"Somos todos viajantes de uma jornada cósmica, poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias." Deepak Chopra

domingo, 31 de outubro de 2010

Dilma é eleita primeira mulher presidente do Brasil

Após quatro meses de uma campanha em que temas morais e religiosos ofuscaram propostas concretas sobre temas importantes à nação, Dilma Rousseff é eleita a primeira presidente da história brasileira. A candidata petista derrotou o tucano José Serra em um segundo turno em que a abstenção superou os 20 milhões de eleitores.
Com mais de 95% dos votos apurados, a sucessora de Luiz Inácio Lula da Silva não vai alcançar a votação de 2006 do atual presidente. Naquele ano, Lula obteve mais de 58 milhões de votos, e Dilma soma até o momento cerce de 53 milhões.

Dilma confirmou a força do PT no Nordeste, vencendo em todos os Estados da região, em alguns deles com votação superior a 70% dos votos válidos como Maranhão e Pernambuco. A presidente eleita também teve uma vitória importante em Minas Gerais, reduto do PSDB que elegeu o tucano Antônio Anastasia em primeiro turno.
Trajetória
Quatro segundos. Nenhuma palavra. Uma mesa distante da do chefe. Essa foi a participação de Dilma Rousseff na primeira propaganda eleitoral do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Oito anos depois, ungida por seu mentor para sucedê-lo, a ex-ministra, na primeira disputa eleitoral de sua vida, transcendeu a fama de gestora sisuda para se tornar a primeira presidente da história brasileira.
Sem programa, um de seus desafios será provar que não é apenas uma sombra de Lula, dizem analistas. Além da confiança do presidente, o grande trunfo da petista foi a política de alianças adotada pelo PT e pelo próprio presidente para elegê-la. Graças ao apoio formal de PMDB, PCdoB, PDT, PRB, PR, PSB, PSC, PTC e PTN, a campanha de Dilma ganhou força com o início do horário eleitoral obrigatório. Com isso, a candidata ganhou personalidade.
No caminho para ser hoje a presidente eleita do Brasil, Dilma sofreu para ganhar trânsito com políticos em geral e com eleitores mais animados em ver seu mentor do que a ela própria.Ficou por pouco o triunfo já no 1º turno, depois de uma onda de rumores e outra de denúncias envolvendo seus aliados. Para vencer na votação de 31 de outubro, a ex-ministra-chefe da Casa Civil teve de renovar seu pragmatismo assinando compromissos com religiosos, iniciar campanha negativa contra o rival José Serra (PSDB) e trocar a gagueira que a abatia nos idos de abril, na pré-campanha, por aquilo que chamou de “assertividade”, mas que foi considerado agressividade pelos adversários.
Precisou de dois Josés Eduardos para guiá-la: Dutra, presidente do PT, e Cardozo, secretário-geral do partido. Obediente e pragmática, atendeu prontamente aos conselhos do marqueteiro João Santana. Adotou novo visual.
A presidente eleita forjada na campanha é diferente da especialista em energia que, com seu temperamento forte, foi alçada ao primeiro time do governo após o escândalo do mensalão, em 2005.
Neste ano, tentou aliviar a imagem da mulher que passava descomposturas em colegas ministros. “Sou uma mulher dura cercada de homens meigos”, costuma dizer, em tom de ironia. Buscou evitar confrontos, mas às vezes partiu para o ataque, principalmente em momentos-chave do segundo turno.

