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domingo, 8 de novembro de 2015

Orixás renascendo.

Dia31/10/15, mais uma vez, tive o privilégio de testemunhar e receber o axé de mais 5 Orixás que nasceram no nosso Ile, Yemanjá, Ogun, Oxumarê, Oxossi Arolé, Odé. 
Aos meus irmãos de Santé Ararité, Felipe, Aracyara, Yabauara e Fernanda, meus parabéns! Que seus renascimentos possam trazer alegria, equilíbrio e serenidade aos seus Oris, e que os Orixás maravilhosamente manifestados ontem, possam cobri-los de bençãos e vitórias. 
Axé, e minha eterna gratidão ao meu Baba Pai Rivas Ty Ogyion por me permitir vivenciar esses momentos inesquecíveis!

Obaositalá


Há muitos anos atrás tive um sonho onde estava em uma grande cidade e via pessoas negras e que passavam por mim em grupos, vestiam roupas coloridas e caminhavam de forma interessante pois se moviam com um mesmo ritmo e podia perceber que estavam felizes. Não podendo conter a curiosidade perguntei a uma pessoa que estava ao meu lado quem eram aquelas pessoas? E ouvi claro, alto e em bom som: esses são o povo de Gyan ben Gyan, os Universais (ou Vencedores).

Acordei com uma profunda alegria e guardei em minha a'alma aquela cena...

Hoje ao acordar pela manhã, relembrando o rito de renascimento de cinco irmãos que passaram a ser yawos no Egbe de nosso Babá - Pai Rivas na noite anterior, fui remetido à aquele sonho pois reconhecia no rito a mesma alegria que vi e senti ao ver os Deuses dançando com toda a coletividade.
A cada momento do rito novas surpresas nos reservavam, momentos que os mitos falavam forte em nosso interior e nos levavam a introspecção. 
Ogum vinha a frente com nosso irmão Sergio - Ararité com sua dança guerreira, Oxumaré em nosso irmão Felipe dançando sinuosamente trazia a Terra os auspícios do Céu, Yemanjá com a nobreza da grande mãe, dançava com sua filha Fernanda em perfeito transe, Oxossi dançava caçando com seu filho João - Yabauara, trazendo ao Egbe, prosperidade e fartura. E fechando, vinha Odé com sua filha Wanda - Aracyara percorrendo as pegadas dos que o antecederam como se seguisse a caça para provento de seus filhos.
É meus amigos e irmãos, a noite foi memorável!
Mas para não acabar aqui, uma profunda alegria me aguardava, e foi quando nosso Babá foi dançar com os Deuses. Sua feição era de total alegria e podíamos ver o divino estampado em seu sorriso, como se naquele momento não houvessem mais separações entre o Orun e o Aiye...
Só podemos desejar aos novos yawos onan rere ou seja, caminhos felizes aos renascidos pelas mãos de nosso Babá. 
Motumbase ao Egbe!
Motumbase Baba mi!
Ygbere - Olavo Solera

sábado, 11 de abril de 2015

Ifá e o Destino - Um caminho para uma vida



Caminho pelos caminhos diversos das Religiões Afro-brasileiras apresentados por meu Baba Pai Rivas e alegremente, filiei-me na TUO/OICD há 8 anos.

Ao longo desses anos, antigos compromissos e novos ares. Vi descortinarem-se diante de mim minhas mazelas, fraquezas, limites, inseguranças, medos. Como se cada véu caído mostrasse o quanto eu ainda tinha por aprender, apreender e compreender. Um a um, os anos me trouxeram grande aprendizado e renovação. 

Disseram-me que o caminho da iniciação é pedregoso, e de fato foram muitas as pedras que machucaram meus pés, mas muitas bênçãos oriundas dos Orixás e dos Ancestrais Ilustres que nos acobertam sempre vieram amenizar e suavizar as dores do renascimento. Plena certeza de que o caminho foi sabiamente escolhido, e que o amparo sempre esteve presente, tornando mais leve e mais suportável todas as etapas da transformação.

