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domingo, 28 de julho de 2013

Processo de Cura


Hoje me lembrei de uma foto onde um professor dizia que estava feliz pois suas mãos estavam sujas apenas de giz, e comecei a pensar a respeito. De que estavam sujas minhas mãos?
Nos últimos meses me vi envolta em reflexão a respeito da Medicina e sua via crucis no Brasil. Vivi o processo do paciente terminal. Me senti revoltada, indignada, arrependida, agredida, e envergonhada por tudo que via, lia, ouvia...
Pessoas que foram atendidas por mim, no “postinho”, às vezes sem direito de passar por ele, por que moravam do outro lado da cidade, mas que faziam questão de passar comigo, a médica do postinho, e que foram atendidas por mim, mesmo assim, um paciente a mais no dia, sem direito a descanso e sem almoço, escondidos da administração... esses mesmos pacientes, publicando artigos,  comentários desonrosos, vergonhosos sobre os médicos do SUS, os médicos do Brasil... eu me senti enganada, ludibriada, ofendida. E pasmem, eles ainda continuam passando comigo, acho que pensam que eu não li os comentários deles... acham que o médico não ouve, não vê, não sente. E ainda continuam sendo atendidos com um sorriso no rosto, como se nada tivesse acontecido. Não sentem vergonha?
Minhas mãos estão sujas sim do suor do meu trabalho, 12h por dia, de segunda à sexta-feira, do sangue daqueles que um dia suturei, das mágoas e ressentimentos que um dia presenciei, das lágrimas que um dia sequei, da vida. Minhas mãos estão sujas do suor da vida, das  lágrimas por mim choradas diante de tanta dor e sofrimento presenciadas diariamente.  Isto sim, sei que poucos verão sentados confortavelmente em seus sofás, assistindo o Fantástico e Jornal Nacional.
Minhas mãos estão sujas sim pelo pedido de socorro ouvido em vão, quando não pude, mesmo querendo, ajudar alguém. Quando, mesmo tendo o diagnóstico feito, não pude evitar a morte de alguém. Quando tive que consolar a família, com argumentos que não convenceriam nem a mim. Dizer o quê diante da lentidão do sistema, da burocracia, da falta de recursos? E trabalho em São Paulo, a capital. Vocês podem imaginar o que acontece no resto do Brasil?
Sei que sou médica. Antes, durante e depois desta vida. Tenho orgulho de minhas escolhas, de optar pela periferia, mesmo quando ouço críticas (justas) às condições que enfrento lá. Fiz escolhas embasadas em minhas crenças pessoais, e ninguém tem a obrigação de pensar como eu. Acredito e isso me basta. Ontem alguém me beijou as mãos em agradecimento pelo resultado do meu trabalho, e eu beijei suas mãos em retribuição. Faço do meu trabalho, a extensão da minha religiosidade, do meu sacerdócio. Se isso me basta, acho que estou no caminho certo.

Acho que a cura está chegando.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

93% dos médicos se queixam de interferência de planos de saúde




Em pesquisa do Datafolha, profissionais relatam limitações para exames e tempo de internação

Nota média atribuída pelos médicos às operadoras foi de 4,7; entidades cobram desburocratização 

CRISTINA MORENO DE CASTRO 
SAMIA MAZZUCCO 
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Os médicos de São Paulo desaprovam os planos de saúde com que trabalham, acham que eles interferem em sua autonomia e que isso prejudica o atendimento.
Em pesquisa feita pelo Datafolha, a pedido da APM (Associação Paulista de Medicina), a nota média atribuída pelos médicos às operadoras foi de 4,7, de zero a dez.
Mais do que isso, 93% deles afirmaram sentir que há interferência dos planos de saúde em sua autonomia.
Entre as interferências, os médicos dizem que não recebem por procedimentos feitos, que os planos limitam o número de exames e que a burocracia dos planos retarda a internação de pacientes.
"Isso causa grave prejuízo a quem trabalha e à população que gasta recursos para garantir à família um atendimento melhor", diz Jorge Curi, presidente da APM.
A pesquisa ouviu médicos de todas as especialidades. Segundo Curi, "as que exigem maior conversa com o paciente, como pediatria, clínica e obstetrícia, são as mais prejudicadas".
A Amil, sexta maior operadora de SP em total de clientes, é citada como a que mais interfere no trabalho do médico em cinco de sete quesitos (veja quadro).
As entidades médicas cobram da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) que regule os planos para que desburocratizem o atendimento aos pacientes. A ANS não se pronunciou.
Há hoje 17,6 milhões de usuários de planos médicos no Estado. Um terço dos 110 mil médicos do Estado é credenciado em planos de saúde, segundo a APM.
A assistente de vendas Cláudia Tavares, 35, diz que vive um "parto" desde que descobriu um nódulo na tireoide, em abril, que depois se mostrou um tumor maligno. Ela teve problemas com seu plano, o GreenLine.
Cláudia gastou três meses para ser autorizada a fazer a biópsia e mais três semanas para conseguir a cirurgia. Depois, mais um mês para fazer um exame pós-operatório.
Agora, tem 40 dias para iniciar a iodoterapia, mas o plano diz que só poderá fazê-la em março. Cada sessão custa de R$ 5.900 a R$ 7.000. "Ganho abaixo de R$ 1.000 por mês, não tenho condição." Nenhum representante da GreenLine foi localizado.

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