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domingo, 23 de setembro de 2012

A mulher e o Sufismo


Mesmo que neste mundo de dualidades nós podemos adotar distintas formas, em última instância não existem homens ou mulheres, senão somente o Ser. Dentro da tradição sufi, o reconhecimento desta verdade estimulou a maturidade espiritual das mulheres, de uma maneira que nem sempre foi possível no Ocidente.
Desde os primórdios do Islã, as mulheres desempenharam um importante papel no desenvolvimento do sufismo, a espiritualidade islâmica, o qual tradicionalmente se entende que começou com o profeta Maomé (ou Muhammad, que a paz esteja com ele). Maomé transmitiu uma mensagem que combinava o espírito e a matéria, a essência e a forma, e o reconhecimento do feminino e do masculino. Ainda que as manifestações culturais tenham ocultado em parte a pureza original da intenção, as palavras do Alcorão expressam a igualdade de mulheres e de homens ante os olhos de Deus.
Em um tempo em que as tribos árabes adoradoras de deusas eram ainda bastante brutais, chegando inclusive a enterrar as meninas recém-nascidas para favorecer a descendência masculina, entes novo porta-voz da tradição abraâmica tentou restabelecer o reconhecimento da Unidade do Ser. Tratou de corrigir os desequilíbrios que haviam surgido, aconselhando honrar e respeitar o feminino, assim como a graça e a harmonia da natureza.
Durante os primeiros anos da nova revelação islâmica, Khadija, a amada esposa-sacerdotisa de Maomé, jogou um papel de grande importância. Foi ela quem respaldou, fortaleceu e apoiou o Profeta, quando este foi assaltado por dúvidas e inseguranças. Esteve junto dele no meio das dificuldades e angústias extremas, e ajudou a transmitir a luz da nova fé. Fátima, a filha de Maomé e Khadija, foi a primeira a compreender o Islã da maneira mais profunda e, de fato, a miúdo ela é conhecida como a primeira gnóstica muçulmana. Seu casamento com Ali semeou no mundo esta nova manifestação de misticismo, e as sementes de sua união começaram a florescer.
Quando se desenvolveu mais ainda a dimensão mística do islamismo, foi uma mulher, Rabi’a al-Adawiyya (século 8º d.C.) quem expressou pela primeira vez a relação com o divino em uma linguagem que chegamos a reconhecer como especificamente sufi, referindo-se a Deus como O Amado. Rabi’a foi o primeiro ser humano que falou sobre as realidades do sufismo com uma linguagem que qualquer pessoa podia entender. Apesar de que experimentou muitas dificuldades em seus primeiros anos, o ponto de partida de Rabi’a não foi nem o temor ao Inferno nem o desejo do paraíso, senão somente o Amor. “Deus é Deus”, dizia, “por isso amo a Deus… não por nenhum de Seus dons, senão por Ele Mesmo.” Seu objetivo era dissolveu seu Ser em Deus. Segundo ela, pode-se encontrar a Deus voltando-se para dentro de seu próprio Ser. Tal qual disse Maomé: “Quem conhece a si mesmo conhece a Seu Senhor”. Em última instância, é o Amor o que nos conduz à Unidade do Ser.
Ao longo dos séculos, mulheres e homens seguiram levando a luz desse Amor. Por muitas razões, as mulheres foram a miúdo menos visíveis e mais reservadas que os homens, porém, sem embargo, participaram ativamente. Dentro de alguns círculos sufis, as mulheres participavam com os homens nas cerimônias. Em ouras ordens, as mulheres reuniam-se em seus próprios círculos, recordando a Deus e adorando-O separadas dos homens. Algumas mulheres entregaram-se ao Espírito através da ascese, isolando-se da sociedade, como fez Rabi’a, para a eliminação do próprio Eu, em benefício do Ser… Outras optaram pelo trabalho de benemerência – ou terceiro fator –, e fomentaram grupos de oração, rituais e estudos.
Infelizmente, no Ocidente sabemos muito pouco sobre a influência das Mestras sufis. Muitos dos grandes iluminados do sufismo que conhecemos tiveram mestras e discípulas, companheiras e até mesmo esposas-sacerdotisas que muito influenciaram em seus pensamentos e em suas vidas. Esposas e mães também apoiaram os membros de suas famílias, enquanto continuavam sua própria viagem para unir-se com O Amado (o Íntimo, o Ser).
Ibn Arabi, conhecido como o Polo do Conhecimento Superior (séculos 12-13 d.C.), fala do tempo que passou junto a duas anciãs contemplativas que exerceram profunda influência sobre ele: Shams de Marchena, “a dos suspiros”, e Fátima de Córdoba. De Fátima, com quem passou muito tempo, disse:
