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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Blasfêmia: crime impossível



Carlos Alberto Lungarzo
Prof. Tit. (r) Univ. Est. Campinas, SP, Br.
21 de outubro de 2012
O código penal brasileiro, como os códigos de outros países, define o crime impossível. Este se encontra em seu artigo 17:
Não se pune a tentativa [de crime] quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime.
Por exemplo, são crimes impossíveis:
1)    assassinar um cadáver;
2)    roubar-se a si mesmo;
3)     produzir lesões com um beijo a distância;
4)    pretender enganar uma árvore, e assim em diante.
Não menos impossível que este é o crime de blasfêmiapor conta do qual, muitas pessoas são presas, torturadas e assassinadas em países orientais, e algumas outras sofrem penas de prisão e multa, incluso nos países ocidentais, considerados “civilizados” e “democráticos”.
Há dois casos terríveis que aconteceram há algumas semanas, e que representam, por um lado, a barbárie de pretender punir um crime impossível e, por outro lado, a insanidade de gerar uma onda vandalismo com numerosos feridos e até mortos.
O primeiro é o caso de Rimsha Masihuma adolescente paquistanesa acusada de “ofender” o Al Qur’ãn. (Vide) O outro é o da reação demencial de bandas de fanáticos de diversos países, que protestaram por causa de um filme que “ofenderia” o profeta Maomé. (Vide). Este último caso não merece especial comentário, na minha opinião.
Estes exemplos se referem a “ofensas” de figuras ou objetos ditos “sagrados” venerados pela fé islâmica, mas também existem casos em que estas punições impossíveis se aplicam em outros credos, como o católico. O fato de que as condenações por blasfêmia sejam menores nos países cristãos, deve-se apenas a um acaso, e não ao fato de que a teocracia ocidental seja menos cruel que a oriental. Simplesmente, uma parte importante de países europeus conseguiu libertar-se (parcialmente) da teocracia no século 19, enquanto a maioria dos orientais não conseguiu.

O Caso de Rimsha Masih

Uma jovem paquistanesa pertencente à pequena comunidade cristã, chamadaRimsha (ou RiftahMasih, foi detida em Agosto desse ano pela polícia por uma suposta ofensa contra o dito “livro sagrado” do Islã, o Al Qur’ãn. O estado de abandono em que vive a enorme maioria de miseráveis do Paquistão é tão grande que não foi possível determinar sequer a idade da menina, pois ela não está registrada, oscilando as estimativas entre 11, 14 e 16 anos. Sabe-se que ela é doente mental, mas se desconhece a natureza exata da doença, supondo alguns que seja Síndrome de Down.
Rimsha foi encontrada com um livro queimado, cuja destruição talvez tenha sido o resultado da tendência ao fogo de algumas pessoas com disfunções mentais. Dentro desse livro, foram encontradas algumas páginas do livro “sagrado”. Encontrar estas folhas queimadas produziu uma bárbara e insana reação de um grupo de adultos que a acusavam de blasfêmia (ofensa aos símbolos sagrados, que no caso do islamismo é Al Qur’ãn), e se preparavam para seu linchamento.
Segundo disse a polícia no primeiro momento, ela foi detida para evitar que fosse linchada por essas hordas de fanáticos religiosos, que exigiam que se aplicasse contra a ele a pena de morte. Esta punição, repudiada na Europa, incluso para crimes gravíssimos, é comum nas teocracias para punir as “ofensas” contra os símbolos ditos sagrados. A policia aduziu que a queria proteger. Mas a jovem foi confinada numa prisão de alta segurança, que é um local um pouco exótico para proteger alguém.
O caso produziu uma fortíssima reação da opinião esclarecida mundial, mas encontrou pouca repercussão nos governos que se beneficiam de suas relações diplomáticas com o bárbaro estado. Os americanos, que tiram proveito da subserviência paquistanesa, apenas protestaram simbolicamente, e só seis senadores enviaram notas de repúdio a Islamabad.
O Papa se pronunciou, não por sentimento humanitário, mas porque o ataque contra a menina significava ameaçar a pequena comunidade cristã do Paquistão. Como diz a música de Violeta Parra, o santo padre estava preocupado por sua “pomba”.
As Nações Unidas protestaram com a pouca energia possível numa organização decadente, que não consegue nem garantir a neutralidade nuclear de Oriente Médio. Mas, de qualquer maneira, diversas agências internacionais e, sobretudo, numerosas organizações de direitos humanos, se manifestaram com bastante indignação. Como de hábito em questões de direitos humanos, o Brasil esteve “prudente”. Para que brigar com os algozes paquistaneses por causa de uma menina doente e pobre? Afinal, pode ser que Islamadab se interesse pelo pré-sal e até ajude com a sempre sonhada bomba atômica tupiniquim.
Entre diversas vocês respeitáveis, ouviu-se, como em outras épocas, a do governo socialista da França:
França há “exigido às autoridades paquistanesas libertar esta jovem”, e há reafirmado que “a simples existência do crime de blasfêmia viola liberdades fundamentais, como a liberdade de religião e de crença, e a liberdade expressão.” [Grifo meu] (vide)
Finalmente, Rimsha foi solta e só nos últimos dias os tribunais paquistaneses a “absolveram” numa primeira instância, algo que é totalmente absurdo, porque não se absolve a alguém que nunca cometeu nenhum crime.
Entretanto, a história não acaba aqui, porque o “julgamento” definitivo já foi adiado várias vezes.
Pior ainda: Rimsha não foi solta porque os carrascos tivessem sido iluminados por uma mínima faísca de humanidade… Não! Ela foi absolvida por uma razão tonta: o “crime” de blasfêmia foi cometido por um sacerdote paquistanês (um imã), que colocou entre as páginas queimadas pela menina algumas folhas do Al Qu’rãm.
Ele queria culpar a comunidade cristã da região de Rawalpindi para causar sua expulsão do lugar.
Mas, se Rimsha tivesse realmente queimado aquelas folhas, talvez ela teria ficado presa ou teria sido executada… no meio ao cinismo das potências ocidentais que falam de democracia, liberdade, direitos humanos e outras palavras nobres cujos correspondentes factuais desprezam.
Finalmente, em 18 de outubro, o ministro para a harmonia nacional Paul Bhatti prometeu que a menina e sua família seguiriam sobre a proteção do governo. Pode parecer inacreditável, mas o mais alto tribunal que julga o caso ainda não se manifestou, e ADIOU SEU VEREDICTO PARA 14 DE NOVEMBRO.
Lamentavelmente, a militância internacional contra esta atrocidade parece estar esgotada e não tem podido prover uma solução drástica ao problema. É natural que a luta seja tão árdua que quase ninguém resiste em permanente estado de protesto. Mas isto deve abrir, junto com o caso recente de Malala (a menina que foi ferida a tiros por assistir à escola, também em Paquistão), para que a minoria que possui alguma honestidade na ONU, proponha algumas medidas.
A punição por blasfémia deve ser considerada pelo Tribunal Penal Internacional como crime de lesa humanidade, e o conceito de liberdade religiosa deve ser relativizado. Se isso não aconteceu ainda é porque as grandes religiões do planeta movem trilhões de dólares em todo tipo de investimento (desde imóveis até armas e petróleo), embora também gastem muito na proteção jurídica de pedófilos.

