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domingo, 29 de novembro de 2015

Intolerâncias da Fé - Documentário





"Vida sem Ética dá mais Trabalho":



Cortella fala sobre a Intolerância:

http://cbn.globoradio.globo.com/default.htm?url=/comentaristas/mario-sergio-cortella/2015/12/01/INTOLERANCIA-E-A-INCAPACIDADE-DE-CONVIVER-COM-O-DIFERENTE.htm

sábado, 28 de novembro de 2015

Intolerância religiosa: ineficiência da Lei x Politicagem



     Nós das religiões Afro-brasileiras (RAB), vivemos atualmente momentos de grande tensão e preocupação. 
Já há alguns anos temos assistido o crescimento de uma corrente religiosa que estimula a intolerância e a perseguição aos nossos adeptos.  
Vimos, com profunda preocupação o surgimento de grupos paramilitares, com o intuito de disseminar mais perseguição e mais violência entre os religiosos.  
E, como esperávamos, a onda de violência foi crescendo, e nós fomos absorvendo, suportando, tolerando. 
Nos últimos anos, nossas lideranças começaram a reagir. A Lei (*) parecia nos proteger, mas ela tem se mostrado insuficiente para reprimir esta onda de perseguição aos nossos Templos e religiosos. O noticiário tem mostrado quase que diariamente, atos de agressão aos nossos fiéis, aos nossos Terreiros/Roças/Templos, e à nossa Fé. Sem motivos, desmedidamente, agridem, destroem e matam. 
Desta vez, foi nossa querida Mãe Baiana, que teve seu terreiro de Candomblé Axé Oyá Bagan incendiado em Brasília, uma das mais tradicionais casas de Candomblé de Brasília.

Segundo a Unegro:

  • "Uma das mais tradicionais casas de candomblé de Brasília, o terreiro de Mãe Baiana já havia sofrido atos de violência anteriormente, se somando a dezenas de agressões a tiros, fogo e intimidações, que outros terreiros de candomblé e de umbanda sofrem no Distrito Federal e entorno." http://pcdobdf.blog.br/2015/11/27/unegro-repudia-violencia-e-se-solidariza-com-as-religioes-de-matriz-africana
Incêndio Terreiro Mãe Baiana - Brasília/DF
     O Ilê Axé Oyá Bagan está recebendo neste momento a visita do Governador do Distrito Federal Rodrigo Rollemberg, acompanhado do Secretário de Estado de Cultura do Distrito Federal Guilherme Reis e de seu staff da Secretaria de Segurança Pública. 
     Mas, sempre que político vem tirar foto, parece que apenas se aproveita da desgraça alheia para conseguir algum apoio ou benefício. Será diferente desta vez?


" Visitei o Templo Axé Oyá Bagan (Casa da Mãe Baiana), de religião de matriz africana, no Paranoá. Reiterei minha solidariedade e a do governo em relação ao incêndio ocorrido na madrugada de ontem.
Diante deste triste episódio, determinei ao diretor-geral da Polícia Civil, Eric Seba, que crie uma delegacia especializada em crimes de racismo e intolerância religiosa. As investigações sobre as causas do incêndio e a identificação dos responsáveis serão tratadas como prioridade pelo nosso governo. A previsão é de que o laudo da perícia saia em até 30 dias.
Não podemos admitir que, na capital da República, tenhamos demonstrações dessa natureza. Vamos trabalhar sempre para garantir direito legal à diversidade cultural e religiosa e combater toda a forma de intolerância e discriminação.Gov." (Gov. Rodrigo Rollember)
     Vivemos no Brasil, conhecido internacionalmente por sua miscigenação e sua religiosidade rica e diversa. Temos nossos problemas, e muita luta ainda por acontecer. A maior delas agora é parar essa onda de violência que nos atinge. Todos olham os telejornais e se apiedam com o sofrimento da Europa, do Oriente Médio, e da África. Mas, poucos se preocupam em mostram como sofremos e como esta onda de intolerância tem varrido nossos cotidianos, ameaçando nosso povo e nossas manifestações culturais e religiosas. O extremismo religioso no Brasil não é diferente daquele que ocorre no Oriente Médio.  
  Até quando fingiremos que vivemos em uma democracia de Lei e de Direito? Até quando preferiremos o lado Poliana da vida, fingindo que tudo é um paraíso e que nunca, nada de ruim irá nos atingir? Hoje, somos nós. Amanhã, poderá ser o catolicismo, ou qualquer outra vertente religiosa que decidam agredir.
    Distraídos? Omissos? Eu diria que somos inconsequentes. 
   Só temos uma solução, defender a aplicabilidade da Lei para todos, afim de garantir que nunca, nenhum de nós, sejamos agredidos por extremistas religiosos.      

