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sábado, 21 de novembro de 2015
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Ciganos: quando não se adequadar significa ser segregado!
Ciganos são primitivos ou
apenas pobres?
Por DAN BILEFSKY
PARIS - O grupo de ciganos escutava os promotores que os
acusavam de ter vendido meninas como noivas por cerca de US$ 270 mil, avaliando
seu preço com base na sua habilidade para furtos. Três clãs familiares da
Croácia eram acusados de criar meninas e meninos, alguns com apenas 11 anos,
para cometer cem roubos em 2011 na França, na Bélgica e na Alemanha.
Uma testemunha de 20 anos disse ao tribunal que havia furtado
cerca de US$ 600 mil em dinheiro e joias, ou mais de US$ 7.000 por mês, desde
os 13 anos de idade. Ladrões menos habilidosos podem ser punidos, inclusive
sendo surrados por anciões roma (plural de "rom", forma pela qual
muitos ciganos identificam seu próprio grupo étnico).
Dos 27 acusados, 26 foram condenados por forçar crianças a
furtar, tendo recebido penas de dois a oito anos de prisão. No topo da rede
estava uma avó de 66 anos.
Esse caso em Nancy ilustra um debate cada vez mais ruidoso na
Europa acerca do que alguns chamam de "a questão rom", referência ao
povo nômade que veio da Índia para a Europa séculos atrás. Estima-se que 11
milhões deles estejam espalhados pela Europa.
A descoberta de uma criança loura durante uma batida policial em
um acampamento rom na Grécia, em 21 de outubro, e a prisão do casal com o qual
a menina vivia alimentaram especulações de que alguns roma estariam envolvidos
com tráfico de pessoas.
Na França e em outros lugares da Europa, a questão rom está
vinculada a perguntas complicadas a respeito de etnia, raça, exclusão social e
interesses políticos.
No julgamento de Nancy, a defesa apresentou um argumento
incomum: que os roma que foram para o crime estariam simplesmente agindo
conforme "o estilo da Idade Média".
Em setembro, o ministro francês do Interior, Manuel Valls,
socialista, causou furor ao dizer que apenas uma minoria dos roma conseguiria
se adequar à sociedade francesa. Muitos dos cerca de 20 mil roma da Romênia e
da Bulgária que estão na França sem terem cidadania vivem em acampamentos
esquálidos na periferia das cidades francesas.
No bairro parisiense do Marais, onde bandos de jovens roma
ousadamente roubam turistas e locais nos metrôs e nos caixas eletrônicos, uma
menina grávida dizia que esmolar era sua única forma de subsistência. "Não
temos documentos, não temos trabalho, o que mais podemos fazer?"
Acrescentou: "Também somos europeus".
Diante desse cenário volátil, a defesa apresentada no processo
de Nancy foi particularmente chamativa. "É muito difícil interpretar o
comportamento deles com base nos nossos próprios padrões do século 20", disse
Alain Behr, advogado da defesa. "Essa comunidade atravessa o tempo e o
espaço com suas tradições, e nós, na Europa, temos dificuldades em integrá-los.
No entanto, eles preservaram sua tradição, que é de sobrevivência." Behr
disse que a chamada venda de crianças noivas é parte da tradição multissecular
do dote cigano.
Mas o promotor Gregory Weill rejeitou as explicações culturais.
Ele disse que, ao chegar à cidade natal dos líderes da quadrilha, na Croácia,
os investigadores descobriram as imponentes casas de mármore da família. Nas
caravanas do clã no norte da França, afirmou ele, policiais acharam veículos
Mercedes, óculos de sol Dolce & Gabbana e bolsas Louis Vuitton.
Com grampos telefônicos, as autoridades descobriram uma operação
altamente organizada, usando crianças como ladras para evitar processos
judiciais aplicáveis a adultos. Celulares foram descartados para acobertar suas
pegadas, e receptadores se encarregavam de transformar joias roubadas em
dinheiro vivo.
"Alguém na Idade Média não seria capaz de lavar dinheiro
reunido por crianças", disse ele.
A antropóloga húngara Livia Jaroka, única representante rom no
Parlamento Europeu, sustenta que décadas de discriminação resultaram em
desemprego endêmico, pobreza extrema, baixos níveis educacionais, segregação
habitacional, tráfico humano, abuso de substâncias e altos índices de
mortalidade. "A explicação cultural para a criminalidade rom é
absurda", disse ela. "Tem a ver com a economia."
