quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Associação Brasileira de Antropologia (ABA): Nota da CAI sobre a UHE Belo Monte


A Comissão de Assuntos Indígenas da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) vem novamente a público expressar a sua profunda preocupação quanto a forma como vem sendo encaminhada a implantação da projetada hidroelétrica de Belo Monte, contrariando estudos técnicos e procedimentos legais estabelecidos.
Em nota emitida em outubro de 2009, chamávamos a atenção para:
1 – a conclusão de estudos realizados por uma Comissão de Especialistas, alertando que os impactos sobre os povos indígenas da região não se limitavam de maneira alguma a chamada “área diretamente afetada”, mas podem atingir seriamente os recursos ambientais e as condições de vida e bem estar de outras terras indígenas, situadas fora daquela faixa estrita. Nas terras indígenas Paquiçamba, Arara da Volta Grande/Maia, Juruna Km17, Apyterewa, Araweté, Koatinemo, Kararaô, Arara, Cachoeira Seca e Trincheira Bacajá habitam diversas coletividades cujos modos de vida e culturas poderão receber impactos negativos, sem mencionar indígenas que estão nas cidades e os índios isolados. Até aquele momento – e pior até hoje! – sequer tais impactos estão adequadamente dimensionados.
2 – estudos técnicos conduzidos por especialistas da própria FUNAI resultaram em um parecer que atrelava a viabilidade da obra ao cumprimento, entre outras, de três condicionantes básicas: a) que se defina uma vazão mínima (“hidrograma ecológico”) que garanta a sobrevivência dos peixes e quelônios e a navegabilidade das embarcações dos povos indígenas que ali vivem; 2) que sejam apresentados estudos sobre os impactos previstos no Rio Bacajá, na beira do qual vive o povo Xikrin, que possivelmente sofrerá graves alterações (a serem melhor analisadas); 3) que sejam estabelecidas garantias efetivas de que os impactos decorrentes da pressão antrópica sobre as terras indígenas serão devidamente controlados (vide Parecer Técnico n° 21 – Análise do Componente Indígena dos Estudos de Impacto Ambiental, de 30 de setembro de 2009).
3 – segundo o documento acima serão atraídos para a região pelo menos 96.000 pessoas, o que agravará a pressão sobre os recursos naturais das Terras Indígenas (TIs) – que já é critica na região por conta de outras obras previstas, como a pavimentação da Transamazônica BR-163 e a construção da linha de transmissão de Tucuruí a Jurupari. O aumento populacional que o empreendimento trará afetará também as comunidades indígenas porque vai incentivar um consequente aumento da pesca e caça ilegal, da exploração madeireira e garimpeira, de invasão às TIs e de transmissão de doenças.
No ano que se seguiu surgiram novas e importantes manifestações no mesmo sentido que propugnávamos, estabelecendo novas condicionantes e insistindo nas recomendações sobre a oitiva dos indígenas e no cumprimento de todas as disposições legais.
Em 01 de fevereiro de 2010, o Presidente do IBAMA emitiu uma licença ambiental parcial, condicionada ao cumprimento de 40 condicionantes, dentre as quais a apresentação de manifestação da FUNAI, atestando a “aprovação dos programas voltados aos indígenas e demais condições elencadas no Parecer Técnico nº 21/CMAM/CGPIMAFUNAI” (Licença Prévia IBAMA 342/2010, item 2.28). Apesar dessas recomendações, até o presente momento não se configura o atendimento destas condicionantes, nem a apresentação de programas específicos voltados para a salvaguarda das condições de vida e bem estar dos indígenas.