“Servi como discípulo de uma das amantes de Deus, uma gnóstica, uma dama que vivia em Sevilha, chamada Fátima bint ibn al-Muthanna de Córdoba. Estive a seu serviço durante vários anos, tendo ela uns 95 anos de idade… Ela conseguia tocar o pandeiro e mostrava grande prazer em fazê-lo. Quando perguntei a ela sobre isso, respondeu: ‘Regozijo-me nEle, que me deu atenção e me converteu em um de Seus Amigos, usando-me para Seus próprios fins. Quem sou eu para que Ele deve me escolher dentre todos os seres humanos? Ele se mostra zeloso comigo, pois, cada vez que, de maneira negligente, dirijo minha atenção a algo que não seja Ele, me envia alguma aflição relacionada com esse algo’. Construí-lhe com minhas próprias mãos uma choça de juncos tão alta quanto ela, na qual viveu até seu falecimento. Ela me dizia: ‘Sou tua Mãe Espiritual e a luz de tua mãe terrena’. Quando minha mãe veio visitar-me, Fátima lhe disse: ‘Ó luz! Este é meu filho e Ele é teu pai, portanto, trata-o com amor filial e não o desgoste!’”
Quando perguntaram a outro conhecido mestre, Bayazid Bistami (século 9º d.C.), quem havia sido seu mestre, falou de uma anciã a quem conheceu no deserto. Esta mulher chamou-o de “tirano vaidoso” por haver usado um leão para transportar um saco de farinha, oprimindo uma criatura a que Deus havia aliviado de cargas, e por buscar reconhecimento em tais milagres, mostrando sua vaidade. As palavras daquela mulheres lhe ofereceram guia espiritual durante algum tempo. Outra mulher pela qual Bistami demonstrou grande respeito foi Fátima Nishapuri, da qual disse: “Não havia nenhuma morada (na Senda) da que lhe falara e na qual ela não tivesse estado lá”.
Alguém perguntou certa vez ao grande mestre sufi egípcio Dhun-Nun Mesri quem era, na opinião dele, o maior dos sufis. Ele respondeu: “É uma Santa de Deus, e minha mestra”. Em certa ocasião, ela lhe aconselhou: “Em todos os teus atos, vigia para atuares com sinceridade e em oposição ao teu Ego (em árabe, nafs)”. Ela também disse: “Todo aquele que não tenha Deus em sua consciência esta perdido e se engana, não importa o que diga ou a quem frequente. Sem embargo, quem se mantém em companhia de Deus só fala com sinceridade e sua conduta é regida pelo pudor e uma efervescente devoção”.
A esposa do sufi do século 9º Al-Hakim at-Tirmidhi era uma gnóstica por direito próprio. Às vezes o misterioso Khidr (Jetro, em árabe, o grande instrutor de Moisés) aparecia nos sonhos dela, dando-lhe ensinamentos especiais sobre a autopurificação.
Uma das que mostravam grande alegria em ser mulher era a gnóstica Fedha. Ela ensinava que “a alegria do coração deve ser a felicidade baseada no que sentimos em nosso Interior… portanto, devemos sempre nos esforçar para nossos corações estejam sempre e sempre alegres, até que todo o mundo ao nosso redor também esteja alegre”.
A Grande Santa do Sufismo
O poeta persa Farîduddîn Attâr, em suas Memórias dos Amigos de Allah, oferece a biografia mais extensa e completa de Râbi’a al-‘Adawiyya, uma das grandes santas do Islã e figura indiscutível da espiritualidade muçulmana. Sua obra vem a somar-se a outras, anteriores e posteriores, de autores que apresentam as vidas de mulheres sufis já desde os tempos iniciais da Hégira, pois Râbi’a é o exemplo mais célebre, porém, não o único.
São textos, não todos, nos quais as mulheres aparecem citadas em pé de igualdade com os homens por sua sabedoria, conhecimento e virtude, ou como transmissoras verazes, e graças aos quais se pode recriar, em certa medida, a imagem de um mundo aberto e tolerante que pouco tem a ver com os tópicos acostumados; os ditos transmitidos, com as notas e comentários de seus recompiladores, falam por si só de a sociedade a que essas mulheres pertencem e de seu importante papel nela: mestras de grandes seres espirituais, mulheres livres, mulheres escravas, solteiras, casadas, conhecidas e desconhecidas, místicas e ascetas, respeitadas pelos ulemás da lei islâmica, aos que se dirigem desde o estado que lhes confere seu estatuto de sabedoria e santidade, permaneceram durante muito tempo na memória e na tradição oral da qual logo se inspirariam seus biógrafos.
