miranda. O defensor que pediu e obteve a censura disse:
"Como uma pessoa que vai tirar a própria vida pode estar em estado normal para deixar uma carta?"Disse o jornalista:
"Trata-se de perguntar ao doutor o que ele sugere que se faça com a carta-testamento de Getulio Vargas".No Brasil, a censura raramente é combatida. Frequentemente é invocada como recurso contra aqueles que pensam de modo diferente. E isso ocorre também nas redações. Mas aqueles que a praticam, naturalmente são contra ela, que hipocrisia! Ou desconhecem que proibir é apenas um dos muitos recursos da censura?
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=636JDB002

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

BIG BROTHER BRASIL - Luiz Fernando Veríssimo

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço...A  décima primeira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil,... encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que em Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos, na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE...
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
 Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que  recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo.
Eu gostaria de perguntar, se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?
São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros: profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados..
Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a isso, todo santo dia.
Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada, meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.
E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social: moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?
(Poderiam ser feitas mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores!)
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ler a Bíblia, orar, meditar, passear com os filhos, ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.
Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.
Um abismo chama outro abismo.
 

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