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domingo, 10 de julho de 2011

Estado laico e sociedade livre


O Brasil vem apresentando uma maturidade institucional que surpreende até os mais otimistas. Obviamente, a Constituição de 1988 não resolveu todos os problemas brasileiros, muitos ainda graves; mas há de se reconhecer que os caminhos institucionais para o desenvolvimento social, cultural e econômico estão abertos.
Não é mais necessária uma revolução; faz falta agora trabalharmos, continuarmos trabalhando.

Neste mês de junho, um passo a mais nesse processo civilizatório foi dado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que organizou um seminário internacional sobre o Estado laico, em Brasília. Esse evento pode ser o marco simbólico de um olhar mais republicano sobre o poder público, informado por dois critérios básicos: Estado laico e sociedade livre.

Por um lado, um Estado que de fato seja neutro, isento, isonômico. Não apenas formalmente, mas que na sua atuação não se baseie em determinadas pretensões de verdade em matéria religiosa (por exemplo, punir uma conduta em razão de uma religião classificá-la como pecado). O Estado deve se valer de critérios de justiça política, de razões públicas (generalizáveis para todos os cidadãos), e não de visões compreensivas (específicas para determinados grupos).

Viver essa neutralidade exige um contínuo aprendizado, especialmente dos homens públicos e dos líderes religiosos. Perceberem na prática que são âmbitos diversos, esferas com autonomias próprias. Esse profundo respeito pela pluralidade se manifesta no diálogo, na capacidade de ouvir o outro e também na completa separação entre os direitos do cidadão e a prática religiosa. A adesão a determinado credo religioso não pode acarretar nem privilégio, nem discriminação.

Por outro lado, deve-se encarar o caráter laico do Estado como meio para uma sociedade livre. A laicidade estatal não é um projeto de valores, para tornar a sociedade "laica", para "protegê-la" das religiões. O Estado é - e deve ser cada dia mais - laico, mas a sociedade em si não é laica. Ela será o que os seus cidadãos quiserem ser.

O Estado laico é instrumento para criar um espaço de liberdade e de pluralismo, e não para impor valores considerados "laicos". A laicidade é um meio, e não um fim. Essa afirmação não significa uma mitigação da neutralidade do Estado. É a proteção para que continue sendo laico. Caso contrário, o Estado ainda estaria atuando por visões compreensivas não generalizáveis.

O caráter laico do Estado não decorre de uma substituição de referenciais - antes, uma visão religiosa; agora, uma visão ateia ou agnóstica da vida -, mas de uma revisão do seu âmbito e das suas competências. O Estado laico não diz que as religiões são falsas, e sim que é incompetente para qualquer declaração nesse âmbito.

É um Estado com objetivos - em certo sentido - mais modestos. Ele não pretende ditar como os cidadãos se devem portar para ter uma vida feliz (assumiu esse papel durante muito tempo); agora, deseja "apenas" criar um ethos de paz e de liberdade.
Cada um buscará a felicidade ao seu modo, com as suas escolhas, com a sua visão de mundo.

Alguém pode questionar: pouco realista essa teoria, não? Ela conseguirá resolver as divisões da sociedade brasileira, cada dia mais notórias, principalmente por causa da atividade social e política de grupos minoritários, antes invisíveis e que agora lutam não apenas por uma "não discriminação", mas pelo pleno acolhimento da sua diversidade? Refiro-me aos homoafetivos, aos de religiões com matriz africana, etc. Será possível, de fato, uma convivência harmoniosa entre esses grupos e a "maioria" brasileira, de corte conservador?

Infelizmente, ainda não foi descoberta uma receita que garanta a convivência harmoniosa num cenário de multiculturalismo sistemático. Para a real existência de uma comunidade continua sendo necessário um vínculo comum, por menor que seja, entre os seus membros.

Não vejo, no entanto, a pluralidade brasileira como um obstáculo para esse núcleo comum, que pode e deve nascer de um profundo respeito pelo outro. De ambos os lados! Não se pode ver no outro apenas um "diferente" ou um "retrógrado". Com essas visões parciais não há espaço para o diálogo, já que não se vê o outro como pessoa. Batalhemos por essa profunda compreensão mútua, a começar por nós mesmos, respeitando os nossos "diversos".