Entre alguns desses textos podemos citar a Muhamad ibn Saad, que em seu At-Tabaqât al-Kubrâ inclui retratos de todoslos portadores da tradição desde os tempos do Profeta até então, citando numerosas mulheres. O que Al-Jawzî incluirá em seu Sifat as-Sarwa informação sobre 240 mulheres sufis. Uma autoridade importante é Al-Munâwi, que em seus Tabaqât (nome geral dos livros que versam sobre eruditos de uma época determinada), realiza uma autêntica homenagem às 35 mulheres cuja vida oferece da boca dos maiores mestres e sábios da época. Que sirva de exemplo o relato sobre Fátima bint ’Abbâs, sheikha e doutora da lei, sufi versada nas ciências da jurisprudência, porém, sobretudo prova vivente de que nessa época a mulher não havia desaparecido completamente do espaço público e ocupava um lugar central; na mesquita, o coração da comunidade, uma mulher, Fátima, pronunciava um sermão todas as sextas.
Em 1991, apareceu na Arábia Saudíta, entre uma coleção de tratados de As-Sulamî, grande sistematizador do sufismo, una obra perdida há muitos séculos: Tratava-se das Memórias das Devotas Sufis, na qual o autor ilustra a vida e recolhe as palavras de 84 mulheres sufis. A partir dessa obra, juntamente com a de Al-Jawzî, conclui-se inequivocamente a presença de vários movimentos de mulheres ascetas entre os séculos 2º e 3º da Hégira. O trabalho de As-Sulami recolhe ditos de mulheres em paridade com os homens, mostrando-as como mestras de prática e de doutrina e citando cuidadosamente as cadeias de transmissores com autoridade, para abalizar a veracidade de sua exposição: já na introdução de sua Tabaqât aponta sua visão convergente mediante a Aleya do Sagrado Alcorão: “E se não chega a ser por homens crentes e por mulheres crentes a quem não podeis reconhecer…” (48:25)
Para ele, as mulheres são também “mestras das realidades da Unidade e da Unicidade Divinas, recipientes da palavra divina, possuidoras de visões verdadeiras e de conduta exemplar, e seguidoras dos caminhos dos profetas”, e o testemunham em sua obra mediante uma aparência admirada e respeitosa, e a frequente menção a seu papel como companheiras, críticas e mestras de importantes sufis.
Quando se reconhece a realidade rica e fecunda dessas mulheres excepcionais, parece obrigado a recurrer ao sufismo como único modo possível de explicar a proliferação de mulheres no mundo da espiritualidade muçulmana. Por outro lado, no sagrado Alcorão, Allah dirige-se a miúdo aos crentes, mulheres e homens, por igual: “Porém, os crentes e as crentes são amigos uns dos outros. Ordenam o que está bem e proíbem o que está mal” (7:71).
A inclusão das mulheres aparece de maneira clara na maioria dos mestres sufis, se bem que a miúdo com o matiz peculiar de considerar “homem” todo aquele que adentra na senda espiritual, ainda que seja mulher. Assim, por exemplo, Attâr dirá: “Os santos profetas (a paz seja com eles) disseram: Deus não olha vossas formas. “O que conta não é a imagem, mas a intenção do coração, como ensinou o Profeta: os homens serão reunidos e julgados segundo sua intenção (…). E citando a Abbâs al-Tûsî, continua: “Quando, no Dia da Ressurreição, nos chamem dizendo: “Homens, vinde!”, a primeira  em adiantar-se aos homens será Maria, a mãe de Jesus. Se nesse dia ela não estivesse entre os homens, então deixaria a reunião”. “O significado desta verdade é a igualdade de mulheres e homens na santidade; não há diferença entre os místicos na Unidade do Ser Divino. Nesta Unidade, o que fica da existência do 
Eu e do Tu? E então, como poderia haver ainda homem e mulher?”
Por sua parte, o grande sufi Abd Ar-Rahmân Al-Jami (século 15) conta que alguém preguntou-lhe: “Quantos são os ‘Abdâl (substitutos, Amigos de Dios)?”. Ele respondeu: “Quarenta almas”. E quando lhe preguntaram por que não havia dito “quarenta homens”, sua resposta foi: “Porque também há mulheres entre eles”.
Nos primeiros séculos da Hégira, as mulheres viviam no centro do espaço público, participando plenamente na vida da comunidade, e assim, no Islã primeiro encontramos Khadija, “a melhor das mulheres”, primeira esposa de Maomé, e a sua filha Fátima; temos também Aisha, a esposa mais jovem do Profeta”, assim como outras mulheres do entorno, totalmente entregues a Deus.
Desde o princípio as mulheres desempenharam papéis importantes na história do Islã: seus nomes aparecem nas correntes de transmissão dos hadith proféticos, formam parte da linhagem espiritual dos calígrafos, são exaltadas como gnósticas e poetisas, sem esquecer as mulheres governantes, e as que aparecem como amigas, mestras e discípulas de grandes seres espirituais muçulmanos. Importantes não só no sufismo, mas na espiritualidade e na comunidade muçulmana em geral, resultaria impossível escrever uma história do Islã sem contar com elas.

