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domingo, 3 de abril de 2011

Líbia - Como e porque

Anna Malm
As resoluções 1970 e 1973 adotadas pelo Conselho de Segurança da ONU permitem à qualquer país bombardear a Libia.

Muitos dos que estão aplaudindo a destruição da Líbia, podem não ter entendido muito bem que eles próprios poderão ser as próximas vítimas de uma agressão internacional sancionada pelo Conselho de Segurança da ONU. Não nos enganemos quanto a aparencia superficial de legalidade. Essas duas resoluções são ilegais, uma vez que contradizem e confromtam os próprios estatutos da ONU. È como decretar leis nacionais que contradigam e confromtem o próprio Código Penal do país, e isso assim, sem maiores cerimonias ou explicações. * **

Ser amigo ou aliado subjugado dos interesses imperialistas, dessa vez claramente liderados pelos EUA-França-Inglaterra e dentro de poucas horas – NATO, não dá à ninguém razão de se sentir seguro e tranquilo. Uma constante dos Estados Unidos é a de não ser leal a ninguém, como a história já nos mostrou com suficiente claridade, como por exemplo com Saddam Hussein no Iraque e Hosni Mubarak no Egito. Dois “amigos” de por aí vinte à trinta e tantos anos.

Líbia: Quem são os insurgentes e quem são seus patrões? Introduzindo o assunto Peter Dale Scott [1] ressalta que o mundo está frente a uma situação muito imprevisível e perigosa, com os Estados Unidos já muito envolvido no Iraque e Afeganistão e com assaltos esporádicos ao Yemen e à Somalia, agora bombardeando ainda a mais um país, a Líbia, no norte da Africa. Obama, já deu indicações de que os Estados Unidos estão se encaminhando à uma guerra para mudança de regime no continente africano. Peter Dale aponta também para o fato de que essa guerra seria prolongada – compreenda se dolorosa, assim como a do Iraque nos mostrou como é que é, e com potenciais riscos de se extender bem para além da Líbia, na região compreendendo o norte da Africa e o Oriente Médio.

Muammar Al Gaddafi, aos 27 anos foi o chefe de um pequeno grupo de oficiais (que no espírito declarado por Abdel Nasser) tirou, através de um golpe de estado não sangrento, o então rei da Libia do poder. Depois disso os assaltos e ameaças à sua vida começaram. Esses assaltos e ameaças vieram de monarquistas, do Serviço de Inteligencia de Isarael (Mossad), de alguns desafetos palestinianos, do Serviço de Segurança da Arábia Saudita, da Fronte Nacioanl de Salvação da Líbia (NFSL na sigla inglesa), da Conferencia Nacional da Oposição Líbia (NCLO na sigla inglesa), do Serviço de Inteligencia Britanico, do antagonismo dos Estados Unidos e em 1995, do mais sério de todos:- de um grupo similar à Al-Qaeda, um grupo revolucionário Islamico conhecido como A- Jamaà al-Islamiyyah al-Muqatilah bi-Libya, (LIFG pelas siglas inglesas) [1]

Dessa lista ressalta-se abaixo os que são os insurgentes na Líbia hoje em dia.. Para facilitar a compreensão serão esses apresentados como 1), 2) e 3). Note-se que são grupos treinados e armados, sendo assim na Libia, uma situação muito diferente da que a que ocorreu tanto na Tunísia como no Egito.

1) A Frente Nacional para a Salvação da Líbia (NFSL). Com a intenção de tirar Kadafi do poder, Israel e os Estados Unidos treinaram rebeldes anti-Kadafi em diversos países africanos. Documentação oficial norte-americana indica que o financiamento para a guerra secreta contra a Libia, com base em Chad, também veio da Arabia Saudita, Egito, Marroco, Israel e Iraque. O NFSL também foi apoiado pelo Serviço de Inteligencia Francês, assim como pela CIA . [1]