Nesta última semana vivi um dos momentos mais impressionantes e memoráveis da minha vida religiosa. E precisei de alguns dias para melhor compreender o alcance daqueles breves momentos. Pai Rivas, meu Baba, o tabuleiro de Ifá, e o meu destino nas mãos de Orunmilá. Hora fatídica, definitivamente determinante em minha vida, a partir daquele momento. Como um ponto, estabelecendo ordem ao caos.

Por dias, desde que o rito foi marcado, alimentei em mim uma ansiedade injustificável. Comecei a me perguntar qual seria o enredo que nortearia meu destino? E eu, que já reconhecia no Orixá Obá minha mãe e energia primordial, comecei a me perguntar como seria se Orunmilá Ifá mostrasse que não mais era minha mãe querida a dona de minha cabeça?   Tantas informações, tantas dúvidas.

Ao entrar naquele Congá, que carreava décadas de história, legítimo representante da Raiz de Guiné, uma grande interrogação me acompanhou.  Nunca mais eu seria a mesma. A partir daquele instante, minha vida mudaria definitivamente. O que fui, o que fiz, tudo, absolutamente tudo, ficaria atrás daquela porta.

As areias daquele chão sagrado estavam diferentes, elas simbolizavam o espaço entre o Orun e o Ayê. Meus pés tocavam meu inconsciente, e cada passo dado em direção ao meu Baba remexia dentro de mim minhas gavetas fechadas, minhas memórias ancestrais. Descortinando, desvelando, revelando. Nem o tempo, nem as memórias apagadas pela reencarnação impediriam o relembrar de um momento, o primordial, aquele momento onde meu Ori foi feito utilizando a matéria doada pelo Orixá que passaria a guiar e ditar meu destino. E mais, os dois outros Orixás que contribuíram para completar meu Ori. ENI-ORIXÁ, EDJI-ORIXÁ e ETA-ORIXÁ. O que tudo isso significaria para mim a partir de então?

Senti-me como uma criança que chega à escola no primeiro dia. Medo, insegurança, mas ao mesmo tempo, curiosidade, interesse pelo novo velho caminho.

Ao olhar meu Baba, e sentir nele a Sabedoria dos Babalawos, apaziguei-me.
No chão de areia, o tabuleiro de Ifá coberto com um pano branco velava o destino. E na medida em que os ikins caíam, via lá o enredo da minha história. Exu, Yabás minhas mães ancestrais, e o velho sábio Pai de todos.

Compreendi de imediato que muito ainda tenho por aprender. A maioria das informações que recebi ainda habitam minha mente, sem compreensão. Mas, de pronto, identifiquei-me. IDENTIDADE. Assim como o RG. Cada fato, meu mediunismo, as entidades que são carreadas com ele, meus amigos. Tudo relacionado e conectado.

Dúvidas??? Ah, muitas além daquelas que eu já tinha. Mas, ao menos já sei em que estrada estou caminhando.


Axé Baba mi. Que eu me torne digna deste caminho e saiba honrá-lo dia após dia.

W. W. da Matta e Silva, Pai Matta, meu avô de Santé, manipulando o tabuleiro de Ifá. Essa foto serve para dirimir qualquer dúvida de que o Ifá está e sempre esteve presente na Umbanda Esotérica. 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Rita Ribeiro e a Tecnomacumba! Saravá!

Saudação aos Orixás


Oxossi


Rainha do Mar


Cabocla Jurema


É D'Oxum


Orixá Tempo


Catimbó


Xangô


Oxalá


Yansã


Pomba Gira

 /ribiero
Cocada - Os ibejis


Deixa a Gira Girar




quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O livro não escrito

 Nenhuma religião sem livros oficiais se difundiu tanto como a dos povos africanos. Veja como a tradição oral guardou e multiplicou a crença na mitologia dos orixás