Em abril de 2010, a Relatoria Nacional do Direito Humano ao Meio Ambiente, da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais e Ambientais/Plataforma DHESCA, observou que “ o projeto atual da usina de Belo Monte contém graves falhas e impactos irreversíveis sobre a população que vive às margens do rio Xingu, particularmente os ribeirinhos e indígenas. A mais grave violação aos direitos humanos detectada durante a Missão foi a não-realização das Oitivas Indígenas, obrigatórias pela legislação brasileira e pela Convenção 169 da OIT, ratificada pelo Brasil em 2002 (…). Apesar dos milhares de indígenas e 24 grupos étnicos da Bacia do Xingu afirmarem publicamente que não foram, em nenhum momento, ouvidos durante o licenciamento de Belo Monte, a FUNAI atestou previamente a viabilidade da usina hidrelétrica mesmo havendo necessidade de estudos complementares, que poderiam vir a concluir o contrário e insiste que estes grupos teriam sido ouvidos. O direito constitucional de realização de Oitivas Indígenas foi sumariamente violado” (p.2).
Em abril de 2010, o Ministério Público Federal ajuizou Ação Civil Pública, argüindo a falta de regulamentação do artigo 176 da Constituição Federal: “§ 1º – A pesquisa e a lavra de recursos minerais e o aproveitamento dos potenciais a que se refere o caput deste artigo somente poderão ser efetuados mediante autorização ou concessão da União, no interesse nacional, por brasileiros ou empresa constituída sob as leis brasileiras e que tenha sua sede e administração no País, na forma da lei, que estabelecerá as condições específicas quando essas atividades se desenvolverem em faixa de fronteira ou terras indígenas.” (Constituição Brasileira, Art 176). Em direção semelhante há uma outra Ação Pública – que denunciava “irregularidades graves na emissão da licença prévia”, constatadas no Parecer Técnico emitido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis / IBAMA (nº 114/2009 COHID/CGENE/DILIC/IBAMA. 23/11/2009), dentre as quais a ausência de análises aprofundadas das “questões indígenas” – aguardando ambas seu julgamento na 9ª. Vara da Justiça Federal no Estado do Pará.
Em 15 de setembro de 2010, o Relator Especial da Organização das Nações Unidas sobre a situação dos direitos humanos e liberdades fundamentais dos Povos Indígenas, James Anaya, observou que “dada a magnitude Associação do projeto Belo Monte e seus potenciais efeitos sobre as populações indígenas, é necessária a realização de consulta adequada a estes povos para obter um consenso sobre todos os aspectos que os atingem” (Human Rights Council Fifteenth Session. Report by the Special Rapporteur on the situation of human rights and fundamental freedoms of indigenous people, James Anaya, A/HRC/15/37/Add.1, p.35, parágrafo 53).
Na nota que emitimos em 2009, já havíamos registrado a manifestação do cacique Raoni em 14/10/2009, que exigia a presença de autoridades para informar e discutir o projeto, evidenciando que o imprescindível diálogo e interlocução sobre o assunto havia sido inteiramente insuficiente. Registramos também a manifestação de repúdio das lideranças Kayapó, em 26/10/2009, ao posicionamento da FUNAI, convocando para a realização de uma grande assembléia nas cabeceiras do rio Xingu.
Em 03 de dezembro de 2010, durante o Encontro Ciências Sociais e Barragens, realizado na Universidade Federal do Pará, em Belém, caciques e lideranças dos Povos Indígenas Arara e Juruna da Volta Grande do Xingu, Kayapó Metuktire, Txukarramãe do Parque Indígena do Xingu e Gavião da Montanha divulgaram uma nota pública reafirmando a posição contrária à construção de Belo Monte e solicitando ao Presidente da República do Brasil respeito pelos Povos Indígenas e pelas leis brasileiras que os amparam. Josinei Arara, presente no Encontro, ratificou a disposição do seu Povo para ir à guerra ou à morte para impedir esta barragem. Nesta ocasião, o Cacique Raoni pediu que em nome da paz não seja construída a barragem de Belo Monte.