2) Conferencia Nacional para Oposição na Líbia (NCLO):- A Frente Nacional para a Salvação da Líbia (NFSL) cooperou com esse movimento (o NCLO) e recursos britanicos foram, e estão sendo usados, para apoiar os mencionados e outros oposicionistas na Libia. O maior grupo chefiando a insurreição atual é exatamente esse under ponto 2), ou seja, a Conferencia Nacional –NCLO. O MI6 (Serviço de Inteligencia britanico) foi já no passado acusado de apoiar essa organização. O envolvimento do governo britanico com a NCLO, apesar de ser ponto de controversa, é claro quanto ao deixar o grupo LIFG (apontado acima como um grupo similar à Al-Qaeda) à desenvolver bases para suporte logístico, ou seja, comunicação transporte e moradia por ex , assim também como o levantamento de fundos na Inglaterra. [1]

3) A Frente Islamica – Al-Jamaá al Islamiyya al Muqatilah bi-Libya (Libyan Islamic Fighting Group- (LIFG)O ataque de maior significancia dessa Frente Islamica foi a tentativa de assassinar Kadafi em 1996, quando jogaram uma bomba na comitiva dele, mas o grupo também age como guerrilhas contra as Forças de Segurança da Libia. Dirigentes desse grupo são considerados como envolvidos em criar um “Emirato Islamico” na agora chamado parte liberada, no noroeste da Libia. [1]

Nota-se que já em setembro de 1995, confrontações violentas ocorreram entre as forças de segurança de Kadafi e essa Frente Islamica –LIFG.[1]

Americanos, ingleses e franceses são agora camaradas em armas com esse grupo – não só similar a Al-Qaeda como também um elemento da mesma. Hillary Clinton admite que esses serão provavelmente mais anti americanos que Kadafi, mas é como diz o provérbio, os fins justificam os meios... [1]

Num estudo recente, Stephen Walt, à respeito do que a Libia nos ensina quanto as diferenças entre os neo-conservativos e os liberais nos Estados Unidos, argumenta que os atuais liberais- intervencionistas dos Estados Unidos (a administração de Obama, por exemplo) nada mais são que neo-cons com uma retórica mais agradável. [2]

Walt deduz que os Estados Unidos foram levados à guerra contra a Libia em grande parte pelos conselhos de liberais- intervencionistas como Susan Rice, atual embaixador para os Estados Unidos na ONU, Hillary Clinton, e os assistentes junto ao NSC (National Security Council- Conselho de Segurança Nacional) , Samantha Power e MichelMcFaul. Fato é que de acordo com muitos diferentes fontes e reportes, Obama leva o pais à guerra, apesar da objeção e oposição do próprio Secretário da Defesa norte-americano, Robert Gates, e de um, ao que entendi, importante conselheiro da Segurança Nacional, Tom Donilon. [2]



Por minha parte vi na televisão suéca que o próprio Secretário de Defesa norte-americano, Robert Gates, num encontro com altos dignatários da sua esfera, disse claramente que qualquer futuro oficial responsável pela segurança norte-americana, deveria deixar sua cabeça ser examinada por professionais competentes, se lhe passasse pela mesma iniciar qualquer outra ocupação ou agressão militar na Africa ou no Oriente Médio. Não se passaram mais que pouquissimos dias e lá estava a administração Obama a caminho de atolar-se na Libia, no norte da Africa, claramente e ativamente apoiado por Hillary Clinton.



De acordo com Stephen Walt [2] os neo-conservativos mostram desprezo pelas instituições internacionais, que eles veem como barreiras a uma maor aquisição de poder, enquanto os liberais intervencionistas (tipo Obama e Hillary Clinton) parecem ver as mesmas instituições como uma maneira certa e segura de poder legitimar uma dominancia norte-americana no mundo.

Liberais intervencionistas e neo-conservativos acreditam então que o poder militar norte-americano possa ser um instrumento altamente efetivo de imposição, assim também como ficam igual e profundamente alarmados frente à perspectiva de ter o poder atomico nas mãos de qualquer outros que não eles mesmos, e seus mais próximos aliados. [2]

Eu, por minha vez, fico profundamente alarmada vendo os Estados Unidos, que considero como o maior terrorista na face da terra, tendo justo isso. Acesso total as armas de destruição em grande escala. Se não usaram toda a escala no Iraque, usaram o uranio empobrecido, ou seja lixo atomico em escala massiva, com consequencias abomináveis para os iraquianos, fato esse que a média corporativa cúmplice, até hoje silencia e isso também em grande escala.