Blasfêmia, Injúria Religiosa e Ódio Religioso

Estes três conceitos não devem ser confundidos. Uma coisa é a injúria religiosa contra um indivíduo ou uma comunidade. Isto pode oscilar de um insulto pessoal que merece repúdio moral, mas está sujeito ao direito privado, até uma injúria forte que coloca a quem a recebe numa situação de humilhação pública, constituindo, portanto, uma violação a seus direitos humanos.
Ao insultar uma pessoa por ser cristão, judeu, muçulmano, budista, umbandista, etc., a vítima está sofrendo uma ferida moral que consiste em desprezar seu valor humano, por considera-lo crente ou respeitoso numa fé ou seita que o injuriador repudia. Este insulto pode ser pessoal ou de grupo, e sua gravidade dependerá das circunstâncias em que foi proferida, da forma em que o ato do insulto tomou estado público, das consequências psicológicas ou morais para essa pessoa.
Tanto o valor da injúria como o tamanho da punição dependerá, em grande medida, na maneira em que a “vítima” se sente afetada. Como toda crença pacífica merece inicialmente respeito, também um ateu poderia se ofender se fosse injuriado. Mas, nesse caso, como em outros, a gravidade dependerá da situação particular e da apreciação do próprio injuriado. Por exemplo, se alguém, para me ofender, me chamando de “ateu de m…”, eu ignoraria totalmente a intenção do insulto, salvo que isso fosse feito de maneira reiterada e torna-se fisicamente impossível minha vida cotidiana. Nesse caso, poderia acusar o injuriador de perturbação da vida privada.
Observe que a injúria não seria me acusar de “ateísmo”, tampouco seria o desprezo pelo ateísmo, já que este é uma forma ideológica e não pode ser ofendida como se fosse um ser humano. O “delito” estaria originado na crença (que no caso deste exemplo seria falsa) do injuriador, de que eu me sentiria ofendido se fosse chamado de ateu.
Em geral, a injúria religiosa é um ataque contra uma pessoa, e não contra uma crença, pois as crenças são objetos abstratos e não podem ser factualmente atacadas.
Já a mensagem de ódio religioso é algo muito mais grave. Ele é um crime contra a humanidade e, dependendo de sua intensidade, pode produzir danos reais numa comunidade, como acontece também com as mensagens de racismo, de xenofobia, de homofobia, de misoginia, etc.
O holocausto dos judeus pelos nazistas foi resultado da pregação de ódio racial, mas também, parcialmente, religioso. Luteranos e Católicos alemães foram mobilizados contra outros alemães que tinham “sangue” hebraica não apenas pelos racistas oficiais do Reich, mas também pelos pastores e padres que exigiam o castigo dos que mataram a Cristo 2000 anos antes. (Pelo jeito, no direito canônico não existe prescrição, ou ela demora muito.)
A blasfêmia é algo totalmente diferente. Quando alguém critica, satiriza, trata sem respeito, etc., um símbolo dito “sagrado”, esta pessoa não está querendo ofender àqueles que acreditam na sacralidade do objeto.
O que ele pretende salientar é que não considera que esse objeto seja sagrado, e que não compartilha a convicção de alguém que considera esse objeto intocável.
Por exemplo: Muitas vezes, na América Latina, artistas progressistas desenharam cruzes católicas atreladas a aviões ou bombas, querendo simbolizar a cumplicidade da Igreja com ditaduras, guerras e o genocídios. Isso foi chamado “blasfêmia” pelos crentes, e até um prestigioso escultor argentino teve seu atelier destruído por vândalos financiados pela prefeitura de Buenos Aires da época. Em realidade, essas obras eram a descrição do ponto de vista de alguém que não acredita que os símbolos inanimados (duas barras de prata cruzadas, por exemplo, cum uma estatua necrológica pregada nelas) tenham qualquer qualidade de sagrado.
blasfemo denuncia a sacralidade como uma falsa crença, uma superstição, um fetiche. Isso não significa que os adoradores desses fetiches sejam desprezados pelo “blasfemo”. Ele apenas mostra sua rejeição por esse totemismo, e fixa uma oposição que, certa ou errada, tem todo o direito de manifestar.
Por outro lado, esse tipo de blasfemo contribui a iluminar as pessoas combatendo a superstição e tentando que os que ainda não estão totalmente mergulhados nas trevas, escapem do cabresto das castas sacerdotais.
Se você coloca um crucifixo de sua propriedade num local público e toca fogo em ele, podem acontecer várias situações:
  1. Você se limita a dizer que não acredita em seu caráter sagrado. Isso chama-seiconoclastia e é uma crença que existe até entre os próprios religiosos e possui uma história e uma influência muito grande. Por exemplo, os dissidentes cristãos gregos do século XI destruíram crucifixos e estátuas de santos para mostrar sua própria opinião sobre a adoração de objetos. Muitas seitas cristãs acham idolatria considerar certos objetos sagrados. Neste caso, simplesmente está sendo respeitada a liberdade de opinião.
  2. Se você aproveita a queima do crucifixo para provocar os católicos presentes, você pode estar proferindo uma injúria contra alguns deles. Se essa injúria é grave ou não dependerá de vários fatores específicos.
  3. Se, junto com a queima do crucifixo, você lança uma mensagem propondo a guerra contra os católicos, você está promovendo um crime contra a humanidade, algo como fizeram os nazistas com os judeus. Você pode ser seriamente punido, não por queimar um fetiche, mas por propor agressão contra os adoradores desse fetiche. Com efeito, os símbolos são fetiches, mas seus adoradores são seres humanos que merecem ser tratados com dignidade.
 Na linguagem atual, (1) é uma blasfémia e, num país minimamente civilizado, não pode ser delito. (2) é uma injúria, cuja gravidade é relativa. (3) É um convite ao ódio de grupo e é um crime gravíssimo.
Cabe ainda a possibilidade de que você esteja queimando um crucifixo sobre o qual não tem direito de propriedade. Nesse caso, você pode ser acusado de roubo ou destruição da propriedade alheia.
Observe que esta idéia de objetos sagrados acontece também com símbolos patrióticos e não apenas religiosos. Atualmente, a maioria dos países, incluindo os Estados Unidos, consideram que a dessacralização dos símbolos nacionais não é uma infração e faz parte do direito de protesto. Entretanto, alguns vestígios de arcaísmo ainda dominam em certos países, como a Suíça e a Alemanha.
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Carlos Alberto Lungarzo é matemático, nascido na Argentina, e mora no Brasil desde sua graduação. É professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), São Paulo, e milita em Anistia Internacional desde há muito tempo, nas seções mexicana, argentina, brasileira e (depois do fim desta) americana. Tem escritos vários livros e artigos sobre lógica, estatística e computação quântica, mas seu interesse tem sido sempre os direitos humanos. 
http://www.consciencia.net/blasfemia-crime-impossivel/