por Texto Débora Sanches

A chegada de uma nova mãe-de-santo é anunciada com festa no terreiro de candomblé. Em meio a batuques e cânticos oferecidos aos orixás, a devota é presenteada com um jogo de búzios e um conjunto de elementos que simbolizam os fundamentos da crença. Depois de passar anos ouvindo ensinamentos dos mais velhos, entoando cânticos e preparando oferendas aos orixás, entre outros ritos, ela está pronta para passar adiante o que aprendeu. Mãe-de-santo, pai-de-santo, babalorixá, babalaô, nganga, mameta-de-inquice, alagbá, doné. Eles têm diferentes nomes, de acordo com a religião a que pertencem. Todos têm em comum a missão de transmitir, oralmente, de geração a geração, as crenças nascidas no continente africano e cultivadas, a partir do século 16, nas Américas. A escravidão espalhou os povos do continente pelo Novo Mundo. E, para onde eles foram, levaram na memória seu livro não escrito.
“Para os escravos, não se tratava apenas de uma religião mas de um jeito de interpretar o mundo. Mesmo com a diáspora, extratos dessa cultura permaneceram ligados à realidade dos negros”, diz Fernandez Portugal Filho, professor de antropologia das religiões Afro-brasileiras da Universidade de Havana, em Cuba. Nas senzalas, as histórias de lutas, perdas e glórias dos orixás eram justamente o que dava identidade aos negros violentados pelo exílio e maus-tratos. Em cada lugar, seus mitos dialogaram com culturas locais para formar novas religiões. Hoje, cerca de 100 milhões de pessoas compartilham essas crenças. Uma expansão única entre as religiões que nunca traduziram sua fé em palavras escritas.

Capítulos cantados
Talvez isso aconteça porque, apesar de a mitologia dos orixás ser transmitida oralmente, ela é uma espécie de livro imaginário. Segundo a história, Exu, o orixá mensageiro, teria percorrido as terras africanas para recolher todas as narrativas de vida possíveis e entregá-las a Ifá, o deus do oráculo, que as organizou em 16 capítulos. Cada um é subdividido em 16 partes, totalizando 256 lendas de orixás, em forma de poemas cantados. Cada conjunto de poemas, os versículos de Ifá (ou itans de Ifá), é conhecido como odu e descreve a vida e as atribuições de orixás e seus filhos. Tais lendas e deuses são compartilhados por diferentes povos africanos, inclusive inimigos. O reino Abomei, da nação jeje, que comercializou homens e mulheres iorubás com portugueses mercadores de escravos, reverenciavam os inquices, deuses semelhantes, com nomes diferentes. “As divindades africanas representam manifestações da natureza, com nomes diferentes de acordo com a região. O iorubá Xangô pode ser o vodum Badé ou o inquice Zaze. E Oyá pode ser o vodum Sobô ou o inquice Bamburucema”, diz o sociólogo Armando Vallado, da USP.
Em praticamente todos os lugares para onde vieram escravos negros, a mistura desses ritos e divindades misturaram-se com características regionais e tomaram diversas formas. A partir do século 19, surgiram crenças como o xangô, em Pernambuco, o tambor-de-mina, no Maranhão, e o batuque, no Rio Grande do Sul. No início do século 20, o candomblé se encontrou com o espiritismo francês, no Rio de Janeiro, e fez nascer a umbanda. Em Cuba, além da santeria, onde as vestimentas dos orixás lembram trajes ciganos e de colonizadores espanhóis, há o palo monte e o palo mayombe, formas de culto aos egunguns (espíritos ancestrais) de origem banto. As crenças se desdobraram no Brasil, em Cuba, no Haiti e em Trinidad e Tobago, mas o transe de possessão das divindades e a fé no jogo da adivinhação permaneceram como ponto comum dos ritos em cada local.
Segundo a mitologia, Ifá seria dono de todos os porquês dos acontecimentos na vida do ser humano e saberia como identificar e solucionar os problemas de cada um deles. E contam os africanos que Ifá teria deixado o dom do oráculo a todos os povos por onde passou, mudando apenas a maneira de cada nação manipular os amuletos que permitem fazer as previsões. Os jejes jogam as peças – que, além dos búzios, podem ser nozes de dendê – para a frente. Os nagôs, para trás. Os odus, os versículos do livro, são relacionados à vida de quem faz a consulta se revelam na posição em que eles caem. “No jogo de búzios, a combinação de 3 odus sintetiza a vida da pessoa, dando ênfase ao passado, presente ou futuro”, diz Portugal Filho. Aqui, os pais-de-santo preservaram apenas o nome dos odus, os orixás protagonistas de cada história, as previsões e os ebós (ou oferendas). “Os pais e mães-de-santo brasileiros simplificaram a leitura dos odus, tornando rápida e simples a formação dos sacerdotes”, diz Reginaldo Prandi, autor de Mitologia dos Orixás. Na África e em Cuba os babalaôs – conhecidos como pais do segredo – ainda memorizam meticulosamente cada história.
Os ritos de possessão são o outro elemento ritual transmitido com o “livro”, com algumas mudanças em cada rito. No candomblé, os orixás “pegam a cabeça” de um filho-de-santo – como se diz no terreiro quando eles incorporam em um devoto com o dom da mediunidade –, dançam ao som de batuques e cânticos, com movimentos que sinalizam suas qualidades. Iansã, por exemplo, é a deusa dos ventos e das tempestades e tem poder sobre o mundo dos vivos e dos mortos. Quando incorporada, empurra o ar com as mãos como quem quer espantar os eguns ou controlar os ventos. Nessa vertente, os orixás não conversam com seus devotos, ao contrário dos voduns do tambor-de-mina, que se expressam verbalmente e comem do banquete servido no terreiro. Na umbanda, os orixás nem chegam à Terra. Quem toma o corpo dos filhos-de-santo são guias espirituais, como os ancestrais pretos-velhos, caboclos e crianças, que visitam os humanos para levar seus pedidos e agradecimentos aos deuses e para trazer do mundo divino as bênçãos e os alertas.