Constatamos agora que a guerra no Cosovo- Iugoslávia, em 1999, efetuada pela OTAN, foi a primeira grande guerra na história da humanidade na qual nenhuma operação de combate se efetuou entre os contraentes no campo de batalha, sendo também a primeira guerra sem qualquer e nenhuma perda, em combate, por parte do agressor. [3]

Desproporções vergonhosas vimos à partir de então no Iraque, Gaza, Afeganistão e entre muitos outros ataques furtivos como por ex. no Yemen e Somalia. Motivo de maior preocupação ainda, se isso fosse possível, seria essa, ao que parece, nova moda de agressões internacionais sendo ilegalmente sancionada pelo Conselho de Segurança da ONU.

Quanto a todos os porques da atual guerra nunca se pode saber ao certo, mas para além dos enormes interesses financeiros da atual coalição bombeando a Libia e que agora se voltam à OTAN para completar o serviço, existem ainda motivos com sequencia histórica, como apresentados abaixo em sequencia. [**]

1969, quando da tomada de poder por Kadafi. Na décima- quarta sessão da ONU, na Assembléia Geral, os embaixadores dos Estados Unidos e da Inglaterra foram notificados que a Libia não mais acomodaria as bases militares inglesas e americanas.

1970- O setor financeiro da Libia foi nacionalisado por Kadafi.

1973. Iraque, Algéria e Libia nacionalizarm suas indústrias energéticas petroleiras e Libia levou a agenda de nacionalização à OPEC (sigla inglesa para os países produtores de petróleo).

1977- A Libia de Kadafi proclama uma economia de “self-governance” (governo próprio), um tipo de socialismo, baseado no modelo Iugoslavo.

Ao apresentado acrescenta-se a tentativa de Kadafi de introduzir recentemente uma forma de moeda-ouro que naturalmente viria em detrimento do dólar como reserva de valuta mundial. O dólar como moeda de reserva mundial é, como sabemos, uma das duas pernas que ainda sustemtam o colosso derrocando. A outra perna sendo o abusivo poder militar do mesmo.

Ao histórico podemos acrescentar que depois de tudo- até mesmo depois das acusações levantadas contra Kadafi, tanto acusações de terrorismo como acusações, provavelmente baseadas em fatos, de financiamente de terrorismo, ocorridas mais ou menos até ano 2000- a situação mudou. Especialmente depois de 2003 as relações de Kadafi com as potencias imperialistas tomaram um novo rumo. Diz-se que em muitos aspectos por causa da atuação de um dos seus filhos. Os antigos colonistas, assim como as mais novas potencias emperialistas voltaram à Libia e lá estiveram até agora, de onde saem as pressas para voltar com bombas, mísseis, Tomahawks e coisas do genero. 

Pelo que vemos a tentativa de submissão da Libia não adiantou muito. O que essas ditas potencias querem é tudo e mais nada, sem ter que dar satisfações á nenhum governo dirigido por um coronel que pensa ser alguma coisa. Dessa vez pretendem conseguir isso com o avanço bélico da OTAN e pela cumplicidade ilegal do Conselho de Segurança da ONU.

REFERENCIAS E NOTAS:

* Beto Almeida, “Líbia, Obama, Dilma e o exemplo de Tancredo” em www.patrialatina.com.br

**Alexander Mezyaev, “UN Security Council on Libya: Killing the International Law” No original em www.strategic-culture.org : “The UN Security Council passed Resolution 1973 on Libya slapping new sanctions on the country and reinforcing the ones it endures due to Resolution 1970 dated February 26. The truth is that the new Resolution erodes the international law to the point of virtually killing it…What sense does it make to urge a government facing a mutiny to stop fighting and does the UN have the right to de fato side with the rebels trying to overthrow the administration in a UN member country?