Um facho de esperança está na Espanha, onde há cerca de 750 mil
roma, quase metade deles com menos de 25 anos. Quase todas as crianças roma
concluem a escola primária. Em 1978, três quartos dos roma da Espanha viviam em
moradias inadequadas; hoje, apenas 12% estão nessa situação. Isidro Rodríguez,
diretor da Fundação Secretariado Cigano, citou o acesso à educação gratuita, ao
atendimento médico e a moradias sociais depois da repressão contra os roma
durante a ditadura franquista.
Jaroka, que cresceu em uma comunidade pobre de músicos roma em
Tata, na Hungria, disse que deve seu sucesso a seus pais, que insistiram para
que ela e seus irmãos frequentassem a escola. "Nós, os roma, também
precisamos aprender a nos emancipar".
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/136204-ciganos-sao-primitivos-ou-apenas-pobres.shtml
ver também: http://alimenteocerebro.com/uma-droga-social-chamada-preconceito/
ver também: http://alimenteocerebro.com/uma-droga-social-chamada-preconceito/
PS:
O povo cigano é um dos povos mais antigos da Europa. Fugindo da Índia há milhares de anos atrás, povoaram todo o território europeu. Dizem que sua origem é egipcia, e que foram para a Índia, sendo expulsos de lá para a Europa.
Povo apegado às tradições, seus costumes são transmitidos oralmente, de geração em geração. Não valorizam a educação formal, casam-se cedo, e valorizam famílias grandes.
Por possuírem costumes inadequados ao século XX, para a Europa civilizada e moderna, são excluídos dos direitos civis, de cidadania, educação e saúde. Mesmo nascidos em território europeu, são considerados imigrantes, ilegais, e expulsos se localizados. Por isso, fogem.
Se essa segregação tão "civilizada" é causadora da criminalidade, não sei. Esmolar, ler mãos, e morar em tendas são apenas os costumes visíveis aos que não pertencem ao Povo Rom. E os demais costumes? Por que respeitamos determinados povos em seus costumes, e a outros povos não???
Não estranhamos os costumes islâmicos? E mesmo assim, respeitamos o direitos que todos têm à sua religiosidade, mesmo quando ela significa analfabetismo para as mulheres, violência, estupros, comercialização (dotes/noivado/casamentos ainda na infância). E o que dizer dos costumes do Povo Judeu? Não causam tanto estranhamento quanto os costumes do Povo Islâmico?
Mas, e se eu analisasse os costumes do meu povo, o povo brasileiro? Acaso não são diferentes dos costumes do povo europeu? E se eu falasse da minha religiosidade? Umbanda? Nossos costumes, ritos, mitos, cosmogonia, ethos, não diferem dos ritos, mitos, cosmogonia e ethos cristãos, que tangem a tradição europeia???
O que faz o povo europeu melhor que os demais povos da terra, a ponto de expulsar, segregar, e destinar todo um povo à miséria, ignorância e violência? A Espanha tem um bom exemplo de como lidar com o diferente, como ajudar na melhoria das condições de vida, mesmo que as tradições os tornem resistentes às mudanças. E os resultados confirmam que vale a pena o exercício da tolerância e do respeito ao outro.
Os últimos acontecimentos na França trazem à tona indícios de que o povo europeu ainda não superou o facismo e o nazismo. Que estes fantasmas ainda pairam no ar civilizado da Europa. Os horrores perpetrados pela colonização do Oriente, da África e das Américas não ensinaram nada?
Mais uma vez confirmo que modernidade, cultura escrita, e estética não são sinônimos de ética, e muito menos de moralidade. As leis arduamente defendidas não garantem justiça social, respeito com as diferenças e auteridade.
Obaositala
domingo, 16 de janeiro de 2011
‘Be a killer, be a star’
Eugênio Bucci
O leitor haverá de perdoar o título em inglês, mas isso nem é bem um título de artigo – é, isso sim, um imperativo, uma lei não escrita e, não obstante, reiterada diariamente pelos mil alto-falantes da indústria de entretenimento, na língua dos filmes de guerra de Hollywood, com sabor de bombardeio: é um mandamento que tem gosto de slogan publicitário e de sentença de morte. Por isso vai no título assim mesmo, em inglês. Fica mais claro. A adoração da violência, da qual o espetáculo que nos cerca não consegue mais escapar, ordena, todos os dias, a todos os adolescentes que não veem sentido na vida: “Be a killer, be a star.” Mate e fique famoso. Se viver é uma tolice, matar será a sua trilha para o estrelato.