Será essa uma atitude ingênua? Respondo com outra pergunta: por que as posturas imobilistas (ou pessimistas) são as mais adequadas para lidar com a realidade social? Parece-me que por trás desse pessimismo social há uma forte dose de arrogância e, por consequência, de irrazoabilidade: "Eu respeito os outros, mas eles não têm a mínima condição de me respeitar". É exatamente o oposto: se eu consigo, imagine os outros! Fá-lo-ão com muito mais facilidade e elegância.

Um último ponto. Esse novo paradigma para as relações entre Estado e religiões não implica o fim das tensões entre os dois âmbitos.. Sempre haverá conflitos. As religiões são fonte de valores para a sociedade e, inevitavelmente, há discordância entre os "fatos políticos" e os "critérios de valor". Mas esse dualismo entre dados de fato e critérios, como defendeu Karl Popper, é extremamente saudável para uma sociedade. Permite o seu aperfeiçoamento, ao impedir que a vontade política num determinado momento adquira status de critério último de valor. Daí, por exemplo, a extrema relevância da decisão do Supremo Tribunal Federal de permitir as marchas a favor da maconha (mesmo que seja difícil - a meu ver - encontrar razões públicas que justifiquem a liberação do tóxico).

Este é o desafio. Um Estado laico no qual todo brasileiro possa sentir-se em casa, uma vez que é "em casa" que uma pessoa é mais livre - para pensar, falar e ser o que quiser.


escrito em  29 de junho de 2011
por Nicolau da Rocha Cavalcanti
O Estado de S.Paulo

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ignorância globalizada

Efraim Rodrigues



Em uma de minhas aulas aqui nos EUA, um aluno me contou sobre uma pesquisa do Instituto Rasmussen que mostra que somente 57% dos democratas acreditam que a mudanças climáticas são resultado de atividades humanas. Entre os republicanos, esta porcentagem cai a 21%. Como recentemente a população tem estado bem dividida entre democratas e republicanos, o resultado é que mais norte-americanos não crêem que o clima está mudando, ou que se está mudando não é por culpa nossa, do que aqueles que crêem na realidade pura e simples.
O assunto me interessou e saí internet afora caçando outras pesquisas de opinião parecidas. Uma outra pesquisa de Yale confirma a anterior e também na Inglaterra uma pesquisa da BBC mostra que 26% da população acredita que as mudanças climáticas são causadas por nós.
Mais que uma sociedade infantilizada pela informação superficial, pela exigência de juventude e recompensa imediata para tudo, somos também crianças mimadas, para quem tem sido dadas opções sobre o que não devemos optar. Crianças, especialmente as que se colocaram nesta classe voluntariamente, não têm que optar se a família vai fazer um investimento de longo prazo ou torrar tudo como se não houvesse amanhã. Opções vêm com a maturidade.
Não sei se foi por causa de uma sede de democracia, um construtivismo exagerado nos cursos de pedagogia ou até da humildade freqüente daqueles que sabem muito, ficamos neste mundo sem fundações muito sólidas, onde tudo pode ser tudo, ou nada, muito pelo contrário.
Até a própria pesquisa de opinião sobre o assunto é infantilóide. Os fatos estão aí e acreditar ou não neles não fará diferença alguma. Aliás, não acreditar pode até atrasar sua solução, pela falta de mobilização.
Não é só você que está se perguntando se a coisa é assim em uma pais com uma massa de gente que freqüentou a universidade, como será no Brasil ?
Talvez será algo parecido, porque mesmo olhando entre os Republicanos, aqueles com nível superior acreditam menos nos fatos (19%) do que aqueles que estudaram menos (31%).
Isto nos leva a outra pesquisa, agora da National Science Foundation, o CNPQ daqui.
Esta, você mesmo pode se aplicar:
Responda certo ou errado:
A) Dinossauros e humanos conviveram. B) Moléculas são maiores que elétrons. C) A Terra gira ao redor do sol uma vez por ano D) Antibióticos não matam vírus. Metade dos norte americanos não conseguiu acertar todas.
Ainda depois de deter a informação, há a etapa posterior de fazer com que esta informação passe a fazer parte das pessoas. E se a pesquisa perguntasse para estas poucas pessoas que acreditam nos fatos, o que fizeram de concreto para tentar mudá-los? Quantos por cento teriam algo a dizer ? O que você teria a dizer ?
Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim{at}efraim.com.br), colunista do EcoDebate, é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Também ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico e a coletar água da chuva

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