(*) 
Artigo V, Inciso VI da Constituição Federal de 1988:
É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias.
Código Penal, em seu artigo 208, estabelece como conduta criminosa, “escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”.

Para maiores informações:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2015/11/27/interna_cidadesdf,508394/incendio-e-o-quinto-envolvendo-religioes-africanas-desde-agosto.shtml


http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/11/terreiro-de-candomble-e-incendiado-no-df/

https://www.facebook.com/pcdobdf/photos/a.1409909235905077.1073741828.1409608442601823/1731605883735409/?type=3&theater

https://www.facebook.com/ErikaKokay/photos/a.279647418726486.72035.257453204279241/1066487370042483/?type=3&theater


https://www.facebook.com/direitoshumanosbrasil/photos/a.166798690068176.42983.165500080198037/942676549147049/?type=3&theater


domingo, 4 de outubro de 2015

Benzedeiras, Religiões Afro-brasileiras e o caldeirão cultural brasileiro.


Vi, e vivi a realidade das benzedeiras desde menina. Minha bisavó e tias avós benziam.
E apesar disso, minha avó, mãe , tias  e primas diretas não quiseram aprender. Minha bisavó e tias avós morreram sem deixar sucessoras. E hoje, como médica e adepta das religiões afrobrasileiras, sinto-me herdeira delas.
Ao longo dos anos, o trabalho que elas faziam foi desprezado, perseguido pelos padres, pastores, médicos e até vizinhos, que não gostavam de ter ao lado um benzedor, macumbeiro...
Cresci vendo e ouvindo os contos irônicos, que ridicularizavam o árduo trabalho delas. Também conheci alguns benzedores homens, poucos, mas muito procurados.
Por certo, a maioria eram mulheres, e brancas. Negras, quando benziam, eram chamadas de macumbeiras.
Todas rezavam, normalmente, orações católicas. Todas usavam o terço, e tinham uma mesa onde colocavam imagens de santos católicos, acendiam velas, e as ervas. Ainda pequena, eu conseguia reconhecer poucas coisas, arruda e alguns galhinhos estranhos...
Via também copo com água, sal grosso, facas, tesouras, paninhos que elas costuravam com agulha e linha branca, e mandavam enterrar no cupim, lá no pasto. 
Reencontrei esses paninhos, anos depois, com o nome de patuás!
Reencontrei a arruda novamente, no terreiro de Umbanda,  nas mãos dos Pretos Velhos. Eles também usavam o terço e rezavam as mesmas orações. Também usavam o copo com água e as velas.
Diante dessas similaridades, minhas experiências infantis despertaram-se em forma de curiosidade. Como foi que essas duas realidades se cruzaram??? Como foi que minha bisavó e suas companheiras partilharam o mesmo lugar que os Pretos Velhos, sem nunca terem ido ao terreiro? 
Então, eu me lembrei de um quadro de uma senhora linda, pisando as águas do mar, cheia de flores nos seus pés. Esse quadro estava na parede da casa de minha avó, filha da bisa benzedeira Mãe Chica. Como foi que Yemanjá foi parar na casa de minha avó católica? 
Lembrei-me do que dizia meu professor de história: "...para entender qualquer fato, primeiro veja o contexto histórico." E lá fui eu, buscar alguma explicação que acalmasse minha necessidade de justificativas.