A fala que muda e renova
Mesmo com o desenvolvimento da escrita nas civilizaçãos africanas e o contato com a língua de outras culturas, as religiões africanas continuaram sem livro. Até hoje só existem inúmeros livros etnográficos – surgidos a partir do século 19 – e registros nas cadernetas dos sacerdotes – que acabam servindo como consulta para os seguidores. Em Cuba, os babalaôs cultivaram o hábito de registrar os odus em suas libretas (cadernetas), anotações pessoais com mitos, interpretações e prescrições de sacrifícios. Os primeiros escritos desse tipo também são do século 19, e apareceram em pesquisas do padre Baudin, de 1884, e do coronel Ellis, de 1894, missionários europeus que levaram a escrita à África Ocidental, dando início à escolarização dos negros e à formação da primeira gramática iorubá, com listas de verbos e substantivos. O mais antigo registro brasileiro com divinizações de antigos babalaôs foi o do baiano Agenor Miranda Rocha, o mestre Agenor, datado de 1928. O curioso é que, ao mesmo tempo que guardam informações para a posteridade, quando essas coisas vão para o papel, muitas outras se perdem. “Toda a literatura sagrada tem que ser memorizada. E, quando se usa a escrita, perde-se a memória do que não está registrado”, diz Reginaldo Prandi.
Com o tempo, tanto a falta de uma versão escrita como a transcrição de alguns mitos para o papel mudou a forma da tradição. Ao longo do tempo, o jogo de adivinhação limitou-se a um segredo de iniciação na religião – a leitura dos búzios para quem ingressa no terreiro. Já os mitos se difundiram mais como manifestação popular do que como parte essencial do oráculo, no Brasil. “Como a mitologia iorubá é muito rica em símbolos e signos, teria gerado uma maleabilidade de ritos”, diz o sociólogo Vallado. Em Mitologia dos Orixás, Reginaldo Prandi compilou 301 mitos africanos e afro-americanos. Em cada um os orixás se multiplicam em vários, criando uma diversidade de devoções, cada qual com um repertório específico de ritos, cantos, danças, paramentos, cores, preferências alimentares, cujo sentido pode ser encontrado nos mitos. Essa flexibilidade que a tradição oral viabiliza e admite, no entanto, é justamente a fonte da riqueza e da resistência das religiões de origem africana. Isso e a fé dos velhos negros nos orixás e suas histórias, passadas adiante de pai para filho-de-santo, de sacerdote para discípulo.