O mesmo se passou com quem a visse na mesma pasta do governo gaúcho, anos depois. Agora ela terá quatro anos para provar se é capaz de atuar como protagonista, e não como uma mera coadjuvante.Filiada ao PT há menos de uma década, a ex-pedetista Dilma conquistou seu primeiro cargo público pelo voto. No fim dos anos 80, ninguém pensava que a secretária de Finanças de Porto Alegre iria tão longe.
Sem programa
Dilma não precisou de uma Carta ao Povo Brasileiro –nos moldes da divulgada por Lula antes da campanha de 2002, indicando que não faria mudanças radicais na economia.
Mas, no segundo turno, comprometeu-se com questões religiosas. Após uma campanha contra ela em igrejas católicas e templos evangélicos, prometeu não enviar ao Congresso projetos que interfiram nesses assuntos. Assim, estancou a polêmica sobre sua posição a respeito da liberação do aborto.
“Em uma campanha com candidatos tão parecidos, essa carta foi um momento importante porque evitou maior acirramento e colocou as coisas no lugar”, disse ao UOL Eleições o cientista político Luciano Dias, do Ibep (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos).
“A Dilma neobeata foi mais um sinal de pragmatismo. É um sinal de que a governabilidade será tão ou mais importante do que foi para Lula, já que ela não tem o mesmo estofo”, afirma Dias.
A presidente eleita insistiu tanto na defesa de avanços recentes que nem sequer apresentou plano de governo. “Sabemos o que acontecerá na parte econômica? Não. Sabemos se haverá reformas? Não. O que sabemos é que Dilma terá a sombra de Lula do começo ao fim de seu governo”, afirma Cláudio Couto, da FGV (Fundação Getúlio Vargas). "O sinal dado por sua campanha é de que as coisas vão continuar mais ou menos como estão.”
Ainda assim, com tantas dúvidas sobre o que virá, não houve solavancos no mercado financeiro. Está subentendido que serão mais quatro anos de autonomia não-formal do Banco Central, de câmbio flutuante, de investimento em infraestrutura e de medidas macroeconômicas em fatias, raramente em forma de pacotes. “A conversão do PT já está feita. Lula vai sair carregado nos braços, e o mercado já não liga”, afirma Dias.
A volúpia do PMDB e de aliados à esquerda, como PSB e PCdoB, mais poderosos depois das eleições 2010, também acende dúvidas sobre se a presidente eleita será capaz de acomodar tantos aliados de primeira hora em seu governo.
Adversários acusam e aliados reconhecem: Dilma não terá a mesma capacidade de articulação exercida por Lula. “E seria diferente se Serra vencesse?”, pergunta Couto.
Sem teflon
Na campanha, a presidente eleita mostrou que aprendeu mais uma lição de seu maior defensor: deixar pelo caminho aliados que se envolvam em práticas suspeitas.
Na reta final das eleições, Dilma sofreu ataques dos adversários por conta de sua ex-braço direito na Casa Civil, Erenice Guerra, demitida do ministério depois que seu filho se envolveu com lobistas. Lula fez o mesmo com José Dirceu e Antonio Palocci.
“Não vou aceitar que se julgue a minha pessoa com base no que aconteceu com um filho de uma ex-assessora”, disse Dilma. As pesquisas citaram o caso Erenice como principal fator para a disputa do segundo turno.
“A popularidade do Lula é resultado de décadas. A maior parte da popularidade de Dilma não vem dela mesma”, afirma Dias, do Ibep. “Até pela folgada maioria no Congresso, ela será mais observada pela mídia.”
Alguns dizem que Dilma esquentará o principal assento do Palácio do Planalto para que Lula retorne em 2014. Outros preferem vê-la como uma mulher forte, que sobreviveu à prisão e ao câncer para golpear um cenário político repleto de caras antigas. Uns tantos a consideram uma burocrata que terá dificuldades para conduzir o país por falta de ginga com os políticos de Brasília.
Com uma trajetória que só começou a ser conhecida há poucos meses, talvez o Brasil precise de quatro anos para saber a resposta.
Faltam referências –e plano de governo divulgado– para definir-se o que Dilma buscará de diferente em relação a Lula. Se é que fará isso. O dado concreto –como a própria gosta de dizer– é que ela ascendeu de figurante em 2002 a estrela em 2010.

Crise nas empresas ou crise do jornalismo?