A região onde nasci foi região de escravos, pois cultivava café, gado. Além deles, tinha indígenas, na maioria Tupi-Guaranis, sangue que também corre nas minha veias (minha tataravó era indígena), e mais tarde, recebeu colonos italianos para a lavoura.  Seus sobrenomes europeus evidenciavam ser, na maioria cristãos novos, judeus sefaradis. Enfim, uma mistura bem interessante. 
Obviamente, o mediterrâneo recebeu grande influencia do povo árabe (mouros). E é notório que os povos árabes também dominaram alguns povos africanos, que chegaram ao Brasil como escravos, séculos depois. Portanto, a influência religiosa pode ter sido duplamente influenciada. Com a mistura das tradições no Brasil colônia, o catolicismo, o Islamismo, a Magia europeia e a tradição religiosa africana, resultaram em uma mistura muito profícua, um caldo rico e fértil, que formou a religiosidade brasileira. 
Obviamente, que um povo como o nosso, não se enquadraria em rígidos valores. 
A religiosidade do brasileiro transita sem conflitos. Exclusividade é uma palavra usada para aqueles que desejam hegemonia. Mas nós brasileiros, criados expostos desde pequenos a uma multiculturalidade impressionante, desenvolvemos uma capacidade adaptativa que impede a compreensão desta palavra. 
Vejo hoje o esforço de incutir na consciência do brasileiro esses limites. 
Contudo, basta ir a um terreiro, para perceber que não está dando certo. Lá encontraremos pessoas oriundas de todas as religiões, que, embora não se identifiquem como umbandista/candomblecista, vão e vêem sem dificuldade e sem dramas. Entram, recebem bençãos e voltam para seus lares e suas religiões tradicionais. Se forem perguntadas pelo Censo ou algum repórter, dirão em sua maioria, que pertencem à alguma religião monoteísta tradicional. Mas isso quer dizer que são menos ou mais religiosos? Não. Apenas não se sentem na obrigação de frequentar somente aquela religião tradicional, acreditam que não há nada demais em ir de vez em quando no terreiro ou na Roça de Candomblé. 
O que assistimos agora é a chegada de uma onda de intolerância religiosa explícita e estimulada pelos evangélicos, que agora exigem fidelidade ao Senhor, e combate aos hereges/infiéis/pecadores das religiões afro-brasileiras. Todo o esforço é direcionado ao combate incessante às religiões afro-brasileiras... 
O que vemos é a tentativa de retirar do povo brasileiro suas referências africanas. A cultura do povo negro, sua história e suas tradições são demonizadas, colocadas na periferia, na marginalidade. Tudo é relegado ao descrédito e ao demérito. 
Mas como negar que o sangue negro corre nas minhas veias, assim como o sangue europeu, o o sangue judeu, e até mesmo o mouro e o indígena? Sendo brasileira, como afirmar que sou pura em meu DNA, que não tenho a mistura fantástica da miscigenação e do sincretismo? 
Eu sou o resultado de séculos de uma mistura fabulosa de culturas, de credos, de cores e sabores.
Se eu guardo na memória as louvarias da Congada, dos Santos Reis, das Festas populares, guardo também as orações católicas, as ladainhas, os benzimentos. 
Se vejo hoje, o reconhecimento, ainda que tardio, do trabalho das benzedeiras, como vi o reconhecimento das parteiras dos nossos rincões, espero ver ainda nesta vida, o reconhecimento do árduo trabalho dos nossos Pais e Mães de Santo, que em seus terreiros/roças/templos/tendas, aliviam dores físicas, psíquicas e sociais de milhões de pessoas anualmente, mas que ainda sofrem a violência da intolerância religiosa.