A travessia dos orixás

O tráfico de escravos entre os séculos 16 e 19 foi determinante para a difusão das religiões de origem africana. Para os exilados, elas eram seu contato com o divino e a terra natal.
CARIBENHAS
Nas colônias espanholas de Cuba e no Haiti o sincretismo originou a santería e o vodun (“espírito”, no idioma fon). Na crença haitiana, bonecos são mensageiros entre homens e deuses. Mas os alfinetes são invenção de filmes americanos.
ORIGEM
Povos africanos de mais de 1000 etnias com relações de aliança e guerra fundem divindades de diferentes regiões. Desses mesmos lugares sairiam os escravos levados para a América.
CANBDOMBLÉ
O sincretismo do candomblé nasce na Bahia graças à proibição dos cultos africanos: forçados ao catolicismo, os escravos disfarçavam o culto aos orixás com imagens de santos. Em 1960, o fim da proibição difunde o culto no Brasil.
UMBANDA
No Rio de Janeiro, o contato com o espiritismo formou a umbanda, na década de 1920. Na nova religião, guias espirituais incorporados no terreiro, como o preto-velho e o caboclo, fazem a comunicação entre os devotos e os orixás.
DIÁSPORA
A partir do século 19, navios negreiros fizeram cerca de 35 mil viagens à América. A bordo, seguiram para o continente 12,5 milhões de africanos, principalmente dos povos iorubá e banto.

O panteão dos orixás

A vida e os poderes dos orixás, deuses da religião iorubá, são contados nos versículos de Ifá. Sua origem humana os faz imperfeitos, com desejos e defeitos
Oxalá
Chamado de Grande Orixá, é o criador do homem, senhor do princípio da vida, da respiração e do ar. Castigado por Exu por não lhe oferecer uma oferenda, bebeu muito e, bêbado, não pôde criar o mundo. Restou a ele criar os humanos. Ainda, embriagado, modelou seres distintos, dando origem à diversidade.
Exu
Mensageiro entre orixás e humanos, foi incumbido de receber numa encruzilhada os presentes das visitas de Oxalá, enquanto ele criava o homem. Por isso, ele não executa pedidos sem algo em troca. Tem personalidade vingativa, que o fez ser associado ao demônio cristão por missionários europeus.
Ogum
Deus da guerra e dos caminhos, da tecnologia e das oportunidades de realização pessoal. Dono do segredo da forja, que cria instrumentos mais resistentes para a agricultura e lanças para caçadores e guerreiros. Além da enxada, seu símbolos é a espada,que o fez ser ligado aos católicos santo Antônio e são Jorge.
Xangô
Governador da justiça, foi um dos primeiros reis da cidade de Oió, que dominou por muito tempo diversas cidades iorubanas. Geralmente, quem o incorpora usa uma coroa, demonstrando seu nobre posto. É o patrono das religiões dos orixás no Brasil e marido de Iansã, Obá e Oxum, deusas de rios africanos.
Iansã
Dirige o vento e as tempestades e é também deusa da sensualidade feminina. Seu nome quer dizer “mãe nove vezes” e, segundo o mito, precisou fazer uma oferenda para conseguir ter a prole. Mãe batalhadora, vendia dendê para sustentar os filhos. Outra lenda diz que teria sido uma princesa na cidade de Irá, em 1450 a.C.
Oxóssi
Orixá das florestas, de onde se retira o sustento. Na África, teria sido rei de Ketu, cuja população foi destruída pelos inimigos jejes. Por isso, sobreviveu apenas no Brasil,onde é padroeiro dos ketus. Incorporado, segura arco e flecha e dança como se estivesse caçando. Em alguns mitos também é irmão de Ogum.
Iemanjá
Senhora das águas, tem o culto ligado ao rio Níger, na África, onde também é celebrada entre as divindades femininas primordiais, donas do conhecimento e do feitiço. É mãe dos orixás porque ajudou a criar e povoar a Terra. Em sua festa, dia 2 de fevereiro, devotos oferecem flores e presentes ao mar.
Omulu
Senhor da peste e conhecedor de seus segredos e curas. Por ter no corpo as marcas da varíola, uma das doenças a que os escravos foram expostos, tem sincretismo com são Lázaro, cujo corpo também é coberto de chagas. Nos ritos, sacode o xaxará, feixe de palha com cabaças que guardam remédios. 

domingo, 10 de outubro de 2010

O Encanto dos Orixás

Leonardo Boff - 





teólogo e autor de Meditação da Luz. O caminho da simplicidade. Vozes 2009.
http://alainet.org/active/34683





"Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela  alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuina brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas. Num contexto de desamparo social, com milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas, doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima experiência espiritual.