domingo, 27 de novembro de 2011

Em Nome de Deus

O Fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo



Um dos fatos mais alarmantes do século XX foi o surgimento de uma devoção militante, popularmente conhecida como “fundamentalismo”, dentro das grandes tradições religiosas. Suas manifestações são às vezes assustadoras. Os fundamentalistas não hesitam em fuzilar devotos no interior de uma mesquita, matar médicos e enfermeiras que trabalham em clínicas de aborto, assassinar seus presidentes e até derrubar um governo forte. Os que cometem tais horrores constituem uma pequena minoria, porém até os fundamentalistas mais pacatos e ordeiros são desconcertantes, pois parecem avessos a muitos dos valores mais positivos da sociedade moderna. Democracia, pluralismo, tolerância religiosa, paz internacional, liberdade de expressão, separação entre Igreja e Estado – nada disso lhes interessa. Os fundamentalistas cristãos rejeitam as descobertas da biologia e da física sobre a s origens da vida e afirmam que o Livro do Gênesis é cientificamente exato em todos os detalhes. Numa época em que muitos estão rompendo os grilhões do passado, os fundamentalistas judeus observam sua Lei revelada com uma rigidez maior que nunca, e as mulheres muçulmanas, repudiando as liberdades das ocidentais, cobrem-se da cabeça aos pés com seu xador. Os fundamentalistas islâmicos e judeus têm uma visão exclusivamente religiosa do conflito árabe- israelense, que começou como uma disputa secularista. Mas o fundamentalismo não se limita aos grandes monoteísmos. Ocorre também entre os budistas, hinduístas e até confucionistas que rejeitam muitas das conquistas da cultura liberal, lutam e matam em nome da religião e se empenham em inserir o sagrado no campo da política e da causa nacional.
            Essa revivescência religiosa em surpreendido muitos observadores. Em meados do século XX acreditava-se que o secularismo era uma tendência irreversível e que nunca mais a fé desempenharia um papel importante nos acontecimentos mundiais. Acreditava-se que, tornando-se mais racionais, os homens já não teriam necessidade da religião ou a restringiriam ao âmbito pessoal e privado. Contudo, no final da década de 1970, os fundamentalistas começaram a rebelar-se contra essa hegemonia do secularismo e a esforçar-se para tirar a religião de sua posição secundária e recolocá-la no centro do palco. Ao menos nisso tiveram extraordinário sucesso. A religião voltou a ser uma força que nenhum governo pode ignorar impunemente. O fundamentalismo tem amargado derrotas, mas está longe da inércia. Hoje é parte essencial da vida moderna e certamente influirá nas questões nacionais e internacionais do futuro. É, portanto, crucial que tentemos entender o que esse tipo de religiosidade significa, como e porque se desenvolveu, o que pode nos revelar acerca de nossa cultura e qual a melhor maneira de enfrentá-lo.
            Antes de prosseguir, porém, cabe-nos fazer uma breve pausa para examinar o termo “fundamentalismo”. Os primeiros a utilizá-lo foram os protestantes americanos que, no início do século XX, passaram a denominar-se “fundamentalistas” para distinguir-se de protestantes mais “liberais”, que, a seu ver, distorciam inteiramente a fé cristã. Eles queriam voltar às raízes e ressaltar o “fundamental” da tradição cristã, que identificavam como a interpretação literal das Escrituras e a aceitação de certas doutrinas básicas. Desde então, aplica-se a palavra “fundamentalismo” a movimentos reformadores de outras religiões. O que está longe de ser satisfatório e parece sugerir que o fundamentalismo é monolítico em todas as suas manifestações. Na verdade, cada “fundamentalismo” constitui uma lei em si mesmo e possui uma dinâmica própria. Tem-se a impressão de que os fundamentalistas são inerentemente conservadores e aferrados ao passado, e no entanto suas idéias são essencialmente modernas e inovadoras. Se queriam voltar ao “fundamental”, os protestantes americanos agiram de um modo peculiarmente moderno. Já se argumentou que não se pode aplicar esse termo cristão a movimentos que têm prioridades totalmente diversas. Os fundamentalismos islâmico e judaico, p. ex., não se prendem muito à doutrina, o que é uma preocupação intrinsecamente cristã. Uma tradução literal de “fundamentalismo” árabe nos dá usuliyyah, palavra que se refere ao estudo das fontes das várias normais e princípios da lei islâmica[1]. A maioria dos ativistas rotulados de “fundamentalistas” no Ocidente não se ocupa dessa ciência islâmica, mas têm interesses muito diferentes. O uso do termo “fundamentalismo” é, pois, equívoco.
            Outros simplesmente garantem que, gostemos ou não, a palavra veio para ficar. E tenho de concordar com eles: o termo não é perfeito, mas serve para rotular movimentos que, apesar de suas diferenças, guardam forte semelhança. No início de seu monumental Projeto Fundamentalista, em seis volumes, Martin E. Marty e R. Scott Appleby afirmam que todos os fundamentalismos obedecem a determinado padrão. São formas de espiritualidade combativas, que surgiram como reação a alguma crise. Enfrentam inimigos cujas políticas e crenças secularistas parecem contrárias à religião. Os fundamentalistas não vêem essa luta como uma batalha política convencional, e sim como uma guerra cósmica entre as forças do bem e do mal. Temem a aniquilação e procuram fortificar sua identidade sitiada através do resgate de certas doutrinas e práticas do passado. Para evitar contaminação, geralmente se afastam da sociedade e criam uma contracultura; não são, porém, sonhadores utopistas. Absorvem o racionalismo pragmático da modernidade e, sob a orientação de seus líderes carismáticos, refinam o “fundamental” a fim  de elaborar uma ideologia que fornece aos fiéis um plano de ação. Acabam lutando e tentando ressacralizar um mundo cada mais céptico[2].
            Para analisar as implicações dessa reação global à cultura moderna, quero me ater a alguns poucos movimentos fundamentalistas que afloraram no judaísmo, no cristianismo e no islamismo, as três religiões monoteístas. Ao invés de estudá-los isoladamente, pretendo traçar sua evolução cronológica colocando-os lado a lado, para ressaltar suas semelhanças. Com isso, espero examinar o fenômeno com uma  profundidade maior que a permitida por uma abordagem mais ampla e geral. Escolhi os seguintes fundamentalismos: protestante americano, o judaico em Israel e o islâmico no Egito, que é um país sunita, e no Irã, que é xiita. Não acho que minhas descobertas se aplicam necessariamente a outras modalidades de fundamentalismo, porém espero mostrar como esses movimentos específicos, que estão entre os mais destacados e influentes, surgiram a partir de medos, ansiedades, e desejos comuns que parecem constituir uma reação nada excepcional a algumas dificuldades peculiares da vida no moderno mundo secular.
            E todos os tempos e em todas as tradições sempre houve gente que combateu a modernidade de sua época. Entretanto, o fundamentalismo que vamos analisar é um movimento do século XX por excelência. É uma reação contra a cultura científica e secular que nasceu no Ocidente e depois se arraigou em outras partes do mundo. O Ocidente criou um tipo distinto de civilização, totalmente inédito, que desencadeou uma reação religiosa sem precedentes. Os movimentos fundamentalistas contemporâneos têm uma relação simbiótica com a modernidade. Podem rejeitar o racionalismo científico do Ocidente, mas não têm como fugir dele. A civilização ocidental mudou o mundo. Nada – nem a religião – será como antes. Em todo o planeta há pessoas lutando contra essas novas condições e vendo-se obrigadas a reafirmar suas tradições religiosas, que foram concebidas para um tipo de sociedade inteiramente diverso.
            No mundo antigo houve um período de transição semelhante, que se estende aproximadamente de 700 a 200 a.C. e que os historiadores chamam de Era Axial, porque foi crucial para o desenvolvimento espiritual da humanidade. Esse período resultou de uma evolução econômica – e, portanto, social e cultural – de milhares de anos que se iniciou na Suméria, onde hoje é o Iraque, e no antigo Egito. No quarto e terceiro milênios antes de Cristo, os homens já não se  limitavam a plantar o suficiente para satisfazer suas necessidades imediatas, mas produziam excedentes agrícolas que podiam comercializar e converter em ganhos extras. Assim, conseguiram construir as primeiras civilizações, desenvolver as artes e organizar comunidades cada vez mais fortes: cidades, cidades-Estados e, por fim, impérios. Na sociedade agrária, o poder não se restringia ao rei ou ao sacerdote; ao menos, em parte, seu foco se deslocou para o mercado, fonte da riqueza, de cada cultura. Começou-se a pensar que o velho paganismo, adequado aos ancestrais, já não convinha às novas circunstâncias.
            Nas cidades e nos impérios da Era Axial os cidadãos adquiriam perspectivas mais amplas e horizontes mais extensos, diante dos quais os velhos cultos locais pareciam limitados e provincianos. Em vez de ver o divino incorporado em diferentes deidades, passaram cada vez mais a venerar uma única transcendência, podiam cultivar uma vida interior mais rica; desejavam uma espiritualidade que não dependesse inteiramente de formas externas. Os mais sensíveis se afligiam com a injustiça social que parecia incrustada nessa sociedade agrária, dependente do trabalho de camponeses excluídos da alta cultura. Consequentemente, surgiram profetas e reformadores, dizendo que a virtude da compaixão era crucial para a vida espiritual: a verdadeira devoção se revelava na capacidade de ver o sagrado em todo indivíduo e na disposição para cuidar dos membros mais vulneráveis da sociedade. Assim, brotaram no mundo civilizado da Era Axial as grandes religiões confessionais que continuaram guiando a humanidade: o Budismo e o Hinduísmo na Índia; o Confucionismo e o Taoísmo no Extremo Oriente; o monoteísmo no Oriente Médio; o racionalismo na Europa. Apesar de suas grandes diferenças, essas religiões da Era Axial tinham muito em comum: todas partiram de velhas tradições para desenvolver a idéia de uma única transcendência universal; todas cultivavam uma espiritualidade interiorizada e enfatizavam a importância da prática da compaixão.