Cidades habilitam benzedeiras como agentes de saúde pública
http://www.paulopes.com.br/2012/05/cidades-reconhecem-benzedeiras-como.html#.VhCv8rRViko


domingo, 28 de setembro de 2014

Eleições 2014! O Povo de Santo e seu posicionamento.

Pai Rivas se posiciona frente às Eleições de 2014 e aos candidatos que pregam e incitam a violência contra o Povo do Santo! 
O pronunciamento de Pai Rivas, meu Baba, reflete nosso ponto de vista. 
Não é possível que irmãos de fé votem em candidatos que representam a vertente religiosa mais agressiva à nossa Tradição, que incitam e propalam a violência contra os terreiros, contra nossos líderes religiosos, e contra tudo que temos de mais sagrado! E, em sendo as Religiões Afro-brasileiras o porto mais seguro aos nossos irmãos homossexuais, é inadmissível que apoiemos e elejamos políticos que pregam a discriminação e o desrespeito a todos eles. 
Em nome da ética, da coerência e do respeito aos nossos Orixás, Ancestrais, Tradição e Povo do Santo, repudio candidatos que não representem meus ideais.





quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Relatório da ONU 2014: Desenvolvimento não é acompanhado de avanços sociais.

Novo relatório da ONU diz que o desenvolvimento conquistado nos últimos 20 anos não pode ser sustentado a menos que os governos enfrentem as desigualdades que afetam os mais pobres e marginalizados 

• O número de pessoas vivendo na pobreza extrema em países em desenvolvimento caiu drasticamente, de 47% em 1990 para 22% em 2010
• Por outro lado, muitos dos cerca de 1 bilhão de pessoas que vivem nos 50 / 60 países pobres ficam estagnados, enquanto o resto do mundo está mais rico
Nações Unidas, Nova York — O crescimento das desigualdades pode fazer retroceder os ganhos significativos em saúde e longevidade alcançados nos últimos 20 anos. Para sustentar esses ganhos, o Relatório Global das Nações Unidas sobre a CIPD para Além de 2014, lançado no último dia 12, argumenta que os governos devem aprovar e cumprir leis que protejam os mais pobres e marginalizados, incluindo as garotas adolescentes e mulheres vítimas da violência, bem como as populações rurais. 
O relatório é a primeira revisão verdadeiramente global do progresso, lacunas, desafios e questões emergentes relacionados ao marco da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada em 1994 no Cairo, Egito. O documento reúne dados de 176 países, incluindo insumos da sociedade civil e ampla pesquisa acadêmica. Os resultados fornecem fortes evidências que confirmam o foco inovador do Programa de Ação do Cairo, colocando os direitos humanos e a dignidade individual no coração do desenvolvimento.
“Um compromisso fundamental com a dignidade individual e os Direitos Humanos é a base de um futuro resiliente e sustentável”, disse o Diretor Executivo do UNFPA, Dr. Babatunde Osotimehin. “Não podemos esperar outros 20 anos para resolver as desigualdades que assolam o nosso bem-estar coletivo. A hora de agir é agora. Os ganhos do desenvolvimento não devem ser limitados aos mais afortunados; eles devem alcançar todas as populações”.
O relatório mostra claramente que o Programa de Ação do Cairo contribuiu significativamente para o progresso tangível: menos mulheres estão morrendo na gravidez e no parto; o atendimento por profissionais qualificados durante o parto aumentou em 15% em todo o mundo desde 1990; mais mulheres têm acesso à educação, trabalho e participação politica; mais crianças estão indo para a escola; e menos garotas adolescentes estão tendo filhos. O ritmo de crescimento da população também diminui, em parte como resultado da nova abordagem que enfatiza a tomada de decisão individual e voluntária em questões populacionais.
Ele também mostra que este sucesso não está alcançando a todas e todos igualmente. Nas comunidades mais carentes o status das mulheres, as mortes maternas, o casamento infantil e muitas das preocupações da Conferência do Cairo observaram pouco progresso nos últimos 20 anos, e, de fato, estão piorando em alguns casos.
Garotas adolescentes, em particular, estão em risco nas comunidades mais pobres. Mais garotas estão terminando o ensino fundamental, mas estão encarando novos desafios para acessar e completar o ensino médio. Isso é problemático para todos porque as adolescentes e jovens – se tiverem acesso à educação, incluindo educação em sexualidade, e oportunidades de emprego – podem apoiar um maior desenvolvimento e crescimento econômico. Capitalizar suas aspirações requer um profundo investimento em educação e saúde reprodutiva, permitindo-lhes ter filhos mais tarde e adquirir uma formação para uma vida longa e produtiva em uma nova economia.
“Nós precisamos fazer a nossa parte para proteger o direito de acesso das adolescentes aos serviços de saúde sexual e reprodutiva”, disse Dr. Osotimehin. “O relatório fornece evidências convincentes de que a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos são fundamentais para o alcance do bem-estar individual, menor crescimento da população e crescimento econômico sustentável. Para garantir que as mulheres tenham uma participação no futuro, os governos devem fazer valer os direitos de garotas adolescentes”.
O relatório também conclui que a comunidade global ainda precisa fazer mais para proteger os direitos das mulheres, mesmo para além da adolescência. Ganhos significativos têm sido alcançados, particularmente em relação à morte materna, que diminuiu quase a metade (47%) desde 1994. No entanto, em uma das declarações mais alarmantes, o relatório diz que uma em cada três mulheres no mundo ainda relatam que sofreram abuso físico e/ou sexual e há áreas onde muitos homens admitem abertamente o estupro sem ter que enfrentar as consequências. Além disso, em nenhum país as mulheres são iguais aos homens em termos de poder político ou econômico.
Estes resultados fornecem uma base sólida de evidência de que, para manter os ganhos do desenvolvimento, os governos devem promulgar e aplicar leis que eliminem as desigualdades de gênero. De acordo com o relatório, 70% dos governos disseram que a igualdade e os direitos são prioridades para o desenvolvimento.
O relatório complete esta disponível aqui (somente em inglês): http://unfpa.org/public/home/sitemap/ICPDReport
http://www.unfpa.org.br/novo/index.php/716-desenvolvimento-erra-o-caminho-ao-ignorar-equidade-direitos-e-saude-da-mulher-alerta-onu

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Ciganos: quando não se adequadar significa ser segregado!