Em 20 de dezembro de 2010, em vídeo gravado, José Carlos e Josinei Arara informaram que jamais receberam visita da FUNAI, para falar ou esclarecer sobre as condicionantes indígenas incluídas na Licença Prévia de Belo Monte (disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=KoDm3SHeEys). Igualmente, o líder Ozimar Pereira, Juruna, afirmou que não houve qualquer ação relativa à fiscalização e à ampliação da Terra Indígena Paquiçamba. Ambos ratificam a falta de conhecimento de ações relativas ao cumprimento das condicionantes e reiteram a absoluta falta de participação dos indígenas nos processos relativos ao licenciamento da obra.
Em 11 de janeiro de 2011 a FUNAI, em cumprimento de sua missão de proteção aos índios isolados, veio a emitir portaria de interdição de uma área, denominada Ituna/Itatá, entre os rios Xingu e Bacajá, a 50 km da área do projeto da Usina Hidrelétrica Belo Monte. Lá foram confirmadas notícias sobre a presença de índios sem contatos regulares e pacíficos com os regionais, bem como sem a proteção de equipes técnicas da FUNAI. O que evidencia claramente o grau de desconhecimento das autoridades (e inclusive dos organismos técnicos) sobre a região e confere as iniciativas de tentativas de aceleração do empreendimento um caráter particularmente dramático.
Poucos dias depois, no entanto, o IBAMA, através de um ato administrativo aparentemente rotineiro, veio a conceder permissão para o desmatamento de 238, 1 hectares destinados à instalação do canteiro de obras, de alojamentos de trabalhadores e abertura de estradas (Autorização de Supressão de Vegetação nº 501/2011).
Em 20 de janeiro de 2011, a FUNAI, em lacônicos dois parágrafos, afirmou não haver “óbice para emissão da licença Instalação-LI das obras iniciais do canteiro de obras da UHE Belo Monte, considerando a garantia de cumprimento das condicionantes”. Tal pudica ressalva, aqui grifada, vem a tomar uma outra forma no parágrafo seguinte. Aí o IBAMA, caracterizado como “órgão licenciador”, é solicitado a colaborar com a FUNAI nas “ações de comunicação e proteção da Terra Indígena Paquiçamba, observada a situação de vulnerabilidade que esta poderá ser submetida” (Ofício nº013/2011/GAB-FUNAI). Que extraordinária delicadeza para lembrar que A T.I. Paquiçamba está situada no limite da área de instalação do mencionado canteiro!
Em 26 de janeiro de 2011, o presidente substituto do IBAMA concedeu a Licença de Instalação (nº770/2011), autorizando a instalação do canteiro, alojamentos para trabalhadores, abertura de estradas e outras obras de infra-estrutura da construção, novamente acompanhada de condicionantes. E, mais grave, apoiado na inexistência de “óbice” da FUNAI, não faz qualquer menção específica às condicionantes referentes aos Povos Indígenas.
Em 27 de janeiro de 2011, o Ministério Público Federal (MPF) no Pará ajuizou ação civil pública em que pede a suspensão imediata da licença, acima mencionada, para instalação dos canteiros de obras da hidrelétrica de Belo Monte. Para o MPF, a licença é totalmente ilegal porque não foram atendidas pré-condições estabelecidas pelo próprio IBAMA para o licenciamento do projeto, incluindo a regularização fundiária de áreas afetadas e programas de apoio a indígenas. (Processo nº 968-19.2011.4.01.3900 – 9ª. Vara Federal em Belém).