[1] Peter Dale Scott, a former Canadian diplomat and English Professor at the University at the University of California. ( Peter Dale- ex diplomata canadense e professor na cátedra de inglês da Universidade da California) em www.globalresearch.ca

[2] Stephen Walt in www.raceforiran.com : “What Intervention in Libya Tell us About the Neocon-Liberal Alliance”

[3] Wilhelm Agrell, “Morgon-Dagens Krig”. Edição suéca. (As Guerras de Amanhã)

* Anna Malm escreve direto de Estocolmo na Suecia para o Pátria Latina
http://www.patrialatina.com.br/colunaconteudo.php?idprog=b3b4d2dbedc99fe843fd3dedb02f086f&codcolunista=69&cod=1981

sexta-feira, 18 de março de 2011

Resolução sobre a Líbia é “histórica”, afirma Ban

Leia, abaixo, a íntegra da declaração do Secretário-Geral sobre a resolução adotada pelo Conselho de Segurança sobre a Líbia.
“O Conselho de Segurança adotou hoje (17/03) uma decisão histórica. A Resolução 1973 afirma, clara e inequivocamente, a determinação da comunidade internacional para cumprir sua responsabilidade de proteger os civis da violência perpetrada sobre eles por seu próprio governo. A resolução autoriza a utilização de todas as medidas necessárias, incluindo uma zona de exclusão aérea para evitar mais mortes e perda de vidas inocentes. Ao adotar esta resolução, o Conselho de Segurança deu grande importância ao pedido da Liga dos Estados Árabes para a ação.
Dada a situação crítica na região, espero que uma ação imediata seja tomada sobre as disposições da Resolução. Estou preparado para assumir minhas responsabilidades, tal como estipulado pela resolução, e trabalharei em estreita colaboração com os Estados-Membros e as organizações regionais para coordenar uma resposta compartilhada, eficaz e oportuna.
Mais uma vez, me junto ao Conselho na convocação para um cessar-fogo imediato, a suspensão de todos os ataques contra civis e para garantir o acesso humanitário completo para quem precisa. Nosso árduo esforço diplomático continuará. Dando prosseguimento a sua missão em Trípoli, meu Enviado Especial para a Líbia se encontrou ontem (16/03) em Cairo com o Secretário-Geral da Liga dos Estados Árabes. Neste fim de semana ele me informará sobre os resultados de suas conversas. Eu mesmo viajarei para a região em breve para avançar em nossos esforços comuns nesta hora crítica.
Ban Ki-moon, Secretário-Geral das Nações Unidas.

Conselho de Segurança autoriza uso de força na Líbia

Fronteira da Líbia e Tunísia

O Conselho de Segurança aprovou nesta quinta-feira (17/03) uma resolução que autoriza o uso da força na Líbia para proteger civis de ataques, especialmente na cidade de Benghazi, onde Muamar Kadafi teria declarado uma invasão para acabar com as revoltas contra seu regime. Aprovada por 10 votos a zero, com a abstenção de cinco países – entre eles, o Brasil – a resolução foi adotada de acordo com o Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, que prevê o uso da força se necessário.
Demonstrando preocupação com o aumento da violência e do número de mortes de civis, o Conselho estabeleceu uma zona de exclusão aérea, proibindo todos os voos – exceto aqueles para ajuda humanitária – no espaço aéreo líbio. Ela também reforça o embargo de armas imposto pelo Conselho em fevereiro, quando foram aprovadas sanções contra autoridades da Líbia, como aquela que congela os bens de Kadafi. Os relatos da contínua violência contra manifestantes na Líbia foram encaminhados para o Tribunal Penal Internacional (TPI).
O Conselho pediu aos Estados-Membros que assegurem a implementação concreta do embargo, incluindo inspeções de navios suspeitos em alto-mar e de aviões saindo da ou para a Líbia. Os Estados da Liga Árabe também foram chamados para cooperar com as ações do Conselho.
O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, havia dito que Kadafi perdeu sua legitimidade ao declarar guerra contra seu povo. A Diretora Geral da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), Irina Bokova, reiterou seu pedido ao Governo que respeite a liberdade de expressão e que cesse com os ataques contra membros da imprensa. O Programa Mundial de Alimentos (PMA), por sua vez, tem provido alimento aos mais de 300 mil líbios refugiados nas fronteiras com a Tunísia ou com o Egito por causa da violência no país.