Poema de Râbi’a al-‘Adawiyya
Ó minha alegria, meu desejo e meu refúgio,
Meu companheiro, meu amparo no caminho,
Ó meu objetivo!
És o espírito de meu coração.
Tu és minha esperança,
Meu confidente, meu Amigo.
Meu anelo de Ti é minha única riqueza,
Meu ardente desejo, todo meu sustento,
Se não fosse por Ti, ó vida de minha vida,
Não haveria vagado de um lado para o outro
Pela imensidão do país.
Quantas graças me foram reveladas,
Quantos dons e favores Tu tens para mim!
Teu amor é meu único desejo, Teu amor é minha delícia,
A luz que sacia meu sedento coração.
Não me afastarei de Ti enquanto viver,
Não há lugar para mim, senão Tu,
Que fazes florescer o deserto.
Tu és o único dono do meu coração.
Se em mim encontrares contentamento,
Ó anelo do meu coração,
Transbordarei de alegria!
Deus meu, me refugio em Ti para resguardar-me
tudo que me separa de Ti,
para resguardar-me de tudo que me distrai de Ti
e se interpõe entre Tu e eu.
Ó amado de meu coração,
somente tenho a Ti.
Tem piedade do pecador que vai até Ti.
Ó minha esperança, meu repouso, ó minha alegria,
o coração não quer amar a outro senão a Ti.
Meu repouso, ó irmãos, está em minha solidão,
e meu Amado está sempre comigo.
Nada pode substituir o amor que sinto por Ele,
meu amor é meu suplício entre as criaturas.
Em todas as partes onde contemplei Sua beleza,
Ele tem sido meu mihrab e minha qibla.
Se eu morrer desse amor ardente e Ele não estiver satisfeito,
essa dor seria minha desdita neste mundo!
Ó médico do coração, Tu, que és todo meu desejo
une-me a Ti com um laço que cure minha alma.
Ó minha alegria, ó minha vida para sempre!
Em Ti, minha origem, em Ti, minha embriaguez.
Abandonei inteiramente todo o criado com a esperança
de que me una a Ti. Este é meu único desejo.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Uso da burca provoca discussão na Austrália