Ciganos são primitivos ou apenas pobres?
Por DAN BILEFSKY

PARIS - O grupo de ciganos escutava os promotores que os acusavam de ter vendido meninas como noivas por cerca de US$ 270 mil, avaliando seu preço com base na sua habilidade para furtos. Três clãs familiares da Croácia eram acusados de criar meninas e meninos, alguns com apenas 11 anos, para cometer cem roubos em 2011 na França, na Bélgica e na Alemanha.
Uma testemunha de 20 anos disse ao tribunal que havia furtado cerca de US$ 600 mil em dinheiro e joias, ou mais de US$ 7.000 por mês, desde os 13 anos de idade. Ladrões menos habilidosos podem ser punidos, inclusive sendo surrados por anciões roma (plural de "rom", forma pela qual muitos ciganos identificam seu próprio grupo étnico).
Dos 27 acusados, 26 foram condenados por forçar crianças a furtar, tendo recebido penas de dois a oito anos de prisão. No topo da rede estava uma avó de 66 anos.
Esse caso em Nancy ilustra um debate cada vez mais ruidoso na Europa acerca do que alguns chamam de "a questão rom", referência ao povo nômade que veio da Índia para a Europa séculos atrás. Estima-se que 11 milhões deles estejam espalhados pela Europa.
A descoberta de uma criança loura durante uma batida policial em um acampamento rom na Grécia, em 21 de outubro, e a prisão do casal com o qual a menina vivia alimentaram especulações de que alguns roma estariam envolvidos com tráfico de pessoas.
Na França e em outros lugares da Europa, a questão rom está vinculada a perguntas complicadas a respeito de etnia, raça, exclusão social e interesses políticos.
No julgamento de Nancy, a defesa apresentou um argumento incomum: que os roma que foram para o crime estariam simplesmente agindo conforme "o estilo da Idade Média".
Em setembro, o ministro francês do Interior, Manuel Valls, socialista, causou furor ao dizer que apenas uma minoria dos roma conseguiria se adequar à sociedade francesa. Muitos dos cerca de 20 mil roma da Romênia e da Bulgária que estão na França sem terem cidadania vivem em acampamentos esquálidos na periferia das cidades francesas.
No bairro parisiense do Marais, onde bandos de jovens roma ousadamente roubam turistas e locais nos metrôs e nos caixas eletrônicos, uma menina grávida dizia que esmolar era sua única forma de subsistência. "Não temos documentos, não temos trabalho, o que mais podemos fazer?" Acrescentou: "Também somos europeus".
Diante desse cenário volátil, a defesa apresentada no processo de Nancy foi particularmente chamativa. "É muito difícil interpretar o comportamento deles com base nos nossos próprios padrões do século 20", disse Alain Behr, advogado da defesa. "Essa comunidade atravessa o tempo e o espaço com suas tradições, e nós, na Europa, temos dificuldades em integrá-los. No entanto, eles preservaram sua tradição, que é de sobrevivência." Behr disse que a chamada venda de crianças noivas é parte da tradição multissecular do dote cigano.
Mas o promotor Gregory Weill rejeitou as explicações culturais. Ele disse que, ao chegar à cidade natal dos líderes da quadrilha, na Croácia, os investigadores descobriram as imponentes casas de mármore da família. Nas caravanas do clã no norte da França, afirmou ele, policiais acharam veículos Mercedes, óculos de sol Dolce & Gabbana e bolsas Louis Vuitton.
Com grampos telefônicos, as autoridades descobriram uma operação altamente organizada, usando crianças como ladras para evitar processos judiciais aplicáveis a adultos. Celulares foram descartados para acobertar suas pegadas, e receptadores se encarregavam de transformar joias roubadas em dinheiro vivo.
"Alguém na Idade Média não seria capaz de lavar dinheiro reunido por crianças", disse ele.
A antropóloga húngara Livia Jaroka, única representante rom no Parlamento Europeu, sustenta que décadas de discriminação resultaram em desemprego endêmico, pobreza extrema, baixos níveis educacionais, segregação habitacional, tráfico humano, abuso de substâncias e altos índices de mortalidade. "A explicação cultural para a criminalidade rom é absurda", disse ela. "Tem a ver com a economia."
Um facho de esperança está na Espanha, onde há cerca de 750 mil roma, quase metade deles com menos de 25 anos. Quase todas as crianças roma concluem a escola primária. Em 1978, três quartos dos roma da Espanha viviam em moradias inadequadas; hoje, apenas 12% estão nessa situação. Isidro Rodríguez, diretor da Fundação Secretariado Cigano, citou o acesso à educação gratuita, ao atendimento médico e a moradias sociais depois da repressão contra os roma durante a ditadura franquista.