As evidências surgem em profusão. Agora, no fim de semana que passou, explodiu mais uma. Em Tucson, no Arizona, um rapaz de 22 anos, cujo nome não será digitado neste texto, disparou a sua arma contra inocentes aglutinados num evento público. Matou seis pessoas e feriu gravemente a deputada democrata Gabrielle Giffords, que tem chances de sobreviver. Sim, o roteiro é conhecido. Essa modalidade de crime vem se banalizando nos Estados Unidos, num script sempre idêntico, no qual só varia o nome das cidades, dos assassinos e de suas vítimas – o resto é igual: um jovem que, segundo depoimentos dos professores e vizinhos, era “estranho” e “desequilibrado”, tanto que cultuava ideais nazistas ou análogas, sofre um revés na escola, vai a uma loja do bairro, compra um fuzil ou uma garrucha e mata meia dúzia de conterrâneos.
Por quê? Aí está o ponto: as evidências são clamorosas e repetitivas, mas a compreensão do que se passa é mínima, quase miserável.
A maior parte das explicações faz referência ao fetiche que a cultura americana desenvolveu pelas armas de fogo. Alegam que espingardas e pistolas são objetos de desejo e, mais grave, estão à venda em qualquer esquina dos Estados Unidos. Um bom exemplar dessa linha de explicações pode ser visto no filme Tiros em Columbine, de Michael Moore, que levou o Oscar de melhor documentário em 2003. A partir de um caso semelhante a esse de Tucson, o filme de Michael Moore critica acidamente o fascínio da sociedade americana por equipamentos bélicos em geral. É claro que Michael Moore aponta um dado real, mas não resolve a charada. Proibir o comércio de armas de fogo não solucionaria a questão; a causa não é apenas essa e talvez não seja fundamentalmente essa. Há mais fatores a considerar.
Agora, no crime de Tucson, em que uma bala atravessou a cabeça da deputada Gabrielle Giffords, que é odiada pelos republicanos linha-dura, aparece com mais clareza outro ingrediente: as ideologias intolerantes, quase sempre de corte ultraconservador, comparecem como um denominador comum entre esses criminosos. Outra vez, o dado é real, mas parcial e perigosamente enganoso, pois pode levar a crer que esse tipo de crime é coisa de gente “de direita” – e não é, ou não é só de gente “de direita”.
O que falta ser levado em conta, aí, é o papel estruturante da indústria do entretenimento, tal como ela foi moldada pelo mercado americano. É essa indústria que fornece o repertório de signos, símbolos e narrativas pelo qual os valores da violência, da xenofobia e da intolerância ganham sentido. O fetiche da arma de fogo só virou uma categoria sólida na sociedade americana – e na sociedade global, por extensão inevitável – porque encontrou lugar nuclear no modelo do herói consagrado pelo entretenimento. Esse herói é o indivíduo solitário que, com sua integridade (ou turrice) e sua força, moral e física, enfrenta o “sistema”. Para ele, a acusação de ser desajustado é bobagem. Ele não liga. Ao contrário, ele até se sente fortalecido quando cai no estereótipo de “incompreendido”. O herói de Hollywood, tal como foi esculpido ao longo do século 20, é aquele que, em nome do bem, que só ele sabe qual é, recorre à violência mais selvagem; é aquele que se mata em nome de sua própria teimosia. Então, a mocinha que o ignorava irá chorar por ele. É nesse modelo de herói, precisamente nele, que se refugia o psiquismo desse tipo de criminoso. As mesmas manchetes (de jornais, revistas, rádio, televisão e internet) que o denunciam, expondo sua foto, sua biografia e suas esquisitices, fazem com que ele se sinta glorificado, num tempo em que é glamouroso, como nunca foi, fazer o papel de bandido corajoso. São essas as manchetes que ordenam: “Be a killer, be a star.”
Antes que se pense, então, que a saída estaria num recuo da imprensa, que teria de deixar dar destaque aos assassinos, é bom avisar: também nesse ponto existe uma armadilha. Assim como a raiz do problema não está na venda de armas nem nas ideologias “de direita”, ela também não está na tal “mídia”. Ela está, antes, na combinação dos três fatores que foram listados aqui: a idolatria das armas e de seus senhores, a intolerância extremada e, finalmente, o fator que articula os outros dois, o chamado “star system”, no qual ser estrela vale mais do que viver ou deixar viver. Essa é uma combinação poderosa, profunda, que não se resolve com proibições burocráticas. O público deseja (com um ardor demasiado, é verdade) ver de perto essas tragédias reais, e tem o direito de vê-las. Aos jornais cabe narrar as tragédias. A pergunta é: por que o jornalismo não tem sido capaz de ajudar o público a compreender essas tragédias?