Alberto Dines

# O problema é geral? Veja o que a acontece no NYTimes, na Folha e na Abril:A receita líquida do grupo The New York Times aumentou no terceiro trimestre de 98: passou de US$ 46 milhões em 1997 para US$ 55 milhões em 98. Apesar da queda generalizada no faturamento publicitário no resto dos diários americanos. E apesar da conduta sóbria na cobertura do caso Clinton-Lewinsky contrastando com o sensacionalismo do resto da mídia. O faturamento publicitário do jornal cresceu 4,6% (publicado no Estadão, 16/10/98, p. A-13). Se a publicidade subiu, a circulação não pode ter desabado. Se um grupo teve aumento de receita, a crise não pode ser geral. Só pode ser setorial. E afeta aqueles que não sabem apostar em qualidade.
Até o momento nem a Folha de S. PauloO Dia ou a Editora Abril fizeram demissões. Nesta proibiu-se a compra de matérias dos free-lancers, o chamado "frila", e está sendo eliminado um escalão do staff de alto nível ("aspones") que estão passando para a operação ("linha", no jargão).
# Quadros dirigentes são inocentes? Veja o que aconteceu no JB
A equipe que comandava a redação do Jornal do Brasil ganhava 150 mil reais mensais (cifra fornecida pela empresa). Eram quatro, o que dá um salário médio de R$ 37.500,00 (trinta e sete mil e quinhentos reais). É remuneração de grande empresa, altamente lucrativa, no primeiro mundo. Alan Greenspan, um dos poderosos do mundo, ganha US$ 11.400 mensais, sem 13° salário (Ancelmo Gois, Radar de Veja, 21/10/98). Mas o salário médio dos jornalistas, segundo a Administração da Redação, fica em R$ 2 mil (o intervalo vai de R$ 700 a R$ 12 mil). Há uma dúzia de estagiários com remuneração de R$ 250 e outro tanto de prestadores de serviço ganhando entre R$ 700 e R$ 1.000. O problema é de quem recebe os altos salários ou de quem adota esta aberrante disparidade salarial? Responda você mesmo.
Acrescente-se um dado qualitativo: excetuados alguns editores e colunistas que sabiam o que faziam, o comando jornalístico mostrava-se sem rumo e sem estratégia. Comportava-se como barata tonta e, para fingir modernidade, copiava os modismos da Folha, afastando-se dos padrões de qualidade que sempre marcaram o jornal. Um quality paper pode desaparecer, mas desaparece mais depressa quando abandona os compromissos que o converteram num quality paper.
A Rede Record e a Bandeirantes pagam salários fabulosos aos âncoras dos telejornais do horário nobre mas não investem em equipes e equipamento. No caso de Boris Casoy, sua fórmula esgotou-se. No caso de Paulo Henrique Amorim, como se trata de jornalista experimentado e competente, o sistema ainda rende, na base do one-man show. Segundo matéria publicada na Folha, essas redes, além de outras, estão à venda (ver remissão abaixo).
# O modelo jornalístico era apropriado? Veja no que deu a influência da Universidade de NavarraNo início desta década e pela primeira vez na história do jornalismo brasileiro, a grande maioria dos grandes veículos impressos adotou uma espécie de plataforma comum, no tocante às estratégias e modelos editoriais. Era a "Doutrina Navarra", enunciada por um grupo de consultores ligados àquela Universidade ou a empresas da mesma linha sediadas em Miami.
Visualmente preconizavam jornais lambuzados de cores. Conceitualmente defendiam a idéia da submissão ao "mercado". Tecnicamente pretendiam o padrão de jornalismo breve, reduzido, movimentado por gráficos e não pelo conteúdo. A ética apregoada nada tinha a ver com a função social da imprensa ou seus compromissos conceituais – moralismo formal, mais para seita religiosa do que para instituição política.
Agora, diante da derrocada deste modelo, é imperioso lembrar os seus formuladores. E o preço que se pagou pelas "consultorias", pelos sucessivos redesenhos e pelos cursos de aperfeiçoamento no exterior.