ACNUR se prepara para deslocamentos em massa na Líbia

Estas pessoas estão saindo de Benghazi rumo a Egito, para fugir dos combates na Líbia. Foto: ACNUR/ F.Noy.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) informou hoje que mais de 300 mil pessoas já deixaram a Líbia por causa da violência interna no país e anunciou que está preparando um plano de contingência para responder a um possível fluxo massivo em direção ao Egito.
“Os eventos nos próximos dias serão cruciais em relação a um possível fluxo massivo de deslocados no leste da Líbia”, disse em Genebra a porta-voz do ACNUR, Melissa Fleming. Ela acrescentou ser possível que outras de saída do país estejam sendo bloqueadas – o que tornaria a fronteira da Líbia com o Egito um destino natural das pessoas que querem deixar o território líbio.
Fleming disse que as equipes do ACNUR verificaram, nos últimos dias, um número crescente de líbios fugindo para o Egito. Foram cerca de 1.490 na última quarta-feira, de um total de 3.163 pessoas. “A maioria dos entrevistados na fronteira com o Egito disse que deixaram a Líbia pelo medo de serem atingidos no conflito. Muitos mencionaram as recentes ameaças feitas pelo governo de bombardear Benghazi”, acrescentou Fleming, mencionando uma cidade ainda dominada pelas forças anti-governamentais.
Segundo equipes do ACNUR na fronteira egípcia, uma família líbia de Ajdabiyya disse que estão sendo feitas transmissões de rádio pedindo à população para sair do país. Eles também disseram que aviões jogam panfletos encorajando a saída dos civis.
Uma equipe da agência de notícia Reuters que deixou Ajdabiyya na quarta-feira passada disse ao ACNUR que tiveram que fugir durante os conflitos que devolveram a cidade para o controle de tropas pró-governo. “Eles vinham de todas as partes, perseguindo todos, sem distinção. As pessoas fugiram para salvar suas vidas”, disse um dos jornalistas.
Um jornalista palestino desta mesma equipe da Reuters foi impedido de entrar no Egito. Ele está com um senhor palestino de 64 anos e sua filha, que aguardam na fronteira deste a última terça-feira. Outras famílias palestinas que chegaram à fronteira tiveram que retornar e estão aguardando em território Líbia.
Equipes to ACNUR encontraram dois homens que chegaram feridos por tiros. Um deles, que alegou ser um revolucionário baleado no conflito em Raz Lanuf na semana passada, contou que não havia mais quartos no hospital de Benghazi, o que o forçou a voltar ao Egito em busca de tratamento.
Alguns dos entrevistados não foram claros sobre suas razões para deixar a Líbia, dizendo simplesmente que estavam no Egito para procurar assistência médica. “Entretanto, os carros cheios de malas sugerem outra coisa. Outros entrevistados são sinceros em suas avaliações. Um homem nos disse ‘nós queríamos democracia, mas acabamos em guerra’’, afirmou Melissa Fleming.
Enquanto isso, na fronteira da Tunísia com a Líbia, sons de tiroteios no território Líbio podem ser escutados. Nos últimos dias, o fluxo de chegadas na fronteira tem sido de mil pessoas por dia, a grande maioria de africanos subsaarianos.
O ACNUR ouviu relatos consistentes das novas chegadas de todas as nacionalidades sobre os numerosos postos ao longo da estrada de Trípoli a Rad Adjir, na fronteira com a Tunísia. Eles descreveram abusos por soldados pró-governo na rota, incluindo um confisco contínuo de celulares, cartões de memória e câmeras.
“Refugiados e solicitantes de refúgio em contato com o ACNUR via telefone relatam que fugir para a fronteira tem se tornou mais perigoso, principalmente para os homens solteiros, que correm o risco de recrutamento forçado pelo Exército líbio”, ressaltou a porta-voz do ACNUR.
Centenas de refugiados permanecem escondidos na Líbia, sendo que muitos relataram ao ACNUR que estão sem comida e vivendo sob medo constante. O ACNUR Trípoli e seus parceiros locais continuam a oferecer assistência aos refugiados e aos solicitantes de refúgio com quem mantêm contato.
Das cerca de 300 mil pessoas que já deixaram a Líbia, quase 160 mil cruzaram a fronteira com a Tunísia e outros 130 mil saíram pela fronteira com o Egito. Outras cruzaram as fronteiras com Níger e Argélia.
ACNUR e OIM
O ACNUR e a Organização Internacional para Migrações (OIM) informaram hoje que seu programa conjunto de retiraras de trabalhadores migrantes que fugiram da Líbia para o Egito e a Tunísia já beneficiou mais de 50 mil pessoas.
As duas organizações reforçaram o pedido de novos financiamentos para esta operação de retirada, pois há mais de 10 mil pessoas – nas fronteiras da Tunísia, Egito, Níger e Argélia – que ainda aguardam para serem repatriadas. A OIM estima que mais de um milhão de trabalhadores migrantes ainda encontra-se na Líbia, a grande maioria da África sub-saariana.
“Estamos muito agradecidos à Tunísia, Egito, Argélia e Nigéria por oferecer refúgio a milhares de civis que fogem da Líbia diariamente e necessitam de assistência”, disse em Genebra o Alto Comissário da ONU para Refugiados, António Guterres. “Com a ajuda impressionante destes governos, conseguimos administrar o movimento massivo e repentino de pessoas. Mas esta crise humanitária está longe de acabar”, completou Guterres.
http://unicrio.org.br/acnur-se-prepara-para-deslocamentos-em-massa-na-libia/