A Norte Energia, consórcio responsável pela construção da UHE, solicitou um empréstimo-ponte de R$ 1,087 bilhão ao BNDES. Em esclarecimento ao Ministério Público Federal (MPF) o BNDES reiterou seu posicionamento de não financiar “qualquer intervenção no sítio em que está prevista a construção da usina sem que tenha sido emitida a licença de instalação do empreendimento como um todo”. Os recursos provenientes do BNDES não poderiam portanto serem utilizados senão após o início efetivo das obras (e não da pura instalação do canteiro), exigindo a Licença e Instalação Final, e não aquela de instalação do canteiro (ora concedida pelo IBAMA) (vide site www.amazonia.org.br, 03-02-2011).
Por outro lado a Associação dos Povos Indígenas Juruna do Xingu km 17 – APIJUX KM 17, a Associação do Povo Indígena Arara do Meia – ARIAM, juntamente a dezenas de organizações e associações da sociedade civil, também em 27 de janeiro de 2011, assinaram uma “nota de repúdio” à concessão da Licença de Instalação, na qual responsabilizam “o Governo Brasileiro por qualquer gota de sangue que venha a ser derramada nesta luta”.
Em 28 de janeiro de 2011, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, enviou carta à Presidente do Brasil, denunciando a postura “negligente e desrespeitosa” do Governo brasileiro, a cooptação de indígenas e reafirmando a disposição de lutar ao lado dos Povos Indígenas do Xingu.
A compreensível resistência dos indígenas, que foram até agora desconsiderados enquanto parte do planejamento e do processo decisório, poderá deflagrar conflitos de grande monta, onde a vida dos próprios indígenas e de funcionários governamentais estarão em risco, bem como o patrimônio e a segurança de terceiros poderão ser também duramente atingidos. Novas campanhas difamatórias contra os direitos indígenas poderão alimentar-se de acontecimentos deploráveis que resultam do açodamento, omissão e descumprimento das normas legais cabíveis.
Devemos aqui reiterar dois pontos essenciais desta questão. Primeiro, é fundamental observar que os encaminhamentos e decisões relativas a UHE de Belo Monte estão descumprindo uma disposição legal, a Convenção 169, amplamente acatada no plano internacional e já incorporada pela legislação brasileira – a de que as populações afetadas sejam adequadamente informadas sobre o empreendimento e todas as suas conseqüências, exigindo-se que sejam antecipadamente consultadas e segundo procedimentos legítimos e probos. Segundo, as condicionantes estabelecidas pelos pareceres técnicos da FUNAI e do próprio IBAMA precisam ser rigorosa e imediatamente atendidos, antes que o empreendimento venha a passar a fases mais avançadas de viabilização. Isto deverá ser verificado por avaliadores autônomos.
Cabe voltar assim a alertar a opinião pública e as autoridades máximas do governo brasileiro para o descaso e a precipitação com que tem sido conduzida a aprovação e implementação do projeto, dentro de uma estratégia equivocada e perigosa de criar supostos “fatos consumados”, sem levar em conta os dispositivos legais e as ponderações técnicas. A prosseguir desta maneira o empreendimento poderá trazer consequências ecológicas e culturais nefastas e irreversíveis, configurando para o Governo Federal uma situação social explosiva e de difícil controle. Além de, no cenário internacional, colocar o país na contra mão do respeito aos direitos das populações indígenas, como também de outros segmentos afetados igualmente por grandes projetos.
Rio de Janeiro, 05 de fevereiro de 2011.
João Pacheco de Oliveira
Coordenador da Comissão de Assuntos Indígenas/CAI/ABA
Fonte: ABA – Associação Brasileira de Antropologia