Jaroka, que cresceu em uma comunidade pobre de músicos roma em Tata, na Hungria, disse que deve seu sucesso a seus pais, que insistiram para que ela e seus irmãos frequentassem a escola. "Nós, os roma, também precisamos aprender a nos emancipar".

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/136204-ciganos-sao-primitivos-ou-apenas-pobres.shtml

ver também:     http://alimenteocerebro.com/uma-droga-social-chamada-preconceito/

PS:
O povo cigano é um dos povos mais antigos da Europa. Fugindo da Índia há milhares de anos atrás, povoaram todo o território europeu. Dizem que sua origem é egipcia, e que foram para a Índia, sendo expulsos de lá para a Europa.
Povo apegado às tradições, seus costumes são transmitidos oralmente, de geração em geração. Não valorizam a educação formal, casam-se cedo, e valorizam famílias grandes. 
Por possuírem costumes inadequados ao século XX, para a Europa civilizada e moderna, são excluídos dos direitos civis, de cidadania, educação e saúde. Mesmo nascidos em território europeu, são considerados imigrantes, ilegais, e expulsos se localizados. Por isso, fogem. 
Se essa segregação tão "civilizada" é causadora da criminalidade, não sei. Esmolar, ler mãos, e morar em tendas são apenas os costumes visíveis aos que não pertencem ao Povo Rom. E os demais costumes? Por que respeitamos determinados povos em seus costumes, e a outros povos não???
Não estranhamos os costumes islâmicos? E mesmo assim, respeitamos o direitos que todos têm à sua religiosidade, mesmo quando ela significa analfabetismo para as mulheres, violência, estupros, comercialização (dotes/noivado/casamentos ainda na infância). E o que dizer dos costumes do Povo Judeu? Não causam tanto estranhamento quanto os costumes do Povo Islâmico? 
Mas, e se eu analisasse os costumes do meu povo, o povo brasileiro? Acaso não são diferentes dos costumes do povo europeu? E se eu falasse da minha religiosidade? Umbanda? Nossos costumes, ritos, mitos, cosmogonia, ethos, não diferem dos ritos, mitos, cosmogonia e ethos cristãos, que tangem a tradição europeia???
O que faz o povo europeu melhor que os demais povos da terra, a ponto de expulsar, segregar, e destinar todo um povo à miséria, ignorância e violência? A Espanha tem um bom exemplo de como lidar com o diferente, como ajudar na melhoria das condições de vida, mesmo que as tradições os tornem resistentes às mudanças. E os resultados confirmam que vale a pena o exercício da tolerância e do respeito ao outro.
Os últimos acontecimentos na França trazem à tona indícios de que o povo europeu ainda não superou o facismo e o nazismo. Que estes fantasmas ainda pairam no ar civilizado da Europa. Os horrores perpetrados pela colonização do Oriente, da África e das Américas não ensinaram nada? 
Mais uma vez confirmo que modernidade, cultura escrita, e estética não são sinônimos de ética, e muito menos de moralidade. As leis arduamente defendidas não garantem justiça social, respeito com as diferenças e auteridade.