            Hoje estamos vivendo um período de transição semelhante, como já dissemos. Suas raízes remontam aos séculos XVI e XVII da era moderna, quando as populações da Europa ocidental começaram a estabelecer um tipo diferente de sociedade, baseada não no excedente agrícola, e sim numa tecnologia que lhes permitia reproduzir seus recursos indefinidamente. Acompanharam as mudanças econômicas dos últimos quatrocentos anos imensas revoluções sociais, políticas e intelectuais, com o desenvolvimento de um conceito da natureza da verdade totalmente diverso, científico e racional; e, mais uma vez, uma mudança religiosa radical tornou-se necessária. No mundo inteiro acha-se que as velhas formas de fé já não funcionam nas circunstâncias atuais: não conseguem prover o esclarecimento e o consolo que parecem vitais para a humanidade. Assim, tenta-se encontrar novas maneiras de ser religioso; como os reformadores e os profetas da Era Axial, homens e mulheres procuram usar as percepções do passado para evoluir no mundo novo que construíram. Uma dessas experiências modernas – por mais paradoxal que possa parecer à primeira vista – é o fundamentalismo.
            Tendemos a achar que nossos ancestrais eram (mais ou menos) como nós, porém  na verdade possuíam uma vida espiritual diferente da nossa. Tinham dois modos de pensar, falar e adquirir conhecimento, aos quais os estudiosos deram os nomes de mythos e logos[3]. Ambos os modos eram essenciais, vistos como métodos complementares de se chegar à verdade, e cada um tinha sua área especial de competência. O mito, considerado primário, referia-se ao que se julgava intemporal e constante em nossa existência. Remontava às origens da vida, aos fundamentos da cultura, aos níveis mais profundos da mente humana. Reportava-se a significados, não a questões de ordem prática. Se não encontramos algum significado em nossa vida, facilmente nos desesperamos. O mythos de uma sociedade proporcionava-lhe um contexto que dava sentido a seu cotidiano; dirigia sua atenção para o eterno e o universal. Também se arraigava no que chamaríamos de inconsciente. As histórias da mitologia, que não pressupunham uma interpretação literal, constituíam uma forma antiga de psicologia. Quando contavam histórias de heróis que desciam ao mundo dos mortos, percorriam labirintos ou lutavam com monstros, as pessoas traziam á luz as regiões obscuras do subconsciente, que é incessível à investigação puramente racional, mas tem um profundo efeito sobre nossa experiência e nosso comportamento[4].
            O mito não comportava demonstrações racionais; suas percepções eram mais intuitivas, como as da arte, da música, da poesia, da escultura. O mito só se tornava realidade quando incorporado num culto, em rituais e cerimônias que tinham um impacto estético sobre os devotos, inspirando-os a apreender as correntes mais profundas da existência. Mito e culto eram tão inseparáveis que cabe aos acadêmicos discutir o que surgiu antes: a narrativa mítica ou os rituais a ela ligados[5]. O mito também estava associado ao misticismo, ao mergulho na psique através de estruturadas disciplinas de concentração que todas as culturas desenvolveram para tentar chegar à percepção intuitiva. Sem culto ou práticas místicas, os mitos religiosos não teriam sentido. Continuariam sendo abstratos e incríveis, mais ou menos como uma partitura musical que precisa de intérprete para expor sua beleza.
            O mundo pré-moderno tinha uma visão diferente da história. Interessava-se menos que nós pelo que efetivamente acontecera e se preocupava mais com o significado do acontecimento. Via os incidentes históricos não como ocorrências únicas, situadas numa época distante, e sim como manifestações exteriores de realidades constantes, intemporais. A história tendia, portanto, a repetir-se, pois não havia nada de novo sob o sol. As narrativas históricas tentavam ressaltar essa dimensão eterna[6]. Assim, não sabemos o que de fato ocorreu quando os antigos israelitas escaparam do Egito e atravessaram o mar Vermelho. O episódio foi registrado deliberadamente como mito e relacionado com outras narrativas referentes a ritos de passagem, imersão nas profundezas e deuses que abrem mares para criar uma nova realidade. Os judeus vivenciam esse mito anualmente nos rituais da Páscoa, que transportam essa estranha história para sua vida e os ajudam a incorporá-la. Poderíamos dizer que, para tornar-se religioso, um fato histórico tem de ser mitificado desse modo e libertado do passado num culto inspirador. Perguntar se o êxodo do Egito aconteceu exatamente como está na Bíblia ou exigir evidências históricas e científicas que comprovem sua verdade factual equivale a desentender a natureza e o propósito desse relato. Equivale a confundir mythos com logos.
            Igualmente importante, o logos é o pensamento racional, pragmático e científico que permite a boa atuação do homem no mundo. O sentido do mythos pode ter se perdido no Ocidente moderno, mas o logos nos é familiar, constitui a base de nossa sociedade. Para ser eficaz, o logos, ao contrário do mito, precisa funcionar com eficiência no mundo profano. Usamos esse raciocínio lógico e discursivo quando temos de suscitar acontecimentos, conseguir alguma coisa ou convencer os outros a adotarem determinado procedimento. O logos é prático. Ao contrário do mito, voltado para as origens, o logos avança e tenta encontrar algo novo: explorar velhas percepções, adquirir maior controle sobre o meio que nos cerca, descobrir e inventar novidades[7].
            Mythos e logos eram indispensáveis para o mundo pré-moderno. Dependiam um do outro para não empobrecer. Contudo, eram essencialmente distintos, e considerava-se perigoso confundir seus discursos. Cada qual tinha sua função. O mito não era racional; suas narrativas não comportavam demonstrações empíricas. O mito fornecia contexto que dava sentido e valor às atividades práticas. Tomá-lo como base de uma política pragmática podia ter conseqüências desastrosas, porque o que funcionava bem no mundo interior da psique não se aplicava necessariamente aos assuntos do mundo exterior. Por exemplo, ao convocar a primeira cruzada, em 1095, o papa Urbano II agiu no plano do logos. Queria que os cavaleiros europeus parassem de lutar entre si e de dividir a cristandade ocidental e fossem gastar suas energias numa guerra no Oriente Médio e ampliar o poder a Igreja. No entanto, quando essa expedição militar se misturou com a mitologia popular, textos bíblicos e fantasias apocalípticas, o resultado foi catastróficos do ponto de vista prático, estratégico e moral. Durante o longo período das cruzadas, seus participantes prosperaram sempre que o logo prevaleceu. Tiveram bom desempenho no campo de batalha, fundaram colônias viáveis no Oriente Médio e aprenderam a relacionar-se satisfatoriamente com a população local. Quando começaram a basear sua conduta numa visão mítica ou mística, amargaram freqüentes derrotas e cometeram terríveis atrocidades[8].
            O logos também tem suas limitações. Não pode aliviar a dor ou o sofrimento. Argumentos racionais não explicam uma tragédia. O logos não sabe responder perguntas sobre o valor da vida humana. O cientista pode tornar as coisas mais eficientes e descobrir fatos maravilhosos acerca do universo físico, porém não consegue decifrar o sentido da vida[9]. Isso compete ao mito e ao culto.
            No século XVIII, todavia europeus e americanos alcançaram tamanho sucesso no campo da ciência e da tecnologia que começaram a ver o logo como o único meio de se chegar à verdade e o mythos como falso e supersticioso. Também é verdade que o mundo novo que estavam construindo contradizia a dinâmica da antiga espiritualidade mítica. Nossa experiência religiosa no mundo moderno mudou e, considerando verdadeiro unicamente o racionalismo científico, um número cada vez maior de indivíduos com freqüência tem tentado transformar em logos o mythos de sua fé. Os fundamentalistas vêm fazendo a mesma tentativa. Essa confusão tem gerado mais problemas.
            Precisamos entender como nosso mundo mudou. Assim, a primeira parte deste livro focaliza a final do século XV e o inicio do século XVI, quando os europeus ocidentais passaram a desenvolver sua nova ciência. Examinaremos também a devoção mítica da civilização agrária pré-moderna a fim de compreender o mecanismo das velhas formas de fé. No admirável mundo novo a religião convencional está ficando muito difícil. A modernização sempre foi um processo doloroso. As pessoas se sentem alienadas e perdidas quando ocorrem em sua sociedade mudanças fundamentais que tornam o mundo estranho e irreconhecível. Estudaremos o impacto da modernidade sobre os cristãos na Europa e na América, sobre os judeus e sobre os muçulmanos do Egito e do Irã. Então, estaremos em condições de avaliar o que os fundamentalistas pretendiam quando se puseram a criar essa forma de fé no final do século XIX.
         Os fundamentalistas acreditam que estão combatendo forças que ameaçam seus valores mais sagrados. No decorrer de uma guerra dificilmente uma das partes em luta tem a visão clara da posição da outra. Veremos que a modernização levou a uma polarização da sociedade, mas às vezes, para evitar uma escalada do conflito, precisamos tentar compreender o sofrimento e as percepções do outro lado. Para quem, como eu, aprecia as liberdades e as conquistas da modernidade, não é fácil entender a angústia que elas causam nos fundamentalistas religiosos. Contudo, a modernização muitas vezes implica agressão, em vez de libertação. Pouca gente sofreu mais que os judeus no mundo moderno; assim, começaremos por seu doloroso embate com a sociedade modernizadora da cristandade ocidental, no final do século XV, que levou alguns deles a recorrer a muitos dos estratagemas, das posturas e dos princípios que posteriormente se generalizariam no mundo novo.