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Conselho de Direitos Humanos ordena inquérito sobre violência na Líbia

Foto do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Crédito: ONU/ACNUDH.
Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas acaba de condenar veementemente a recente violência na Líbia e ordenou um inquérito internacional sobre os supostos abusos ocorridos no país. Em resolução adotada por unanimidade no final de uma sessão especial realizada hoje (25/02) em Genebra, o Conselho de 47 membros também pediu ao governo líbio que cumpra com sua responsabilidade de proteger sua população e que cesse imediatamente com todas as violações dos direitos humanos. O Conselho também pediu que o Governo parasse com todos os ataques contra civis, respeite a vontade popular, e as aspirações e reivindicações de seu povo.
Na abertura da sessão, a Alta Comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas, Navi Pillay, pediu uma ação urgente para acabar com a violência na Líbia e que os autores de tais atrocidades fossem responsabilizados, advertindo que a repressão aos manifestantes está piorando. “É preciso fazer mais. Encorajo a todos os atores internacionais que tomem as medidas necessárias para parar o derramamento de sangue”, afirmou, acrescentando que, de acordo com algumas fontes, milhares podem ter sido mortos ou feridos durante a semana passada.
“Embora os relatórios ainda sejam incompletos e difíceis de verificar, uma coisa é dolorosamente clara: a repressão na Líbia de manifestações pacíficas está aumentando de forma alarmante com assassinatos em massa, prisões arbitrárias, detenções e torturas de manifestantes. Tanques, helicópteros e aviões militares estão sendo usados indiscriminadamente para atacar os manifestantes”, apontou.
“O líder líbio deve parar a violência agora”, disse a Alta Comissária sublinhou, lembrando que a Líbia é um membro do Conselho de Direitos Humanos e se comprometeu a respeitar os direitos
humanos, e é também um Estado-Parte de vários tratados internacionais de direitos humanos. Pillay lembrou ainda que sob a lei internacional “qualquer funcionário, em qualquer nível, que ordenar ou realizar atrocidades pode ser penalmente responsável e que os ataques generalizados e sistemáticos contra a população civil podem constituir crimes contra a humanidade”.
Testemunhas dentro e fora da Líbia vêm descrevendo cenas de horror, Pillay disse aos delegados. Forças líbias estão atirando em manifestantes e transeuntes, fechando bairros e atirando de telhados. Eles também bloqueiam as ambulâncias para que os feridos e mortos sejam deixados nas ruas. Relatos de hospitais indicam que a maioria das vítimas foi baleada na cabeça, no peito ou no pescoço, sugerindo execuções arbitrárias e sumárias, disse a Alta Comissária. “Imagens das quais não foi possível verificar a origem parecem retratar a escavação de valas comuns em Trípoli”, acrescentou.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Os líbios recuperaram sua alma