Em parte, porque a imprensa se tornou parte da indústria do entretenimento e, com isso, perdeu distanciamento para criticar os fundamentos dessa indústria. Ela vê criticamente o mercado de armas e o obscurantismo das ideologias, mas não visualiza direito como entretenimento e violência se entrelaçam. Sem se dar conta, a imprensa é o céu estrelado pelos assassinos que ela ajudou a convocar.
Eugênio Bucci, jornalista, é professor da ECA-USP e da ESPM
Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Que fizemos com nossos filhos?
http://www.blogcidadania.com.br/2010/11/que-fizemos-com-nossos-filhos/
Não importa se o seu filho é decente. Todos os pais somos culpados por essa juventude que nas últimas semanas chamou atenção do país para o nível de degradação moral e para os instintos perversos que passou a exibir em sua parcela “bem-nascida”, que, portanto, não tem desculpa como a dos jovens carentes para agir de forma anti-social.
Até por omissão, no mínimo permitimos que amigos ou parentes ensinassem aos filhos intolerância e preconceito. Assistimos impassíveis a pessoas que conhecemos começarem a mutilar na infância o caráter desses jovens que estão dando shows deprimentes de intolerância, de racismo, de xenofobia, de homofobia e sabe-se lá mais do quê.
Todos sabemos que essas barbaridades preconceituosas são ditas há muito tempo por pais dessa geração que agora dá esse espetáculo dantesco. Claro que tomavam cuidado de só dizer isso em festas fechadas ou em reuniões familiares. Todavia, quantas vezes, para não “criar caso”, assistimos a tais atitudes e condescendemos com elas?
Quem não tem aquele sogro, cunhado, genro, tio, vizinho reacionário, preconceituoso que, eventualmente, propõe separar o Sul-Sudeste do Norte-Nordeste, ou que se refere a nordestinos como “baianos” ou “paraíbas”, ou que diz, inclusive diante das crianças, que teve vontade de ser violento com um homossexual ou, no mínimo, de insultá-lo?
E o que fizemos? Dissemos às crianças ou adolescentes presentes que não deveriam imitar quem acabara de pregar condutas tão imorais? Para não nos incomodarmos, para não passarmos por “encrenqueiros” ou por “chatos”, talvez tenhamos até rido de piadas racistas, xenofóbicas ou homofóbicas diante de nossos filhos ou dos filhos de outrem.
Aí está o resultado. Nas redes sociais na internet pode-se encontrar legiões de milhares de jovens propagando tais sentimentos degenerados como se estivessem recitando poesias.
Para os que como nós, pais, pertencem a uma geração que acalentava ideais de liberdade, de igualdade e de fraternidade na juventude, é vergonhoso que tenhamos cedido às perversões que a maioria de nós combateu quando tinha a idade dessas pouco mais do que crianças que estão chocando o país com as suas condutas perversas.
O que fizemos com os nossos filhos? Será que imaginamos que aqueles que estão mais perto do poder – por suas condições sociais – nutririam, quando crescessem, esse desprezo tão estarrecedoramente completo pelos seus semelhantes?
Claro que grande parte dessa geração que está para chegar ao poder não compartilha as idéias pervertidas que temos visto se espalharem, mas, como dizia Martin Luther King, “O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.
É na omissão que nos tornamos todos cúmplices. Tanto os que deram tais exemplos aos seus filhos quanto os que não deram mas permitiram que amigos ou parentes dessem, e que não agiram para mostrar àqueles filhos que aquela conduta não poderia jamais ser imitada.
Talvez jogando a luz do Sol sobre essas criaturas gestadas nas trevas morais erguidas por pais irresponsáveis ganhemos tempo para salvar alguma coisa da mentalidade de uma juventude apática de ideais e de valores que só pensa em ganhar dinheiro e em se “posicionar” socialmente junto aos “vencedores”. Talvez, mas só talvez…
Eduardo Guimarães
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Política, preconceito e religião vitaminam intolerância
Quarta, 17 de novembro de 2010, 07h57
Marcelo Semer
De São Paulo (SP)
De São Paulo (SP)
Os quatro adolescentes que estariam envolvidos no caso de agressão na Paulista (Foto: Luiz Guarnieri/Futura Press)
Não se pode dizer, ainda, que as agressões da Paulista que vitimaram gays, tiveram motivação homofóbica. Infelizmente não seria nenhuma novidade.
Faz tempo temos convivido com extremismos discriminatórios, que vez por outra transbordam para o noticiário policial. Nordestinos, mendigos, índios e homossexuais estão entre as vítimas preferenciais de operações de limpeza étnica ou expressões de pura arrogância.