Karen Armstrong 
livro Em Nome de Deus



[1] Abdel Salam Sidahared e Anonshiravan Ehteshani (eds), Islamic Fudamenalism (Boulder, Colo., 1996),4.
[2] Martin E. Marty e R. Scott Appleby, “Conclusion: na Interim Reporto n a Hypothetical Family”, Fundamentalisms Observed (Chicago e Londres, 1991), 814-42.
[3] Steiner, In Bluebeard’s Castle, 23-4.
[4] I. F. Clarke, Voices Prophesying War: Future Wars 1763-3749, Ed. Rev. (Oxford e Nova York, 1992), 37-88.
[5] Charles Royster, The Destructive War: William Tecumseh Sherman, Stonewall Jackson and the Americans (Nova York, 1991), 82.
[6] Alan T. Nolan, Lee Considered:  General Robert E. Lee and Civil War History (Chapel Hill, N. C., 1991), 112-33; Charles B. Strozier, Apocalypse: on the Psychology of Fundamentalism in America (Boston, 1994), 173-4, 177.
[7] Robert C. Fuller,  Naming the Antichrist: the History of na American Obsession (Oxford e Nova York, 1995), 111, 148)
[8] Paul Boyer, When Time Shall Be No More: Prophecy Belief in Modern American Culture (Cambridge, Mass., e Londres, 1992), 87-90; George M. Marsden, Fudamentalism and American Culture: The Shaping of Twentieth Century Evangelicalism, 1870-1925 (Oxford e Nova York, 1980), 50-5; Strozier, Apocalipse, 183-5.
[9] II Tessaçpmocenses 2,3-8.