Le Monde 
Marie-Morgane Le Moël - Sydney (Austrália)
  França proibiu recentemente o uso de véu islâmico integral em espaços públicos

Há alguns dias, Sergio Redegalli, artista de Newtown, um bairro boêmio de Sydney, era um desconhecido para o público australiano. Desde então, sua última obra foi divulgada por todo o continente. Esta fama relâmpago deve-se à pintura mural feita pelo pintor e escultor na fachada de seu ateliê: uma mulher com burca sob os dizeres “Say no to burqas” [“Diga não às burcas”]. 
“Não se trata de um ataque aos muçulmanos em geral”, disse Redegalli. “Mas os pontos de vista extremistas não funcionam neste país. As jovens mulheres [muçulmanas] deveriam ter o direito de ser como todo mundo.” Uma explicação pouco apreciada. Sua fachada foi depredada duas vezes em uma semana, e o artista fez uma vigília para protegê-la. Ao final, a obra mural terá sido efêmera. Alarmado pela possibilidade de que um grupo neonazista recupere sua iniciativa, o artista acaba de repintar a fachada. Agora, existe apenas uma mensagem antirracista. 
O episódio reflete o interesse da sociedade australiana pelo debate sobre a burca. A imigração originária dos países muçulmanos foi tardia, e 1,7% da população (estimada em 22 milhões de pessoas) é de muçulmanos. Uma presença fraca que ainda é vista com receio. Os projetos de construção de mesquitas ou de escolas islâmicas costumam ser motivo de protesto. A comunidade muçulmana, por sua vez, sofreu com o posicionamento controverso de xeques extremistas, minoritários mas muito populares na mídia. “Os atentados de 11 de setembro de 2001, e de Bali em 2002, aumentaram o receio dos australianos em relação aos muçulmanos”, comenta Saul, co-diretor do Centro de Direito Internacional de Sydney. 
Nesse contexto, o debate sobre a burca na França foi acompanhado de perto. “Muitos aqui acham que não é necessário legislar sobre a forma de se vestir”, explica Saul. A decisão da França foi portanto criticada, mas deu ideias aos políticos. Um deputado do Estado de Nova-Gales do Sul, o conservador Fred Niles, propôs, sem sucesso, a adoção de uma lei proibindo a burca. Em reação, grupos muçulmanos se manifestaram recentemente em Sydney. A questão parece revelar antagonismos subjacentes. Durante a manifestação, as mulheres com véu criticaram duramente o modo de vida das mulheres ocidentais. Os australianos, por sua vez, expressaram na internet o seu medo dos muçulmanos, acusando-os de não se integrarem à comunidade. 
Apesar de a grande maioria dos políticos australianos rejeitarem a proibição da burca, a decisão francesa parece ter tocado num ponto sensível no seio da sociedade. Conferências sobre o assunto estão sendo organizadas nas universidades. Recentemente, o deputado do UMP Jacques Myard, forte defensor da lei na França, foi até mesmo convidado pela rede pública SBS para debater o assunto.
 Tradução: Eloise De Vylder

sábado, 26 de junho de 2010

A Burca - Direitos Femininos ou Violência contra a Mulher???

26/06/2010

Der Spiegel

Será que a questão das burcas diz respeito aos direitos das mulheres?



Na última quarta-feira, a Espanha tornou-se o mais recente país europeu a aprovar uma legislação para proibir o uso da burca e de outros véus faciais do gênero. Muitos dos indivíduos que apoiam tais leis citam os direitos das mulheres como justificativa, mas será que a criminalização das vestimentas delas ajuda de fato?