A forte oposição à criminalização da homofobia, como se viu nas páginas do site da Universidade Mackenzie, neste delicado momento, em nada contribui para evitar que a agressividade se espalhe entre os jovens.
Mas mesmo entre aqueles que não agridem, é de se notar que a intolerância e a discriminação têm alcançado índices alarmantes. Que o digam as violentas manifestações no twitter, culpando nordestinos pelo resultado da eleição.
Por pouco, a coisa não piora.
Recentemente soubemos que no começo de agosto grupos neonazistas preparavam manifestação em homenagem a Rudolf Hess, condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade, dos quais, aliás, morreu dizendo jamais se arrepender.
Denúncia de anarquistas ao Ministério Público paulista desarticulou a passeata que até então vinha sendo preparada em grupos de discussão na Internet, defensores do "orgulho branco".
Os neonazistas chamam Hess de "mensageiro da paz", mas as mensagens que eles mesmos produziam, entre louvações a Hitler e ao poder branco, estavam repletas de afirmações discriminatórias a "anarcos, judeus, pretos e comunistas".
As comunidades afirmam: "somos brancos nacionalistas; há milhares de organizações promovendo os interesses, valores e heranças dos não-brancos. Nós promovemos os nossos".
Lembrar o nazismo parece um absurdo de alucinados saudosistas da barbárie.
Mas o tom do recente manifesto "São Paulo para os Paulistas" não destoa muito destas palavras de reverência ao "orgulho branco".
Trocados migrantes por judeus e paulistas por arianos, a idéia de "defender o que é verdadeiramente nosso", tipicamente paulista, sem mistura, não está longe daquela que alavancou o nazismo, tenham eles consciência ou não disso.
O documento que circulou pela web se afirmou anti-racista e contra o preconceito. Mas está fincado, basicamente, na idéia de "soberania do paulista em sua terra".
Os migrantes, sobretudo nordestinos, são acusados de promover bagunças, invasões de propriedade e ocupar empregos dos paulistas, com a mesma contundência que se vê nos grupos xenófobos europeus em relação a árabes e africanos.
"A grande maioria dos crimes, violências e fraudes, está relacionada a migrantes", sustenta o abaixo-assinado, sendo estes, ainda, os que "mais se apoderam dos serviços públicos".
A campanha, para além de glorificar o "orgulho paulista", propõe absurdas limitações no uso de serviços estatais e acesso a cargos públicos, a serem restritos aos da terra. A migração deveria ser revertida, apregoam, lembrando que "os migrantes possuem altíssima taxa de natalidade e ocupam espaços que pertencem ao povo paulista"; ademais, "promovem arruaças em transportes públicos, saciam a fome e impõem seus costumes aos bandeirantes".
A xenofobia não é nada nova, mas foi recentemente vitaminada por uma campanha eleitoral repleta de desinformação e despolitização.
Durante a eleição presidencial, muitos foram os analistas que atribuíam uma possível vitória de Dilma a seu desempenho no Nordeste. Ouvimos ad nauseamtais comentários, insinuando um país eleitoralmente dividido, além do preconceito enrustido sob a crítica da eleição ganha por intermédio de favores aos mais pobres.
Os números foram severos com esses argumentos, pois Dilma venceu expressivamente no Sudeste e teria sido eleita mesmo sem os votos do Norte e Nordeste. Mas a impressão de um país rachado entre cultos e incultos, Sul e Norte, já havia conquistado muitos corações e mentes na elite paulista.
Afinal, como dizia Sartre, o inferno são os outros. São eles que responsabilizamos por nossos fracassos, porque é custoso demais atribuir os erros a nós mesmos.
A tática do vale-tudo e a adesão desesperada à estratégia típica dos ultraconservadores norte-americanos, de trazer a religião para os palanques, ou levar a política para os cultos, estimulou ainda uma nova rodada de preconceitos.
Não bastasse a questão do aborto ter sido tratada como ponto central da disputa, religiosos exigiam dos candidatos rejeição ao casamento gay e a não-criminalização da homofobia, instrumentos que apenas aprofundam a discriminação pela orientação sexual.
Os níveis diferenciados de crescimento das regiões mais pobres, a ascensão social provocada pelos mecanismos de transferência de renda, a ampliação da classe média e a redução da sensação de exclusividade são, paradoxalmente, condimentos para a evolução da intolerância.
Tradicionalmente os momentos de mobilidade social são tão sensíveis quanto aqueles de depressão.
Que saibamos evitar no crescimento a intolerância de que sempre soubemos desviar nos momentos de crise.
Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.
Fale com Marcelo Semer: marcelo_semer@terra.com.br
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