sábado, 13 de agosto de 2011

Alento aos desolados com a Igreja

11/08/2011
por Leonardo Boff
Atualmente há muita desolação com referência à Igreja Católica institucional. Verifica-se uma dupla emigração: uma exterior, pessoas que abandonam concretamente a Igreja e outra interior, as que permanecem nela mas não a sentem mais como um lar espiritual. Continuam a crer apesar da Igreja.
E não é para menos. O atual Papa tomou algumas iniciativas radicais que dividiram o corpo eclesial. Assumiu uma rota de confronto com dois importantes episcopados, o alemão e francês, ao introduzir a missa em latim; elaborou uma esdrúxula reconciliação com a Igreja cismática dos seguidores de Lefebvre; esvaziou as principais intuições renovadoras do Concílio Vaticano II, especialmente o ecumenismo, negando, ofensivamente, o título de “Igreja” às demais Igrejas que não sejam a Católica e a Ortodoxa; ainda como Cardeal mostrou-se gravemente leniente com os pedófilos; sua relação para com a AIDs beira os limites da desumanidade. A atual Igreja Católica mergulhou num inverno rigoroso. A base social de apoio ao modelo velhista do atual Papa é constituída por grupos conservadores, mais interessados nas performances mediáticas, na lógica do mercado, do que propor uma mensagem adequada aos graves problemas atuais. Oferecem um “cristianismo-prozac”,apto para anestesiar consciências angustiadas, mas alienado face à humanidade sofredora e às injustiças mundiais e a situação degradada da Terra.
Urge animar estes cristãos em vias de emigração com aquilo que é essencial ao Cristianismo. Seguramente não é a Igreja que não foi objeto da pregação de Jesus. Ele anunciou um sonho, o Reino de Deus, em contraposição com o Reino de César, Reino de Deus que representa uma revolução absoluta das relações desde as individuais até as divinas e cósmicas.
O Cristiansimo compareceu primeiramente na história como movimento e como o caminho de Cristo. Ele é anterior a sua sedimentação nos quatro evangelhos e nas doutrinas. O caráter de caminho espiritual é um tipo de cristianismo que possui seu próprio curso. Geralmente vive à margem e, às vezes, em distância crítica da instituição oficial. Mas nasce e se alimenta do permanente fascínio pela figura e pela mensagem libertária e espiritual de Jesus de Nazaré. Inicialmente tido como “heresia dos Nazarenos” (At 24,5) ou simplesmente “heresia” (At 28,22) no sentido de “grupelho”, o Cristianismo foi lentamente ganhando autonomia até seus seguidores, nos Atos dos Apóstolos (11,36), serem chamados de “cristãos.”
O movimento de Jesus certamente é a força mais vigorosa do Cristianismo, mais que as Igrejas, por não estar enquadrado nas instituições ou aprisionado em doutrinas e dogmas. É composto por todo tipo de gente, das mais variadas culturas e tradições, até por agnósticos e ateus que se deixam tocar pela figura corajosa de Jesus, pelo sonho que anunciou, um Reino de amor e de liberdade, por sua ética de amor incondicional, especialmente aos pobres e aos oprimidos e pela forma como assumiu o drama humano, no meio de humilhações, torturas e da execução na cruz. Apresentou uma imagem de Deus tão íntima e amiga da vida, que é difícil furtar-se a ela até por quem não crê em Deus. Muitos chegam a dizer: “se existe um Deus, este deve ser aquele que traz os traços do Deus de Jesus”.
Esse cristianismo como caminho espiritual é o que realmente conta. No entanto, de movimento, ele muito cedo ganhou a forma de instituição religiosa com vários modos de organização. Em seu seio se elaboraram as várias interpretações da figura de Jesus que se transformaram em doutrinas e foram recolhidas pelos atuais evangelhos. As igrejas, ao assumirem caráter institucional, estabeleceram critérios de pertença e de exclusão, doutrinas como referência identitária e ritos próprios de celebrar. Quem explica tal fenômeno é a sociologia e não a teologia. A instituição sempre vive em tensão com o caminho espiritual. Ótimo quando caminham juntas, mas é raro. O decisivo é, no entanto, o caminho espiritual. Este tem a força de alimentar uma visão espiritual da vida e de animar o sentido da caminhada humana.
O problemátio na Igreja romano-católica é sua pretensão de ser a única verdadeira. O correto é todas as igrejas se reconhecerem mutuamente, pois todas revelam dimensões diferentes e complementares do Nazareno. O importante é que o cristianismo mantenha seu caráter de caminho espiritual. É ele que pode sustentar a tantos cristãos e cristãs face à mediocridade lamentável e à irrelevância histórica em que caiu a Igreja atual.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Corão e Bíblia: similaridades?

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2699&secao=302


Segundo Michel Cuypers, devido à importância conferida à Lei divina, o Islã está mais próximo do Judaísmo do que do Cristianismo

Por: Patricia Fachi, Márcia Junges e Moisés Sbardelotto | Tradução: Benno Dischinger