Obaositala

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A violência da desigualdade social e a desigualdade da violência social

Por Gustavo Barreto em 30/11/2010

Elaborei dois textos sucintos sobre a questão da violência exposta no Rio de Janeiro recentemente, a partir da minha visão como carioca e frequentador de diversas favelas com problemas sociais. As minhas análises estão aqui e aqui e não há porquê voltar a elas.
O que me espanta é o número de avaliações que recebe o texto – 114 comentários apenas no local original de publicação e outras centenas em sites onde houve publicação –, especialmente avaliações violentas, seguidas de xingamentos e até mesmo investigação sobre minha vida (meu nome completo, onde moro etc). Fiquem à vontade para “investigar”, mas vamos às ideias:
1) Creio, de fato, que fazer uma análise como a que fiz pede certa proximidade com comunidades que sofrem com a violência cotidiana. De fato, a tenho – por obrigação ou por interesse. Enquanto repórter de meios populares e democráticos, busco esta realidade e por vezes me deparo com ela ao ir para a casa de parentes ou amigos.
2) Opor “intelectuais” e “favelas”, como fizeram em pelo menos duas dezenas de comentários, apenas confirma o que escrevi: há uma virulenta violência de classe tanto nas ações quanto nas ideias que a seguem. Por que opor, afinal, entre moradores de comunidades não pode haver intelectualidade? Ou seja, pessoas que olham (um pouco) além do próprio umbigo e passam a interpretar a realidade em toda a sua complexidade? Seria o povo destituído de senso crítico?
3) A ideia de que as pessoas estavam sendo “oprimidas” pelo tráfico de drogas e que agora foram “libertadas” pode ser questionada, como também pode ser afirmada. O debate serve para isso. Na Revista Consciência.Net, por exemplo, até mesmo comentários anônimos com insultos levianos e sem qualquer contra-argumentação foram aprovados. Mas:
4) Eu me dou o direito de questioná-la, em nome da liberdade de expressão.
Entendo bem a opressão do tráfico, pois sou morador do Rio de Janeiro desde que nasci (há 28 anos), nascido e criado na Zona Norte, ex-morador de Vila Isabel e circulo muito como professor de comunicação e como repórter por diversas favelas. No entanto, os textos anteriores tratam especificamente desse assunto, a partir de uma outra visão mais ampla sobre como o problema pode ser resolvido sem necessariamente utilizarmos a violência estatal como norma. Achar que uma ação está acontecendo só porque é possível vê-la é ignorar meus argumentos sobre a ineficiência de ações similares no passado. Como jornalista, o que faço é ouvir argumentos e colocá-los lado a lado com os dados. Contudo, o fato de não ter tratado a fundo da opressão policial em si não diminui, na minha humilde opinião, os aspectos do qual tratei e que fazem parte do mesmo problema.
5) Em outro ponto, façamos a seguinte reflexão: de que modo a simples ofensa pessoal, sem qualquer contra-argumentação, ajuda em um debate para considerar soluções?
A violência da desigualdade social acaba por gerar a desigualdade da violência social: incursões militares violentas em zonas pobres do Rio de Janeiro e, do outro lado da cidade, mandado judicial para as zonas ricas. Foto: CartaCapital.
A violência da desigualdade social acaba por gerar a desigualdade da violência social: incursões militares violentas em zonas pobres do Rio de Janeiro e, do outro lado da cidade, mandado judicial para as zonas ricas. Foto: CartaCapital.
6) As primeiras denúncias publicadas na imprensa confirmam o que anunciei no primeiro artigo: “Setores mais violentos da Polícia Militar – a banda podre que não quer saber de papo de UPP – ganham carta branca, por conta do clima de medo, para fazer suas velhas e conhecidas “incursões” nas favelas, a política burra do confronto com o “crime organizado”, vitimando cidadãos inocentes e realizando execuções sumárias de suspeitos.” (25/11/2010)
Conforme relatos de mídia, perfil das vítimas das chamadas “balas perdidas” não é de supostos traficantes: são idosos, estudantes uniformizados, mulheres etc. Além disso, o jornal Correio Braziliensepublicou alguns vídeos com relatos e o número de denúncias fez até mesmo o Secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, se pronunciar, afirmando que pedirá investigação dos casos de abusos. Relatos de moradores, que obtenho como jornalista a partir de emails de fontes, vão no mesmo caminho. (Assista aos vídeos aquiaqui eaqui).
