A aula de Sistemas Religiosos do 3º ano na FTU nos trouxe mais uma grande surpresa.
A leitura de dois textos propostos pelo Prof. Olavo (Ygbere) foi difícil.
Página após página, dúvidas surgiam.
Os dois autores, Pierre Verger e Juana Elbein, são respeitadíssimos em seus meios. Ambos constituem leitura obrigatória para quem se propõe a compreender as Religiões Afro-Brasileiras, e são de fundamental importância para quem deseja ser um Teólogo Umbandista.
Pierre Verger, um jovem abastado francês que resolve viver fotografando a cultura africana, e que fica famoso com isso, vem para o Brasil, e se aproxima das Religiões Afro-Brasileiras, passando a escrever sobre elas. Chega a visitar a África algumas vezes, onde recebe o título de Fatumbi, e a outorga de Babalawô.
Juana Elbein, antropóloga, iniciada no Santo e esposa de um Babaogê famoso na Bahia, defende seu doutorado em Sorbone/França com a tese Os Nagô e a Morte, e que posteriormente vira um dos livros mais lidos pelos adeptos das Religiões Afro-Brasileiras.
O primeiro texto, escrito por Pierre Verger, é uma crítica ao livro Os Nagô e a Morte, escrito por Juana Elbein. Neste texto ele a acusa formalmente de construir um sistema teogônico sofisticado, estruturado, embelezado, dualista. Chama atenção para obras que deram origem a erros crassos de interpretação da cultura africana, e como estas obras foram sendo assimiladas e reproduzidas por outros autores, até chegarem aos dias atuais. Erros conceituais, e até de simples tradução ou entonação vocal originaram, segundo ele, erros irreparáveis. E para os pesquisadores menos preparados, ou menos sérios, estes conceitos foram fatais. Enfim, Verger coloca dúvidas razoáveis na obra de Juana Elbein. Questiona sua idoneidade e sua reputação como Antropóloga.
O segundo texto foi escrito por Juana Elbein, como direito de resposta dado pela mesma revista que publicou o texto de Verger. Neste texto, Juana fala do conceito “desde dentro”, como uma iniciada e verdadeiramente envolvida com o Santo, chamando a atenção para o fato de que, embora Verger tenha o título de Babalawô, jamais teve terreiro. Segundo ela, sua experiência de anos vividos em dois terreiros famosos da Bahia, mais a sua convivência conjugal com seu Pai de Santo, capacitam-na para escrever sobre tudo que viu e ouviu. Ela chama isto de Antropologia Iniciática.
Acusa Verger de buscar o exotismo, a beleza e o bom primitivo, desprezando a capacidade do povo africano em construir uma teogonia tão complexa e paradigmática. Questiona ela os conceitos expostos no conhecimento acadêmico. Questiona também a capacidade de Verger em interpretar os valores dos povos africanos. Acusa-o de falta de probidade, de ter limitações metodológicas, e de produzir conceitos esvaziados de conteúdos filosóficos.
Segundo ela, Verger insiste em manter a cultura africana no primitivismo, num estágio inferior, fácil de ser manipulada e dominada. Mais um discurso colonialista europeu. Tenta desvalorizar a tradição oral, fonte primordial do conhecimento das Religiões Afro-Brasileiras, e procura desacreditar a sagrada relação mestre-discípulo, que caracteriza o caminho da Iniciação dos terreiros.
Em sua visão racista, mantém a visão folclorizante do outro, que se deseja dominar, procurando alienar e cooptar.
O discurso de Pureza esconde o vil preconceito. Pretendendo proteger os incapazes, procura manter o monopólio da Verdade, e reage à mínima contrariedade, quando vê seu Poder ameaçado.
Juana mostra-se coerente, consciente de seu papel. Verger, ao contrário, mostra-se arrogante e superior.
Ficam bem claros os conflitos de gênero entre Verger e Joana. Mas, acima de tudo, fica evidente a questão de hierarquia. Como pode uma iniciada sobrepor a opinião de um Babalawô? Verger não suportou, por certo, as duas coisas ao mesmo tempo. Perda de prestígio, humilhação e medo do ostracismo, teria sido isso que pensou Verger para compilar seu texto?
É inegável o valor de Verger, ele é referência em todos os textos escritos sobre o Povo de Santo. Mas, é inegável que este texto deixou bem claro que a tolerância com as diferenças não era uma qualidade dele.
Em minha pouca experiência, achei fabuloso poder encontrar textos tão bem escritos, e capazes de manter minha atenção por tão longo tempo.
Ver também:
https://drive.google.com/file/d/0B0QWMww0gZVYMmFZemViU3p0d3M/view