“Por seu teocentrismo muito acentuado, o Corão não parece espontaneamente apto para fazer frente a um mundo secularizado”, analisa Michel Cuypers, autor de Le Festin. Une lecture de la sourate al-Mâ’ida (Paris: Lethielleux, 2007). Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, ele informa que o Islã atravessa a crise mais profunda de toda a sua história, a qual gera posições diferentes entre a comunidade muçulmana. Para uns, explica, “o mundo deve mudar e adaptar-se às leis divinas do Islã”, para outros, continua, “é preciso repensar radicalmente o Islã para reconciliá-lo com o mundo atual”.
Ainda nesta entrevista, Cuypers aborda alguns aspectos da composição do texto do Corão e diz que “as regras de composição das suras corânicas são as mesmas que se encontram nos textos bíblicos”. Segundo ele, o Corão e a Bíblia pertencem ao mesmo mundo literário, “não somente em sua forma retórica, mas também em razão de temáticas similares”. Os livros sagrados são textos antigos, escritos num contexto diferente do nosso, em função disso, aconselha, “é preciso necessariamente distinguir nesses textos o que diz respeito à sua época e ao seu meio, e o que tem um valor permanente, que ainda pode inspirar o homem de hoje”.
Michel Cuypers é belga e residiu no Irã por doze anos. Cursou doutorado em Literatura Persa, na Universidade de Teerã. Também estudou árabe na Síria e mudou-se para o Cairo, onde reside atualmente e atua como pesquisador do Instituto Dominicano para os Estudos Orientais. É membro da International Society for the Studies of Biblical and Semitc Rhetoric, da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Quais são as principais teorias e as novas maneiras de abordar o Corão que o senhor propõe na obra Le Festin. Une lecture de la sourate al-Mâ’ida?
Michel Cuypers - Como muitos leitores não muçulmanos que lêem pela primeira vez o Corão , fui, há muito tempo, tocado pela aparente ausência de ordem e de coerência do texto corânico, que parece feito de pequenos fragmentos postos em sequência sem nenhuma lógica aparente. Perguntava-me: “É possível que um texto sagrado, circundado por tal veneração há quatorze séculos por milhões de muçulmanos, tenha sido tão mal composto?” Quis então estudar o Corão do ponto de vista de sua composição. Era uma espécie de desafio. Os pesquisadores ocidentais que estudaram o Corão a partir do século XIX, admitiram todos como evidência o caráter composto do texto do Corão, e eles só o abordaram sob o enfoque da crítica histórica, com o cuidado de compreender a gênese e a história do texto corânico, classificando os fragmentos que o compõem numa ordem mais lógica e cronológica. Seu acesso ao texto era então claramente “diacrônico”. Foi apenas mais recentemente que alguns pesquisadores adotaram outro ponto de vista, “sincrônico”, procurando compreender o texto das suras (os capítulos do Corão) tal como ele se apresenta em sua versão canônica, na sua estrutura ou composição. Eles partem do pressuposto de que o texto deve ter uma coerência, porém uma coerência que é preciso descobrir. A tradição exegética muçulmana se colocou também, desde o início, esta questão da coerência e da composição do texto, mas sem chegar a dar uma resposta satisfatória. De minha parte, creio ter encontrado a resposta, não na tradição da sabedoria islâmica, mas voltando à exegese bíblica, que desenvolveu desde o século XVIII, porém, sobretudo nestas últimas décadas, um método chamado “análise retórica”.
IHU On-Line - O senhor aplica ao Corão um sistema de análise que provém dos estudos bíblicos. Partindo deste pressuposto, que nova leitura do Corão propõe?
Michel Cuypers - Todos os grandes estudiosos clássicos do Corão comentaram o texto versículo por versículo, sem consideração do seu contexto literário imediato. O resultado é que eles, com freqüência, deram múltiplas interpretações diferentes de um versículo, entre as quais o leitor não sabe qual escolher. De outra parte, esses comentários clássicos, em vez de explicar um versículo, situando-o em seu contexto literário, explicam-no, pondo-o em relação com o que eles chamam tecnicamente “as ocasiões da revelação”, isto é, tal ou tal evento da vida do profeta Maomé teria sido “a ocasião” ou a razão pela qual ele teria “descido” sobre o Profeta. Infelizmente, é difícil conferir um valor histórico real à maioria dessas “ocasiões da revelação”. A análise retórica, sim, mostrando a estrutura das suras, recoloca cada versículo em seu verdadeiro contexto literário que lhe confere seu sentido. A descoberta da estrutura é, portanto, o caminho em direção ao sentido do texto, sem que haja necessidade de recorrer ao artifício dessas “ocasiões da revelação”.
IHU On-Line - Como é construído o Corão e qual é sua relação com o mundo dos grandes textos bíblicos judeus e cristãos?
Michel Cuypers - A análise retórica permitiu destacar as regras da “retórica bíblica”, muito diferente da retórica grega e latina que herdamos. Os textos da Bíblia são construídos na base de simetrias que podem assumir três formas ou três “figuras de composição”: o paralelismo (por exemplo, uma sequência de versículos na ordem AB/À’B’), a construção em espelho ou o paralelismo invertido (AB/B’À’) e a construção concêntrica, quando um elemento central conecta os dois versículos da construção em espelho (ABC/x/C’B’À’). Essas figuras de composição se encontram em diversos níveis do texto: por exemplo, entre dois ou três versículos de um salmo, depois um grupo de versículos, e em seguida um bloco textual mais amplo ainda, e assim por diante, até o salmo inteiro. Estes princípios foram perfeitamente teorizados pelo padre Roland Maynet s.j.,  em seu Tratado de Retórica bíblica (Lethielleux, Paris, 2007). Ora, eu pude constatar que o texto do Corão é construído exatamente da mesma forma. As regras de composição das suras corânicas são as mesmas que se encontram nos textos bíblicos.
Mas as relações do Corão com o texto bíblico não param aí. O Corão pertence ao mesmo mundo literário da Bíblia, não somente em sua forma retórica, mas também em razão de temáticas similares: a “releitura” de numerosos textos anteriores, seja da Bíblia, seja de textos parabíblicos (textos rabínicos como a Mishna,  ou apócrifos cristãos),  dando-lhes um novo sentido, conforme a teologia corânica; um pouco como o Novo Testamento “relido” segundo os textos do Antigo Testamento, dando-lhes um novo sentido, “crístico”.
IHU On-Line - O que o Islã tem de específico ou “não negociável” em sua construção interna que, sem isso, essa religião perderia sua característica?
Michel Cuypers - O credo muçulmano é simples: “Eu atesto que não há divindade senão Deus e que Maomé é seu Profeta”. Falando estritamente, o que é não negociável, como você diz, é o estrito monoteísmo islâmico, que exclui até a ideia de Trindade e de Encarnação. Não pode haver multiplicidade em Deus, mesmo relativa. É, pois, impensável que Deus possa ter um filho, e mais ainda, um filho que se torna homem! Tal é o artigo de fé absolutamente primário e essencial para o Islã. Mas, ele é acompanhado indissociavelmente da fé no profeta Maomé, cuja mensagem se resume precisamente nesse monoteísmo rigoroso. É por isso que o Corão não cessa de convocar ao mesmo tempo Deus e seu Profeta. Mas, atenção: nenhuma religião se reduz ao seu fundamento essencial. Este se desdobra em toda uma vida, uma tradição, ritos, outros pontos de fé importantes (como o último Julgamento). Cabe definitivamente aos muçulmanos responder à sua questão, e ela já constitui o objeto de ásperos debates entre reformistas e fundamentalistas, por exemplo.
IHU On-Line - Como compreender o mundo de hoje com base no Corão, isto é, com base em um texto da tradição islâmica?
Michel Cuypers - A questão seria a mesma no que se refere à Bíblia. O Corão, a Bíblia, são textos muito antigos, escritos num contexto histórico preciso e totalmente diferente do nosso. É, pois, preciso necessariamente distinguir nesses textos o que diz respeito à sua época e ao seu meio, e o que tem um valor permanente, que ainda pode inspirar o homem de hoje. Já um grande pensador muçulmano egípcio de fins do século XIX, Muhammad Abduh,  dizia que muitos versículos do Corão devem ser compreendidos à luz de sua época e que eles não têm um valor permanente. Do ponto de vista da prática religiosa, eles são, pois, caducos, contrariamente a outros versículos que exprimem uma sabedoria mais universal e intemporal, válida até o fim do mundo. Esses versículos podem, sim, inspirar muito bem a conduta e a fé do homem de hoje. Eles se encontram principalmente na parte mais antiga do Corão, centrada na perspectiva da justiça social e do último Julgamento.
IHU On-Line - Quais são os pontos de ruptura do Islã com o Judaísmo e o Cristianismo?
Michel Cuypers - O próprio Corão diz claramente: é antes de tudo a questão da filiação divina. Não somente a do Cristo, mas também a do simples fiel, cristão ou judeu. A ideia de “divinização” do homem, tão cara aos Padres da Igreja,  é um non sens para o Islã. Segue-se, seguramente, outra concepção da relação do homem com Deus, mas também dos homens entre si, os quais não serão considerados como irmãos, filhos de um mesmo Pai. No entanto, é preciso tomar em conta certas correntes místicas que existem no Islã (o sufismo),  cujas vias se aproximam da espiritualidade cristã.
Por sua insistência no monoteísmo e também pela importância conferida à Lei divina, o Islã está mais próximo do Judaísmo do que do Cristianismo, embora a polêmica do Corão seja paradoxalmente mais severa em face dos judeus do que dos cristãos – sem dúvida em razão de conjunturas históricas diferentes.
IHU On-Line - Muitos filósofos defendem que no Ocidente a metafísica já é ultrapassada. Como pode o Corão ajudar a compreender esta nova configuração social? É necessário passar por uma releitura em face desse novo contexto no qual vivemos?
Michel Cuypers - Por seu teocentrismo muito acentuado, o Corão não parece espontaneamente apto para fazer face a um mundo secularizado, em todo o caso, menos do que o Evangelho da Encarnação. Mas ele pode ser um fator de equilíbrio, lembrando ao homem moderno o seu destino eterno, sob a condição, todavia, que os muçulmanos aceitem também uma releitura do Corão que confira direito, ao lado da transcendência divina, a todos os valores humanos do homem de hoje. Muitos intelectuais muçulmanos (em geral universitários “laicos”) reclamam por tal nova exegese do Corão, adaptada ao mundo de hoje. Parece-me que a exegese que eu proponho em meu livro é um início de resposta nesse sentido.
IHU On-Line - Quais são as principais tendências e os grandes movimentos do Islamismo de hoje referentes ao ser humano contemporâneo?
Michel Cuypers - A resposta a esta questão ultrapassaria as dimensões de uma entrevista. No entanto, é preciso lembrar, como, aliás, o sugere sua questão, que o Islã não é monolítico. Fala-se frequentemente do Islã de maneira essencialista, como se houvesse um só Islã, quando o Islã (como também o Cristianismo), de fato, é múltiplo. A mídia informa principalmente sobre tudo o que, no Islã, choca nossos contemporâneos (condição da mulher, violência...). Na realidade, o Islã atravessa uma crise profunda, sem dúvida a mais profunda de toda a sua história. Os muçulmanos adotam uma série de posições diferentes diante desta crise. Podem-se esquematizar, assim, as posições extremas: para uns, é o mundo que deve mudar e adaptar-se às leis divinas do Islã (pela ação violenta ou por um lento trabalho de infiltração e de transformação); para outros, é preciso repensar radicalmente o Islã para reconciliá-lo com o mundo atual. Entre estas duas posições, você encontrará uma gama de atitudes intermediárias.
IHU On-Line - Como o senhor percebe a inculturação do Islã no mundo, num momento de globalização e de fronteiras cada vez mais abertas, com grande mobilidade e trocas culturais?
Michel Cuypers - Seguramente o Islã tem dificuldades em se inculturar no nosso mundo de hoje, cuja evolução muito rápida é, antes de tudo, comandada pelo Ocidente. A modernidade, a mundialização não nasceram do Islã. O Islã deve, pois, se adaptar à força a condições culturais que ele não inventou. Mas eu não creio que isso seja impossível. A história mostra que o Islã soube integrar bastante bem culturas diferentes, do Marrocos à Indonésia. O desafio, hoje, é por certo muito grande (mas para quem ele não o é, num mundo em plena transmutação?). Somente o futuro dirá se os muçulmanos saberão enfrentá-lo. Em todo o caso, pode-se constatar que muitos muçulmanos já conseguem viver harmoniosamente sua fé no mundo globalizado, notadamente no Ocidente. Eu creio realmente que a renovação de que necessita o Islã virá dos muçulmanos que vivem no Ocidente.
IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum ponto que não foi abordado?
Michel Cuypers - Falamos do que deveria ser a exegese do Corão ou do Islã no nosso mundo globalizado. Mas eu creio que a integração dos muçulmanos se fará tanto mais facilmente quanto os não muçulmanos que os acolhem ou vivem ao lado deles se abrirão a eles e aprenderão a conhecer o Corão e o Islã. Respeite aquele que o respeita, interessamo-nos pelo outro, se ele se interessa por nós. De onde a grande importância de multiplicar os encontros inter-religiosos, e, para os cristãos, uma boa informação, respeitosa, sobre a fé muçulmana, longe de toda polêmica e apologética. É alias, penso eu, a própria finalidade desta entrevista e de sua revista.
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>> O sítio do IHU já publicou entrevistas sobre Michel Cuypers. O material está disponível na página eletrônicahttp://www.ihu.unisinos.br/