Ao que parece, em se tratando das burcas todos são feministas. Em 2006, o populista de direita holandês Geert Wilders argumentou que a burca – uma veste feminina que cobre o corpo inteiro, tendo apenas uma rede em frente aos olhos para que se possa enxergar – é “um símbolo medieval, um símbolo contra as mulheres”. No ano passado, o presidente francês Nicolas Sarkozy classificou o uso da burca de “um sinal de subserviência”. E, na última quarta-feira, o senado espanhol deu a sua aprovação a uma proposta de legislação anti-burca que apoia a proibição de “qualquer roupa, costume ou prática discriminatória que limite a liberdade das mulheres”.


A Espanha, de fato, tornou-se o país mais recente a aderir ao movimento para a proibição da burca e do niqab – que é similar a burca, mas que tem uma abertura para os olhos, em vez de uma rede. Assim, a Espanha junta-se à França, à Itália e à Bélgica. Enquanto isso, a Holanda, a Áustria e a Suíça também estão cogitando adotar leis proibindo tais vestimentas.


Mas será que esse ímpeto no sentido de descobrir o rosto das muçulmanas mais fervorosas pode ser explicado apenas por um desejo recém-descoberto de zelar pelos direitos das mulheres? A Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, o órgão que assessora o conselho nas questões referentes aos direitos humanos, certamente acha que não.


Na quarta-feira, a Assembleia Parlamentar, conhecida como Pace (sigla em inglês de Parliamentary Assembly of the Council of Europe), aprovou uma resolução rogando aos Estados membros da União Europeia que não decretem um banimento das burcas “ou de outras roupas religiosas ou especiais”. Em vez disso, sugere a resolução, os países da União Europeia deveriam concentrar as suas energias na proteção da “livre escolha das mulheres de usarem ou não roupas religiosas ou especiais”. Em outras palavras, a Pace pareceu estar dizendo que as liberdades religiosas e os direitos humanos encontram-se no cerne do debate sobre a burca. E, segundo a organização, impedir as mulheres de usarem o que desejam seria uma ação antifeminista.




“As mulheres não têm o direito de serem humanas”


Essa alegação não é incontroversa. No final do ano passado, a líder feminista alemã Alice Schwarzer disse acreditar que uma proibição da burca é uma medida “autoevidente”. A ativista dos direitos das mulheres Necla Kelek, também da Alemanha, diz que as burcas “nada tem a ver com liberdades religiosas ou com religião”. Segundo ela, a vestimenta é derivada de uma ideologia segundo a qual “as mulheres em situações públicas não têm o direito de serem humanas”.


À medida que o debate se amplia, vai ficando cada vez mais fácil ignorar o fato de que grande parte da mobilização pela proibição da burca e do niqab é oriunda de partidos populistas de direita. Wilders foi seguido pelo partido belga de extrema-direita Vlaams Belang, e o partido alemão antimuçulmano Pro-NRW está defendendo também uma proibição desses trajes. Todos esses grupos também gostariam que os minaretes desaparecessem das paisagens europeias, e eles chamaram atenção principalmente devido à sua retórica antimuçulmana.


Na sua resolução da quarta-feira, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa também indicou que enxerga a mesma conexão. Ela justificou as suas recomendações enfatizando a prioridade “de se trabalhar no sentido de garantir a liberdade de pensamento, consciência e religião, e ao mesmo tempo de combater a intolerância e a discriminação religiosa”. O documento a seguir solicitou à Suíça que revogasse a sua proibição de minaretes, uma resolução que foi aprovada em um plebiscito nacional no final de novembro do ano passado.




“Legislação de emergência”


Entretanto, à medida que uma quantidade cada vez maior de países começa a cogitar uma proibição da burca, a ideia está se desassociando progressivamente da retórica de direita. A ministra das Relações Exteriores suíça, Micheline Calmy-Rey, do Partido Social-Democrata da Suíça, que é de centro-esquerda, gostaria que a burca fosse proibida. Na França, o parlamentar comunista André Gerin tem liderado a campanha pela proibição. No Reino Unido, Jack Straw, do Partido Trabalhista, declarou em 2006 que se opõe ao uso do véu que cobre toda a face. E, na Alemanha, políticos de todo o espectro político têm se manifestado favoravelmente a um banimento da burca.