I Encontro Estadual Mulheres de Axé do Rio de Janeiro

Mãe Beata de Iemanjá, Makota Valdina e Mãe Meninazinha de Oxum no seminário nacional, Rio de Janeiro
O I Encontro Estadual Mulheres de Axé do Rio de Janeiro será realizado pela Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, nos dias 21 e 22 de fevereiro de 2011, no município do Rio de Janeiro, em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro. 
O evento tem como objetivos: contribuir para qualificar o ativismo das mulheres de terreiro, fortalecer e ampliar a participação das mulheres nos espaços de defesa dos direitos humanos e do controle social de políticas públicas.

Público: Mulheres de terreiros do Estado do Rio de Janeiro, Gestores de saúde e da promoção da igualdade racial

Local: Arcos Rio Palace Hotel
Avenida Mem de Sá 115 - Lapa - Centro/ RJ
Equipe de organizaçao:

Mãe Nilce de Iansã, Mãe Torody de Ogum, Mãe Tânia de Iemanjá, Mãe Lúcia de Oxum, Vilma de Oyá, Mãe Dadá, Bartira de Ossain 

Secretaria-executiva:
Pai Renato de Obaluaiê, Pai Celso de Obaluaiê, 
Babá-egbé Adailton de Ogum e Pai Edilson de Omulu

Conselheiras: 
Mãe Beata de Iemanjá e Mãe Meninazinha da Oxum

Coordenação-geral: Ogan Marmo de Oxossi

Fotografia: Luciana Kamel e Marmo 

Agradecimentos: 
- Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro/Gerência de DST/Aids, Sangue e Hemoderivados
- Criola
- Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde
- Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde
Informações no seminariorede2010@yahoo.com.br 

DOMINGO, 6 DE FEVEREIRO DE 2011


Inscrições no Encontro Mulheres de Axé

As inscrições para o Encontro Mulheres de Axé do Rio de Janeiro encerram-se no dia 11 de fevereiro. É importante enviar todos os dados da ficha de inscriçao para o e-mail: seminariorede2010@yahoo.com.br 

Aviso importante: O encontro nao arcará com despesas de lanches, transporte e hospedagem. Todas as despesas serão por conta das pessoas inscritas.

A Comissão Organizadora

O que as mulheres acharam do encontro?

Para mim a palavra que sintetiza esse encontro Mulheres de Axe foi  fortalecimento, para nos esse foi o ponto central desse encontro. O encontro permitiu fortalecer a auto-estima, as trocas de experiencias, e perceber que nao estamos sozinhas nessa luta. Ainda temos muito o que fazer mas lembro que muitos passos foram dados. 
A Rede Nacional de Religioes Afro-Brasileiras e Saude merece elogios pois possibilitou que pudessemos nos encontrar, falar do nosso jeito, o jeito da tradicao. As expositoras tambem conseguiram falar sem aquelas palavras muito tecnicas que acabam ficando chatas e a gente nao consegue entender. E eu acho que nos mulheres  aproveitamos muito bem esse tempo e espaco. Estamos todas de parabens.


O encontro foi um presente para mim. Foi a primeira vez que sai de Porto Velho. Imaginem voces, eu nunca tinha visto o mar, isso mexeu comigo, fiquei emocionada. É bom conhecer pessoas de outros estados para trocar experiêncais , saber sobre o que as mulheres estão realizando com tanta dificuldade, encontrando saídas para desenvolver suas ações e o melhor de tudo é saber que náo estou sozinha nessa luta(Mãe Hostia - Porto Velho/Rondônia).

Temos que retornar para o nosso caminho, voltar a fazer as reuniões nos terreiros e continuar nos encontrando como fazíamos antigamente. É muito importante a informação e vejo que nos outros estados tem muita açao e o Rio de Janeiro precisa ficar também fortalecido. Temos que continuar levando esse trabalho para o nosso povo(Mãe Beata de Iemanjá - Nova Iguaçu/Rio de Janeiro).

Eu gostaria de elogiar a organizaçao do evento, pela tranquilidade e harmonia desse encontro. Eu já estou com saudades e acho que seria importante a realizaçao de outros encontros como esse para trocarmos experiências pois as  mulheres saem fortalecidas. Reunimos forças para dar continuidade as nossas lutas e atividades locais(Mãe Jorgina - Magé/Rio de Janeiro).