domingo, 24 de outubro de 2010

Violência contra as mulheres disfarçada pelo discurso moralista

O penúltimo artigo escrito por Maria Rita Kehl, antes de ser demitida do Estadão, por ter escrito artigo elogioso ao governo Lula. "Ninguém á afavor do aborto", afirma

Repulsa ao sexo

Maria Rita Kehl 15 de outubro de 2010 às 15:55h

Este é o penúltimo texto escrito pela psicanalista antes de ser demitida do jornal O Estado de S. Paulo. Porém, trata de um tema mais atual do que nunca: o aborto

Entre os três candidatos à presidência mais bem colocados nas pesquisas, não sabemos a verdadeira posição de Dilma e de Serra. Declaram-se contrários para não mexer num vespeiro que pode lhes custar votos. Marina, evangélica, talvez diga a verdade. Sua posição é tão conservadora nesse aspecto quanto em relação às pesquisas com transgênicos ou células–tronco.
Mas o debate sobre a descriminalização do aborto não pode ser pautado pela corrida eleitoral. Algumas considerações desinteressadas são necessárias, ainda que dolorosas. A começar pelo óbvio: não se trata de ser a favor do aborto. Ninguém é. O aborto é sempre a última saída para uma gravidez indesejada. Não é política de controle de natalidade. Não é curtição de adolescentes irresponsáveis, embora algumas vezes possa resultar disso. É uma escolha dramática para a mulher que engravida e se vê sem condições, psíquicas ou materiais, de assumir a maternidade. Se nenhuma mulher passa impune por uma decisão dessas, a culpa e a dor que ela sente com certeza são agravadas pela criminalização do procedimento. O tom acusador dos que se opõem à legalização impede que a sociedade brasileira crie alternativas éticas para que os casais possam ponderar melhor antes, e conviver depois, da decisão de interromper uma gestação indesejada ou impossível de ser levada a termo.
Além da perda à qual mulher nenhuma é indiferente, além do luto inevitável, as jovens grávidas que pensam em abortar são levadas a arcar com a pesada acusação de assassinato. O drama da gravidez indesejada é agravado pela ilegalidade, a maldade dos moralistas e a incompreensão geral. Ora, as razões que as levam a cogitar, ou praticar, um aborto, raramente são levianas. São situações de abandono por parte de um namorado, marido ou amante, que às vezes desaparecem sem nem saber que a moça engravidou. Situações de pobreza e falta de perspectivas para constituir uma família ou aumentar ainda mais a prole já numerosa. O debate envolve políticas de saúde pública para as classes pobres. Da classe média para cima, as moças pagam caro para abortar em clínicas particulares, sem que seu drama seja discutido pelo padre e o juiz nas páginas dos jornais.
O ponto, então, não é ser a favor do aborto. É ser contra sua criminalização. Por pressões da CCNBB, o Ministro Paulo Vannucci precisou excluir o direito ao aborto do recente Plano Nacional de Direitos Humanos. Mas mesmo entre católicos não há pleno consenso. O corajoso grupo das “Católicas pelo direito de decidir” reflete e discute a sério as questões éticas que o aborto envolve.
O argumento da Igreja é a defesa intransigente da vida humana. Pois bem: ninguém nega que o feto, desde a concepção, seja uma forma de vida. Mas a partir de quantos meses passa a ser considerado uma vida humana? Se não existe um critério científico decisivo, sugiro que examinemos as práticas correntes nas sociedades modernas. Afinal, o conceito de humano mudou muitas vezes ao longo da história. Data de 1537 a bula papal que declarava que os índios do Novo Continente eram humanos, não bestas; o debate, que versava sobre o direito a escravizar-se índios e negros, estendeu-se até o século XVII.
 A modernidade ampliou enormemente os direitos da vida humana, ao declarar que todos devem ter as mesmas chances e os mesmos direitos de pertencer à comunidade desigual, mas universal, dos homens. No entanto, as práticas que confirmam o direito a ser reconhecido como humano nunca incluíram o feto. Sua humanidade não tem sido contemplada por nenhum dos rituais simbólicos que identificam a vida biológica à espécie. Vejamos: os fetos perdidos por abortos espontâneos não são batizados. A Igreja não exige isto. Também não são enterrados. Sua curta existência não é imortalizada numa sepultura – modo como quase todas as culturas humanas atestam a passagem de seus semelhantes pelo reino desse mundo. Os fetos não são incluídos em nenhum dos rituais, religiosos ou leigos, que registram a existência de mais uma vida humana entre os vivos.
A ambigüidade da Igreja que se diz defensora da vida se revela na condenação ao uso da camisinha mesmo diante do risco de contágio pelo HIV, que ainda mata milhões de pessoas no mundo. A África, último continente de maioria católica, paupérrimo (et pour cause…), tem 60% de sua população infectada pelo HIV. O que diz o Papa? Que não façam sexo. A favor da vida e contra o sexo – pena de morte para os pecadores contaminados.
Ou talvez esta não seja uma condenação ao sexo: só à recente liberdade sexual das mulheres. Enquanto a dupla moral favoreceu a libertinagem dos bons cavalheiros cristãos, tudo bem. Mas a liberdade sexual das mulheres, pior, das mães – este é o ponto! – é inadmissível. Em mais de um debate público escutei o argumento de conservadores linha-dura, de que a mulher que faz sexo sem planejar filhos tem que agüentar as conseqüências. Eis a face cruel da criminalização do aborto: trata-se de fazer, do filho, o castigo da mãe pecadora. Cai a máscara que escondia a repulsa ao sexo: não se está brigando em defesa da vida, ou da criança (que, em caso de fetos com malformações graves, não chegarão viver poucas semanas). A obrigação de levar a termo a gravidez indesejada não é mais que um modo de castigar a mulher que desnaturalizou o sexo, ao separar seu prazer sexual da missão de procriar.

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