O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos. Essa revelação tem como destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual. Ela quer reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar a caridade e o amor fraterno,  mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.

O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas tradições orientais) e de BANDHA (movimento inecessante da força divina). Sincretiza de forma criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso pais criando um sistema coerente. Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres humanos em suas necessidades. Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las. Os Orixás, a Mata Virgem, o Rompe Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas arquetípicas da Divindade. Elas não multiplicam Deus num falso panteismo mas concretizam, sob os mais diversos nomes, o único e mesmo Deus. Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.

A Umbanda é uma religião profundamente ecológica. Devolve ao ser humano o sentido da reverência face às energias cósmicas. Renuncia aos sacrifícios de animais para restringir-se somente às flores e à luz, realidades sutis e espirituais.

Há um diplomata brasileiro, Flávio Perri, que serviu em embaixadas importantes como Paris, Roma, Genebra e Nova York que se deixou encantar pela religião da Umbanda. Com recursos das ciências comparadas das religiões e dos vários métodos hermenêuticos elaborou perspicazes reflexões que levam exatamente este título 
O Encanto dos Orixás, desvendando-nos a riqueza espiritual da Umbanda. Permeia seu trabalho com poemas próprios de fina percepção espiritual. Ele se inscreve no gênero dos poetas-pensadores e místicos como Alvaro Campos  (Fernando Pessoa), Murilo Mendes, T. S. Elliot e o sufi Rumi. Mesmo sob o encanto, seu estilo é contido, sem qualquer exaltação,  pois é esse rigor que a natureza do espiritual exige.

Além disso, ajuda a desmontar preconceitos que cercam a Umbanda, por causa de suas origens nos pobres da cultura popular, espontaneamente sincréticos. Que eles tenham produzido significativa espiritualidade e criado uma religião cujos meios de expressão são puros e singelos revela quão profunda e rica é a cultura desses humilhados e ofendidos, nossos irmãos e irmãs. Como se dizia nos primórdios do Cristianismo que, em sua origem também era uma religião de escravos e de marginalizados, “os pobres são nossos mestres, os humildes, nossos doutores”.

Talvez algum leitor/a estranhe que um teólogo como eu diga tudo isso que escrevi. Apenas respondo: um teólogo que não consegue ver Deus para além dos limites de sua religião ou igreja não é um bom teólogo. É antes um erudito de doutrinas. Perde a ocasião de se encontrar com Deus que se comunica por outros caminhos e que fala por diferentes mensageiros, seus verdadeiros anjos. Deus desborda de nossas cabeças e dogmas."

 
  Achei maravilhoso encontrar este texto de Leonardo Boff falando da Umbanda, na minha caixa de emails. Não sabia que ele havia se aventurado a falar da Umbanda. Ele tem conceitos claros e bons, embora equivocados em algumas partes. 


Por respeitar muito este escritor maravilhoso é que venho discutir os pontos mais conflitantes de seu texto.


  O primeiro conceito equivocado é quanto ao mito de origem da Umbanda. Não foi com Zélio Fernandino de Moraes, em Niterói, que a Umbanda se originou. Todos querem um ponto de início, é o mito da formação, e todos querem um fundador, mas o fato é que a Umbanda não tem fundador e nem mito de origem, ela é o resultado da mistura das diversas culturas que aqui se uniram.
 Confiram: 