Para mim o mais importante foi o acolhimento e o carinho que esse encontro nos oportunizou. Volto para casa fortalecida, com muita bagagem pois aprendi muita coisa. Vou exigir meus direitos e continuar batendo na porta do SUS para que o povo de axé possa ser atendido com dignidade e respeito(Mãe Omin -  Londrina/Paraná

Eu sinto que estamos crescendo cada vez mais e juntando mais gente em torno desses temas. O Mulheres de Axé aqui no Rio teve discussões bem interessantes que nos permitiram ficar melhor informadas sobre temas que enfrentamos em nosso dia a dia. É bom saber que juntas podemos pensar  soluções para nossos  problemas. Ainda temos muito o que conquistar(Mãe Tânia de Iemanjá - Todos os Santos/Rio de Janeiro)

Eu pensava que estava sozinha mas a Rede me integrou a outras mulheres e me proporcionou momentos de felicidade por saber que ainda é possível mudar muitas coisas. Mulheres de Axe tem subido todo o ano a Serra da Barriga no dia 20 de novembro, mas a grande novidade foi a conquista de um espaco permanente para a Barraca da Saúde da Rede Nacional de Religões Afro-Brasileiras e Saúde, na Serra da Barriga. Penso que podemos fazer um encontro como esse em Maceió e vamos juntar mais mulheres e crescer, mas crescer muito.(Mãe Neide - Maceio/Alagoas).


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

BIG BROTHER BRASIL - Luiz Fernando Veríssimo

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço...A  décima primeira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil,... encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que em Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos, na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE...
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
 Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que  recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo.
Eu gostaria de perguntar, se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?
São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros: profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados..
Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a isso, todo santo dia.
Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada, meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.
E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social: moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?
(Poderiam ser feitas mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores!)
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ler a Bíblia, orar, meditar, passear com os filhos, ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.
Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.
Um abismo chama outro abismo.
 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011


Darwin ou Gandhi?

