domingo, 22 de fevereiro de 2026

Pierre Verger x Joana Elbein

 






http://iledeobokum.blogspot.com/2009/01/etnografia-religiosa-iorub-e-probidade.html

 

http://iledeobokum.blogspot.com/2009/01/pierre-verger-e-os-resduos-coloniais-o.html

 

A leitura de dois textos propostos pelo Prof. Olavo (Mestre Ygbere) foi difícil no terceiro ano da FTU (Faculdade de Teologia Umbandista), em 2010. Eu ainda aluna e sedenta de conhecimento a respeito das religiões afro-brasileiras.            Página após página, dúvidas surgiam.

            Os dois autores, Pierre Verger e Juana Elbein, são respeitadíssimos em seus meios. Ambos constituem leitura obrigatória para quem se propõe a compreender as Religiões Afro-Brasileiras, e são de fundamental importância para quem deseja ser um Teólogo Umbandista.

            Pierre Verger, um jovem francês abastado, resolveu viver fotografando a cultura africana, e ficou famoso com isso. Ele veio para o Brasil, e se aproximou das Religiões Afro-Brasileiras, passando a escrever sobre elas. Ele chegou a visitar a África algumas vezes, onde recebeu o título de Fatumbi (“nascido pelo Ifa”), e a outorga de Babalawô.

            Juana Elbein, antropóloga, iniciada no Candomblé e esposa de um Babaogê famoso na Bahia, defendeu seu doutorado em Sorbone/França com a tese Os Nagô e a Morte, e que posteriormente foi publicado, tornando-se um dos livros mais lidos pelos adeptos das Religiões Afro-Brasileiras.

            O primeiro texto, escrito por Pierre Verger, é uma crítica ao livro Os Nagô e a Morte, escrito por Juana Elbein. Neste texto ele a acusa formalmente de construir um sistema teogônico sofisticado, estruturado, embelezado, dualista.  Chama atenção para obras que deram origem a erros crassos de interpretação da cultura africana, e como estas obras foram sendo assimiladas e reproduzidas por outros autores, até chegarem aos dias atuais.  Erros conceituais, e até de simples tradução ou entonação vocal originaram, segundo ele, erros irreparáveis. E para os pesquisadores menos preparados, ou menos sérios, estes conceitos foram fatais. Enfim, Verger coloca dúvidas razoáveis na obra de Juana Elbein. Questiona sua idoneidade e sua reputação como Antropóloga.

            O segundo texto foi escrito por Juana Elbein, como direito de resposta dado pela mesma revista que publicou o texto de Verger. Neste texto, Juana fala do conceito “desde dentro” como uma iniciada e verdadeiramente envolvida com o Santo, chamando a atenção para o fato de que, embora Verger tenha o título de Babalawô, jamais teve terreiro. Segundo ela, sua experiência de anos vividos em dois terreiros famosos da Bahia, mais a sua convivência conjugal com seu Pai de Santo, capacitaram-na para escrever sobre tudo que viu e ouviu. Ela chamou isto de Antropologia Iniciática.

Ela, por sua vez, acusou Verger de buscar o exotismo, a beleza e o bom primitivo, desprezando a capacidade do povo africano em construir uma teogonia tão complexa e paradigmática. Questionou ela os conceitos expostos no conhecimento acadêmico. Questionou também a capacidade de Verger em interpretar os valores dos povos africanos. Acusando-o de falta de probidade, de limitações metodológicas, e da produção de conceitos esvaziados de conteúdos filosóficos.

Segundo ela, Verger insiste em manter a cultura africana no primitivismo, num estágio inferior, fácil de ser manipulada e dominada. Mais um discurso colonialista europeu tentando desvalorizar a tradição oral, fonte primordial do conhecimento das Religiões Afro-Brasileiras, procurando desacreditar a sagrada relação mestre-discípulo, que caracteriza o caminho da Iniciação dos terreiros.

Acusa-o de que, em sua visão racista, mantém a visão folclorizante do outro, que se deseja dominar, procurando alienar e cooptar.

Ela ressalta que o discurso de Pureza esconde o vil preconceito. Com a intenção de proteger os incapazes, procura manter o monopólio da Verdade, e reage à mínima contrariedade, quando vê seu Poder ameaçado.

Juana mostra-se coerente, consciente de seu papel. Verger, ao contrário, mostra-se arrogante e superior.

Ficam bem claros os conflitos de gênero entre Verger e Joana. Mas, acima de tudo, fica evidente a questão de hierarquia. Como pode uma iniciada sobrepor a opinião de um Babalawô? Verger não suportou, por certo, as duas coisas ao mesmo tempo. Perda de prestígio, humilhação e medo do ostracismo, teria sido isso que pensou Verger para compilar seu texto?

É inegável o valor de Verger, ele é referência em todos os textos escritos sobre o Povo de Santo. Mas, é inegável que este texto deixou bem claro que a tolerância com as diferenças não era uma qualidade dele.

Em minha pouca experiência, achei fabuloso poder encontrar textos tão bem escritos, e capazes de manter minha atenção por tão longo tempo.

 

Jociane Neves Negrao

Mestra Obaositalá (Sacerdotisa da OITC Templo do Caboclo 7 Ondas) – Iniciada de F. Rivas Neto (Pai Rivas – Yamunishida Arapiaga).


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