Mas, perdidas no debate – talvez previsivelmente –, estão as mulheres que usam burcas e niqabs. Segundo um recente artigo publicado na revista britânica “New Statesmen”, não há muitas mulheres usando esses trajes no Reino Unido. Na França, os serviços de segurança calculam que apenas 0,1% das mulheres muçulmanas no país usam a burca – um número que parece zombar dos esforços no sentido de aprovar aquela que foi chamada de uma “legislação de emergência” contra o vestuário islâmico antes do recesso parlamentar de verão. O gabinete de Sarkozy aprovou o projeto de lei no mês passado. E o número de mulheres que usam o véu integral na Bélgica pode chegar a apenas 30.


Entretanto, em um continente no qual a integração da sua cada vez maior população muçulmana vem provocando atritos políticos há anos, talvez não seja surpreendente o fato de o debate em torno da burca ter se intensificado continuamente neste ano. Os europeus estão preocupados com o islamismo radical e muitos associam a proibição da burca a um combate ao extremismo muçulmano.


“Criminalizando as mulheres para libertá-las”


Mas o oposto pode ser verdade. No verão passado, a ala norte-africana da Al Qaeda ameaçou “vingar-se” da França como resultado do debate crescente no país a respeito do banimento da burca. “Nós não toleraremos tais provocações e injustiças, e nos vingaremos da França”, advertiu o grupo em uma declaração.


Já os trabalhadores do setor de direitos humanos temem que a proibição da burca envie a mensagem errada às mulheres muçulmanas. “Tratar mulheres muçulmanas fervorosas como criminosas não ajudará a integrá-las à sociedade”, afirmou em abril último Judith Sunderland, da organização Human Rights Watch. Falando a respeito do banimento belga, a escritora britânica Myrian François-Cerrah, que é muçulmana, disse simplesmente: “Os belgas têm uma noção engraçada de libertação, criminalizando as mulheres para libertá-las”.


Apesar de toda a popularidade do banimento da burca na Europa, parece improvável que os políticos alemães sejam obrigados a se defrontarem tão cedo com um projeto de lei desse tipo. Segundo uma análise realizada pelo parlamento alemão no mês passado, uma proibição da burca provavelmente violaria a constituição alemã. E o ministro do Interior, Thomas de Maizière (da União Democrata-Cristã, de centro-direita), manifestou a sua oposição a uma legislação desse tipo na Alemanha. “Um debate a respeito da burca na Alemanha é desnecessário”, afirmou Maizière.


Tradução: UOL

PS:
Será que passarão a proibir o Sari para as indianas que moram fora da Índia?
As freiras serão proibidas de vestirem seus hábitos religiosos em países onde o Catolicismo não for a religião oficial?
Fico imaginando nossas irmãs do Candomblé com suas roupas impecavelmente brancas, saias rodadas, lenços de cabeça... Serão também impedidas de usá-las???
Extrapolando para a ala Evangélica, nossas irmãs que não cortam os cabelos, usam saias e se comportam de forma mais contida, serão também proibidas???
Tomara que eu não tenha proibida a minha inocente batinha indiana, ou quem sabe minhas guias religiosas...
Àqueles que não entendem as opções religiosas dos demais, apenas tenho meu lamento.
Não nego que sob a égide do extremismo religioso exista violência. A violência contra a mulher sempre existiu, e sempre foi tolerada e até incentivada em alguns povos. Mas tornar ainda mais difícil a vida dessas mulheres criminalizando-as, é bem pior. Se estavam submetidas à violência e repressão de seus maridos, pais ou pastores/rabinos, agora são também vítimas da Lei, que as obrigarão a ficar trancadas em suas casas, porque não poderão mais circular em público, já que a Burca e o Niqab são os únicos recursos para que tenham alguma independência.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

França apresentará projeto de lei para proibir véu integral

 Uol Notícias - AFP


O governo francês anunciou nesta quarta-feira que apresentará em maio um projeto de lei que contemple a proibição do uso do véu islâmico integral - burca e niqab - em todos os espaços públicos e não apenas nos prédios estatais.