“A libertação da Líbia é iminente. Entre a população já há um clima de festa, o ditador praticamente já não se faz ouvir e polícia e exército escolheram abertamente pelo lado do povo.” Omar Elkeddi, do departamento árabe da Radio Nederland, acredita piamente nisso e as últimas notícias da Líbia parecem confirmar o que ele diz.
Omar Elkeddi

Pressenza Trípoli, 2/23/11 Natural da Líbia, Omar vive desde 1999 na Holanda, para onde veio como refugiado político. Nestes últimos dias, ele tem falado continuamente com seus familiares e amigos na Líbia – ao menos quando as conexões permitem. A internet está no momento cortada e os telefones também não funcionam em grande parte do país.
Libertação
As palavras que Elkeddi usa para o que acontece neste momento em seu país são “revolução” e“libertação”. E alegria, pelo menos em algumas regiões.
“A população da Líbia está muito feliz, as pessoas nas ruas expressam sua alegria. Depois de 42 anos elas estão livres, se livraram do ditador. Mas não foi fácil. Muitos morreram e muitos ficaram feridos.”
O contraste com a situação de uma semana atrás é enorme. “A Líbia era uma ditadura totalitária sob o regime de Muamar Kadhafi. As pessoas não ousavam dizer nada. As únicas demonstrações eram a favor do regime. Agora o medo continua apenas na capital, Trípoli. O resto do país está nas mãos do povo”, diz Elkeddi.
Na noite de segunda-feira, Kadhafi apareceu rapidamente na televisão líbia declarando que estava em Trípoli e que não havia fugido para a Venezuela. Não está claro onde ele se encontra, mas aparentemente ele não quer entregar o poder. A situação ainda é muito tensa em várias partes do país. Mesmo em Benghazi, segunda maior cidade da Líbia, onde a revolta começou e que já está nas mãos de grupos anti-Kadhafi.
Inspiração
Os líbios foram inspirados pelos acontecimentos na Tunísia e no Egito, diz Elkeddi. Assim como nestes outros países, é uma revolução da juventude. A libertação da Líbia teve início com uma demonstração no dia 17 de fevereiro. A convocação foi divulgada via Facebook. Antes, demonstrações eram brutalmente reprimidas. O que mudou agora?
“O exército e a polícia foram para o lado do povo”, diz Elkeddi. Os militares teriam distribuído armas entre a população. Os únicos que ainda seguem Kadhafi, segundo o jornalista, são as brigadas de segurança, ao menos em parte. Mesmo membros destes grupos se afastaram.
Construção
Elkeddi ouviu dizer que membros dos temidos e odiados comitês revolucionários caíram nas mãos do povo. Não teriam sido mortos, mas estariam em prisão domiciliar.
“Até agora, em toda a área libertada, não há notícias sobre invasões de propriedade ou saques, nem nenhuma mulher foi violentada. Isso mostra que as pessoas recuperaram a alma que haviam perdido durante a ditadura.”
Elkeddi também acredita ser um bom sinal o fato de que mesmo na cidade natal do ditador, Sirte, os membros da tribo de Kadhafi não tenham sido molestados. E acha que não haverá guerra civil em seu país, pois segundo ele existe uma unidade nacional.
Omar Elkeddi nunca viu algo assim na Líbia e diz que gostaria de estar lá para participar e ajudar na construção da democracia. “Há muito o que fazer na Líbia.” Após 42 anos de ditadura, o país não tem Constituição ou partidos políticos, embora exista uma oposição ativa no exílio.

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