Segundo argumenta o deputado Marcelo Freixo – que, conforme tenho relatado, é um dos poucos que busca unir a dimensão da segurança pública com a dimensão dos direitos fundamentais –, “esse modelo de enfrentamento não parece eficaz. Prova disso é que, não faz tanto tempo assim, nesta mesma gestão do governo estadual, em 2007, no próprio Complexo do Alemão, a polícia entrou e matou 19. E eis que, agora, a polícia vê a necessidade de entrar na mesma favela de novo.”
Ele completa: “Tem sido assim no Brasil há tempos. Essa lógica da guerra prevalece no Brasil desde Canudos. E nunca proporcionou segurança de fato. Novas crises virão. E novas mortes. Até quando? Não vai ser um Dia D como esse agora anunciado que vai garantir a paz. Essa analogia à data histórica da 2ª Guerra Mundial não passa de fraude midiática.” (disponível aqui)
Além disso, outros relatos de mídia já dão conta de que as milícias estão reagindo violentamente à mudança de base de alguns traficantes – como, aliás, já ocorrera há dois meses no Complexo de Água Santa, dominado por milicianos. E alguns ainda sugeriram para mim que “são coisas diferentes”. De fato: enquanto os negócios dos varejistas do tráfico só tem um produto a oferecer (drogas), os milicianos possuem toda uma cartela de opções (transporte público, gás, “segurança” etc).
7) Não há, nesta narrativa midiática, a correta dimensão do problema, que todos os conhecedores do tema não cansam de repetir: Onde estão os verdadeiros chefes do narcotráfico? São juízes, gestores públicos (alguns dentro da Secretaria de Segurança), deputados, empresários. Basta consultar os valores envolvidos ou as recentes intervenções da Polícia Federal. Não cabe aqui repetir este fato, de amplo conhecimento dos legalmente responsáveis pelo combate ao crime (entre eles o Senhor Beltrame).
8) Desta forma, pergunto novamente: Por que a crise nas zonas pobres da cidade se traduzem em uma incursão violenta e em outras regiões é executada dentro dos moldes da lei? Até mesmo a busca na casa da esposa do traficante Polegar, num condomínio luxuoso na Barra da Tijuca, demandou um mandado judicial. Enquanto isso, no outro canto da cidade, 2.700 policiais invadiam dezenas de residências da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, em alguns casos quebrando eletrodomésticos, extorquindo moradores e roubando dinheiro e outros objetos de valor. Por que?
Uma curiosidade: Na França, durante a passagem de ano de 2008 para 2009, mais de mil carros foram queimados em diversas periferias de grandes cidades. E nem por isso a polícia adota a política de confronto. A diferença é que, por aqui, a queima de carros serviu como um excelente pretexto para a incursão militar que o Governo parecia desejar. Com o notável apoio da mídia e da população assustada.
Aqui, conforme sugeri no título, fica claro que a violência da desigualdade social acaba por gerar a desigualdade da violência social: incursões militares violentas em zonas pobres da cidade e, do outro lado, mandado judicial para as zonas ricas. É um clássico da criminalização da pobreza. O que é mais surpreendente é que os primeiros comentários argumentavam que os moradores viviam próximos a traficantes por opção, e não por necessidade. Não consigo nem sequer analisar este tipo de argumento, pois precisaria da ajuda de psicanalistas.
9) “Utopia” – afirmam alguns sobre a necessidade de utilizar a inteligência para resolver as questões de segurança nas favelas mais violentas. Utopia, respondemos com base em experiências anteriores, é achar que episódios espetaculares vão resolver o problema estrutural da violência no Rio ou sequer vão mudar as regras do jogo. As coisas continuam como estão, pois não se resolvem problemas de nenhum sistema econômico complexo a partir da mudança do mercado varejista, onde se comercializam serviços ou vendem produtos em pequenas quantidades. A produção continua escoando e achando seus caminhos.
São questões, por exemplo, em aberto:
(I) Se havia de fato 650 traficantes, onde estão? Qual o real poder destes fugitivos?
(II) Após a “conquista de território” da Vila Cruzeiro pelo BOPE (2008) ou da chacina no Complexo do Alemão (2007), por que o território foi perdido?
(III) Onde estão os corpos das pessoas mortas nos confrontos? Quem são?
10) Reitero a excelente definição do nosso enorme problema, a partir de uma exposição de Marcelo Freixo: “Quem dera houvesse, como nas favelas, só 1% de criminosos nos parlamentos e no Judiciário…”
Oferecer dignidade e a “libertação” destes moradores – discurso idêntico ao que foi feito no Iraque após a invasão dos EUA em 2003 – passa, de fato, por vontade política e mobilização da sociedade. Mas a vontade tem de ser (também) por creches, hospitais, escolas públicas, infraestrutura e participação popular nos processos decisórios. E não por sede de sangue e retaliações, como muitos desejam.

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