O anúncio foi feito pelo porta-voz do governo, Luc Chatel, após uma reunião de gabinete com o presidente Nicolas Sarkozy, que mais uma vez declarou que o véu integral é um "atentado à dignidade das mulheres".

"O objetivo é impedir que o fenômeno avance. Legislamos para o futuro, o uso do véu integral é um sinal de recolhimento comunitário e uma rejeição de nosso valores", afirmou o porta-voz do governo, antes de recordar que 2.000 muçulmanas usam o véu integral na França.

A decisão do Executivo francês significa que o projeto de lei deve ser submetido ao Conselho de Estado, a principal instância administrativa na França, que no fim de março advertiu que uma proibição total da burca e do niqab poderia ser rejeitada do ponto de vista jurídico.

O Conselho de Estado rejeitou uma proibição geral e absoluta do véu islâmico integral, mas admitiu que "exigências próprias de determinados serviços públicos justificariam a obrigação de manter o rosto descoberto". 


PS:  Essas mulheres que já vivem o jugo da submissão ainda terão que enfrentar o conflito entre a cultura do país onde vivem e a religião que nasceram e professam. Muitas não acham a Burca e o Niqab uma violência contra seus direitos. A maioria delas acredita no que estão fazendo. Nasceram, cresceram e vivem os valores do Islamismo, mesmo que sejam radicais.
       São  valores que nós ocidentais achamos muito rígidos??? O problema é nosso. Nós nos colocamos na posição de juízes e sentenciamos essas mulheres a maior sofrimento, o isolamento doméstico.
       Ontem li que um Sheik islamico culpou as mulheres pelas tragédias mundiais, alegando que o comportamento feminino é inaceitável, levando o homem ao afastamento de Alah. Se no Islamismo existem líderes religiosos que assim falam publicamente, certamente existe um público que os apóia. Imaginem então as esposas e filhas desse público em particular, como vivem????
       O fato é que nós ocidentais temos dificuldade em compreender culturas tão diversas da nossa. E acreditando que temos a posse da verdade, queremos a todo custo garantir que todos se comportem do mesmo jeito que nós, achamos que isso é Igualdade.
       Mas o que é Igualdade mesmo????
i.gual.da.de
sf (lat aequalitate) 1 Qualidade daquilo que é igual; uniformidade. 2 Conformidade de uma coisa com outra em natureza, forma, qualidade ou quantidade. 3 Relação entre coisas iguais. 4 Completa semelhança. 5 Paridade. 6 Identidade. 7 Mat Expressão da relação entre duas quantidades iguais; equação. 8 Polít Identidade de condições entre os membros da mesma sociedade. 9 p us Eqüidade, justiça.
       Se pegarmos apenas as duas últimas definições do Michaelis, igualdade é identidade de condições entre os membros da mesma sociedade, e Equidade/justiça.  Vejamos. Os franceses são protestantes, na sua maioria. Todos os franceses têm o direito de expressar sua religiosidade. Só os franceses? E todos os demais credos religiosos que existem naquele país? Devo entender que são aceitos desde que se mantenham inexpressivos? Afinal, e os Direitos Humanos?
        Falamos aqui em Intolerância Religiosa, que está velada pelas doces e nobres palavras Dignidade e Igualdade. Oprimir as minorias, alegando que elas rejeitam os nossos valores, é inaceitável. Impingir os valores ocidentais a uma minoria, não é garantia de direitos a elas, mas sim violência oficializada.
       É melhor nos lembrarmos dos abusos cometidos em nome de ideologias no decorrer da História. A Santa Inquisição, Hitler, Bin Laden, e se nos esfoçarmos mais, veremos que a lista é imensa. Todos estavam muito bem intencionados, e desejavam que houvesse uma única cartilha, a sua.
       O que me impressiona mais é o fato de nunca aprendermos com nossos fracassos. As derrotas não ensinam. A História é estudada nas escolas desde meninos, e mesmo assim, repetimos os mesmos fatos, apenas mudamos os nomes para que fiquem mais palatáveis. Em nome de Deus, Em nome da Lei, Em nome dos Direitos Humanos...

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