Noticia do diário britânico The Guardian, mencionada por este jornal (28/1), traz informações muito inquietantes: o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que nos últimos anos se empenhara em conseguir um acordo mundial na área de mudanças climáticas, “está encerrando seu envolvimento nas negociações internacionais” nessa direção; pretenderia redirecionar seu discurso para uma agenda que promova a energia limpa e o desenvolvimento sustentável. Decepcionado com os resultados das reuniões do clima em Copenhague (2009) e Cancún (2010), já reduziu sua equipe nessa área, de 12 para 5 pessoas, e aumentou para 12 pessoas a equipe voltada para desenvolvimento sustentável.
Segundo Robert Orr, secretário-assistente da ONU para planejamento estratégico e conselheiro de Ban Ki-moon, “é bem evidente que não haverá acordo sobre o clima a curto prazo”. Por isso mesmo, diz ele, o secretário-geral não se envolverá a fundo na próxima reunião a esse respeito, no fim do ano, na África do Sul.
Isso acontece no momento em que a ONU e o mundo centram as atenções e esperanças na Rio +20, a reunião que, em maio/junho do ano que vem, fará um balanço do que aconteceu na Rio 92 e tentará avançar. Naquele ano, conseguiram-se progressos que pareciam extraordinários: uma convenção sobre clima, que estabeleceu metas para a redução de emissões de gases poluentes dos países industrializados; outra sobre diversidade biológica; uma declaração sobre florestas (na época, desmatavam-nas perto de 15 milhões de hectares por ano); e uma Agenda 21 mundial, pela qual os países industrializados se comprometiam a aumentar de 0,36% para 0,70% de seu produto bruto anual a ajuda para os países mais pobres resolverem os problemas mais agudos de saneamento, saúde, fome, etc.
Passados quase 20 anos, as metas de redução de emissões ainda não foram cumpridas e elas continuam aumentando. Há poucos meses, em Nagoya, chegou-se a uma declaração que reconhece a necessidade de ampliar as áreas de proteção e a soberania de cada país sobre as espécies da biodiversidade em seu território, bem como a necessidade de compartilhar resultados em caso de exploração – mas ainda faltam regras práticas para esse compartilhamento. O desmatamento no mundo caiu para cerca de 7 milhões de hectares anuais, mas ainda é muito alto. Os países ricos não aumentaram sua contribuição e, diz a ONU, o mundo continua com 925 milhões de pessoas passando fome, porque têm renda diária inferior a US$ 1,25 (pouco mais de R$ 2). Poderão vir a ser mais pessoas, porque já nos aproximamos de 7 bilhões no planeta e chegaremos, em meados deste século, a pelo menos 8,5 bilhões.
Significaria a decisão de Ban Ki-moon uma descrença na possibilidade de se chegar um modelo de “governança global” na área do clima – e talvez em outras, como a do consumo de recursos naturais além da capacidade de reposição do planeta? Seja como for, é uma decisão que aponta com clareza para a crise do nosso “padrão civilizatório”.
Mas como alcançar a governança global, se os conflitos continuam regidos por questões étnicas e religiosas (islamismo, budismo, judaísmo, catolicismo, protestantismo, etc.)? Se a África continua a ser um caldeirão de conflitos, com suas centenas de etnias divididas pelos interesses dos que as colonizaram e disputando em guerras os recursos naturais? Se no País Basco e na Irlanda, entre outros, não se superam conflitos secessionistas? Como reduzir emissões de poluentes, se a China quer urbanizar centenas de milhões de pessoas e o carvão (altamente poluidor) ainda é a principal fonte de energia para elas? Se a Índia ainda tem 400 milhões de pessoas sem energia e também precisa do carvão? Como avançar se, na hora das decisões, cada país, cada empresa, cada indivíduo pensa prioritariamente em sua competitividade, sua sobrevivência, seus recursos financeiros – e acaba sempre prevalecendo a lógica financeira? Não é esse, por exemplo, o caso da Usina de Belo Monte, que nos últimos dias povoou as páginas dos jornais, com uma decisão que se opõe à boa lógica e ao bom senso (ver editorial deste jornal, 31/1, A3)?
Há pouco, a revista New Scientist divulgou estudo da Universidade de Cambridge mostrando que o consumo mundial de energia pode ser reduzido em 70% “com medidas simples e tecnologias existentes”, seja na área de veículos (que não deveriam pesar mais de 300 quilos), seja na construção de edifícios (iluminação natural, redução da calefação), seja na área de eletrodomésticos (lavadoras de roupas e louças; ou simplesmente tapando panelas). Mas já há uns 15 anos não estava disponível a tecnologia de automóveis híbridos, que as empresas montadoras se recusaram a adotar porque reduziria seu lucro de US$ 15 mil por unidade nas supercamionetas para US$ 1 mil nos carros econômicos?
Quem encontrará o caminho para superar as lógicas financeiras? Como se enfrentarão as brutais desigualdades de renda no mundo e em cada país (inclusive no nosso)? O presidente francês, Nicolas Sarkozy, está de volta com a proposta de criar uma taxa sobre todas as transações financeiras internacionais destinada a criar um fundo contra a miséria – tese do economista James Tobin, que correu o mundo na década de 1990, mas não conseguiu avançar.
No livro Da Pobreza ao Poder (Cortez Editora), Duncan Green diz que o século 21 será caracterizado por mudanças no equilíbrio de poder entre nações e pela lenta queda das potências pós-2.ª Guerra Mundial, além da “ascensão inexorável de novas potências como a China e a Índia” e “do papel ampliado de blocos regionais e sub-regionais”. Mas também pelo “colapso de países pobres à margem dessas mudanças tectônicas”. Pergunta ele se a ONU “atingirá a maioridade com algo parecido com uma forma de governo global”. Mas acaba dizendo: “Darwin ou Gandhi, não sabemos ainda quem prevalecerá”.
Washington Novaes é jornalista.
Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo.