http://www.ftu.edu.br/Site/producoes/POR_UMA_NOVA_METODOLOGIA.pdf


"Umbanda foi um termo encontrado apenas a partir de 1936, através da obra O Negro Brasileiro, do professor Artur Ramos (1934). Para Artur Ramos este termo teria significado feiticeiro ou sacerdote. Nenhum autor da época, entre eles Nina Rodrigues, João do Rio, Manoel Quirino, Roger Bastide, Donald Pierson, Gonçalves Fernandes, citam este termo. Nem mesmo Gilberto Freire cita Umbanda em 1934, no Primeiro Congresso Afro-Brasileiro. Certamente pelo fato de todos terem escrito sobre a cultura Afro-Brasileira, avaliando apenas os Cultos de Nação.
Padre Manuel da Nóbrega (1549), um dos renomados nomes da Companhia de Jesus, relatou a manifestação de um pajé, que na ocasião apresentava a voz de criança, e induzia o transe nos nativos (PRIORI, 2004, p. 52). Pela descrição, podemos suspeitar que esta seja a primeira documentação escrita de uma entidade que, posteriormente, seria conhecida como a Criança da Umbanda. Então, a partir de 1860, manifestações de entidades como Caboclos, Pretos Velhos e Crianças, através de Juca Rosa (SAMPAIO, 2000), negro carioca alforriado, e de João de Camargo (RIVAS, M. E., 2008), negro paulista, começaram a ser relatados oficialmente.
Portanto, se as entidades umbandistas já se mostravam desde 1549, por que somente a partir de Zélio Fernandino de Moraes em 1908, considerou-se o surgimento da Umbanda? O fato de ser branco e kardecista teria alguma relevância? Na visão eurocêntrica, etnocêntrica, xenófoba da sociedade da época, somente a raça branca seria apta a confirmar uma fé (Mito de fundação)." (TCC de Osvaldo Olavo Ortiz Solera, teólogo umbandista e professor de Teologia Umbandista da Faculdade de Teologia Umbandista - FTU).




  Portanto, podemos no máximo admitir que o Movimento Umbandista começou no final do século XIX, mas a Umbanda já existia há muito, muito tempo.

  O segundo conceito equivocado é o significado de Umbanda. O conceito não está de todo errado, apenas não considera que existem outras formas de interpretação em outras escolas umbandistas.  O conceito mais belo é o de AUMBANDAN (pronunciado como OMBHANDHUM), que teria sua origem no alfabeto abanheenga, alfabeto sagrado dos antigos Tupis, fonte original do alfabeto adâmico ou devanagárico. Portanto, os Vedas, que foram escritos em devanagárico têm origem na tradição Tupi. Pasmem, mas é verdade!


  AUMBANDAN é a síntese ou reunião entrelaçada de todo o conhecimento ou gnose humana, é a própria ligação viva entre o que é espiritual e o que é natural, o conjunto sagrado das leis divinas (Umbanda, a Proto-Síntese Cósmica - F. Rivas Neto).

O terceiro conceito equivocado é o de que a Umbanda tem uma única raiz. Existem diversas escolas umbandistas que abarcam desde o Candomblé, a Pajelança, o Kardecismo e o Catolicismo. Então, a Umbanda é feita de Umbandomblé (termo novo para Umbanda com forte influência no Candomblé), Candomblé de Caboclo, Toré, Babassuê, Terecô, Tambor de Mina, Jurema, Catimbó, Pajelança, Umbandec (termo novo usado para definir a Umbanda com fortes traços do Kardecismo), Umbanda Esotérica, Umbanda Cristã/Católica... Vejam aqui um pouco mais sobre esse conceito de escolas umbandisas:



http://sacerdotemedico.blogspot.com/2010/10/unidade-umbandista-manifestada-na.html

Enfim, tenho certeza  de que esqueci de citar muitas das vertentes que compõem a Umbanda, tantas são as facetas que nela existem. E portanto, a ritualista irá diferir de acordo com cada escola. Algumas de fato, aboliram os sacrifícios ritualísticos de animais, outras ainda os praticam. E isto não as desmerecem. O conceito de restituição de Ashe à natureza e aos Elementais deve ser bem compreendido, antes de se usarem discursos retilíneos, que se originam em preconceitos cristãos. Quem desejar saber mais, consulte este blog:

http://sacerdotemedico.blogspot.com/2010/06/axe-o-poder-volitivo-do-orixa-manifesto.html

E por último,concordo plenamente com Boff quando ele fala que a Umbanda está impregnada de conceitos ecológicos. Ela fala sim do retorno às origens, do convívio harmônico com a natureza e seus recursos, do respeito às diferenças, e do convívio pacífico com o outro, mesmo que diferente de mim. 

Respeitar, Interagir e contribuir. Essas são as lições que mais compreendi até agora na Umbanda. E sei que estou apenas começando. 

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