A questão do apego


É comum se fazerem aos psiquiatras perguntas do tipo “o que leva uma pessoa a matar” ou “porque alguém escolhe ser bandido”, atos anti-sociais que chocam as pessoas. Meu trabalho cotidiano é avaliar comportamentos e personalidades, o que tem me mostrado o valor de um velho aforisma da Medicina, segundo o qual “cada caso é um caso”. Muita gente aprecia teorias generalizadoras, aquelas que se aplicam a todos os casos, o que torna difícil explicar que não é porque duas pessoas cometeram atos violentos, que as duas tenham agido pelos mesmos motivos, sejam estes conscientes ou inconscientes.
Um dos fatores relevantes é a história de vida da pessoa, que costuma trazer luzes sobre suas emoções e formas de pensar e agir. Mas, mesmo assim, há motivos que podem seguir obscuros, por mais esforços que se façam para desvendá-los. Mas isso não acontece só com quem é encaminhado para uma avaliação psiquiátrica, há motivos difíceis de entender em condutas nas mais variadas situações sociais.
Imagine, por um instante, que você fosse presidente do Egito e uma multidão de um milhão de pessoas exigisse a sua renúncia, o que você faria ? Não é fácil reunir um milhão de pessoas, você sabe disso. O Roberto Carlos já disse que queria ter “um milhão de amigos” e nesse caso seriam um milhão de pessoas reunidas em torno de você, mas não de amigos. Não pareceria mais lógico simplesmente negociar com a oposição, buscar uma “saída honrosa” e renunciar, sabendo que você não está agradando ?
Do ponto de vista prático, levaríamos em conta as implicações financeiras, mas não parece ser o caso. O ditador egípcio teria uma fortuna no exterior e já enviou toda a sua família para viver em Londres, confortavelmente. O que o mantém apegado ao poder, em um país que visivelmente não o tolera mais, a ponto do próprio Exército evitar tomar o partido dele ?
Não parece haver outra explicação racional a não ser a do apego à situação conhecida (o poder, no qual está há três décadas), mesmo com risco de vida ao permanecer lá, tão hostilizado e sem apoios leais. A vida dele, evidentemente, é muito diferente das nossas, mas o que sua conduta quase inexplicável tem de útil para nós é uma reflexão sobre a questão do apego. Mesmo sem situações de vida tão extremas como as dele (ou num país com costumes tão diferentes do nosso como o Egito), também temos em nossas vidas, em algum momento, o enfrentamento com a questão do apego.
Ninguém passa por essa vida sem alguma escolha que implique em se desapegar de algo, de alguém, ou de uma situação. O que casos extremos podem nos mostrar, e nos servir, é que o apego pode vir a se tornar, em si mesmo, um vício – como uma droga – quando não há mais motivos racionais que o sustentem.
Montserrat Martins, colunista do Ecodebate, é Psiquiatra.

SP: IPF e Umapaz discutem Educação para Sustentabilidade em atividade gratuita e aberta ao público

Educação para a Sustentabilidade é o tema da atividade expandida do Fórum Social Mundial de Dakar, que será realizada pelo Instituto Paulo Freire no dia 9 de fevereiro, das 16 às 18 horas (horário de Brasília), na Casa da Cidadania Planetária: Rua Pedro de Souza Campos Filho, 289, Alto da Lapa, São Paulo (travessa da Rua Cerro Corá na altura do número 748).
Com palestra do presidente do Instituto Paulo Freire (IPF), Moacir Gadotti, e a presidente do Departamento de Educação Ambiental da Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz (Umapaz), Rose Marie Inojosa, a mesa de diálogo contará com a coordenação de Sheila Ceccon (IPF) e relatoria de Julia Tomchisnky (IPF).
Na oportunidade, será promovido um diálogo sobre educação para a sustentabilidade e a formação de “cidadãos planetários”, considerando as diferentes concepções destes termos nas experiências educativas dos participantes. O objetivo é promover a troca de experiências e o intercâmbio de processos de ensino e aprendizagem formais e não formais que contribuem para a sustentabilidade nas diversas dimensões da existência humana.
A atividade é gratuita. Para acompanhar via skype, acesse: cidadaniaplanetaria.
Confirme a sua participação pelo e-mail: juliatom@paulofreire.org

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