# Empresários são confiáveis? Veja o que aconteceu na Manchete, no SBT, etc., etc.Adolpho Bloch ganhou do governo militar duas concessões, com o compromisso de fazer TV de alta qualidade. Não tinha competência. Sonhava com um império jornalístico mas desprezava jornalistas e jornalismo. Salvo um pequeno grupo que vivia à sua volta, dizendo amém às besteiras. Tinha uma especial acuidade para contratar larápios: a empresa foi literalmente assaltada ao longo dos últimos 15 anos por corriolas das quais faziam parte jornalistas. Tarefa facilitada porque, para enganar os acionistas minoritários, criou um esquema paralelo do qual todos se serviam. Quando foi vendida a Hamilton Lucas de Oliveira, a TV Manchete já estava falida. O herdeiro de Adolpho Bloch simplesmente copiou os seus comportamentos, inconseqüência e manias. Agora a empresa quebrou.
Silvio Santos é um animador de programas de auditório. Seu nível de competência fica nisto, não tem vôo para coisas maiores. Seus outros negócios prosperaram porque foram entregues a bons administradores. Não basta para gerir um grupo de comunicação. Prova é o interminável troca-troca no alto comando da Rede e as sucessivas mudanças de estratégia. Outro que jamais gostou de jornalismo e jornalistas. Segundo a mesma matéria da Folha também está à venda.
# A diversificação está dando certo? Veja o que aconteceu na RBS e no Estadão
Este OBSERVATÓRIO vem advertindo há mais de um ano que, ao ingressar nos ramos da telefonia e das telecomunicações, algumas das grandes empresas jornalísticas brasileiras entraram em perigosos desvios. Abandonaram aquilo que no jargão chama-se core business, atividade central, substância: a produção de notícias. Enfiaram-se num negócio altamente dispendioso e que não dominam. Pior: confronta e afronta suas obrigações como serviço público.
Folha teve o bom senso de escapar da miragem depois que perdeu a primeira concorrência. O Estadão e a RBS ficaram e, para fazer face aos investimentos, tiveram que fazer cortes nos quadros do core business. As Organizações Roberto Marinho têm cacife financeiro para entrar nas areias movediças da diversificação. Mas fizeram cortes de pessoal.
(Ver remissão para textos anteriores sobre o assunto.)
# EMPRESAS DESCAPITALIZADAS? POR QUE NÃO INSISTIRAM NA REVISÃO DO ARTIGO 222? Veja como as empresas jornalísticas burlaram a Carta MagnaEste "Observatório" defende, desde a sua fundação, a revisão do artigo 222 da Constituição. Nestas poucas linhas está a causa dos problemas que afligem as empresas jornalísticas brasileiras. Ao limitar praticamente a pessoas físicas a propriedade dos veículos jornalísticos e impedir o acesso ostensivo de capitais estrangeiros, os constituintes criaram condições para o atual processo de descapitalização e para a presente crise.
Estimulado por nossas matérias, o deputado Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) estudou a questão, ouviu as partes e fez uma proposta razoável de revisão do infeliz artigo. Os grandes grupos jornalísticos foram teoricamente a favor da emenda do deputado Aloysio mas nada fizeram para apressar a tramitação da emenda. Preferiram ultrapassar o espírito da lei com jogadas que atendem apenas ao texto da lei.
Capitais estrangeiros estão abertamente associados a empresas brasileiras, conforme este OBSERVATÓRIO vem alertando. Pessoas jurídicas são acionistas de empresas jornalísticas por via indireta.
É um vale-tudo numa área que envolve precisamente aqueles que deveriam zelar para que não imperasse o vale-tudo.
O deputado Aloysio Nunes Ferreira foi reeleito.
(Ver abaixo relação de textos.)
# EXECUTIVOS ESTÃO SENDO COMPETENTES ? Veja o que está acontecendo em O Globo e no EstadãoComo informamos na edição anterior, O Globo aposta na alta rotatividade de pessoal: baixou o limite de idade. Triplo contra-senso: a) para um país que envelhece, vai oferecer um jornalismo menos qualificado; b) investiu em quadros profissionais que agora desperdiça e recomeça tudo de novo com quadros jovens; c) esqueceu que profissionais mais experientes são os mais baratos: estão com suas vidas razoavelmente arrumadas e querem manter-se no mercado de trabalho. Em troca, oferecem produtividade. (Ver abaixo texto de Fritz Utzeri.)
Estado de S. Paulo inovou em matéria de administração de redações: adotou a dialética do duplo comando. Funciona formalmente o regime de conflitos e contradições. Com os indefectíveis grupos e conseqüente imobilidade. No recente episódio das demissões na redação, a administração teve que contentar os dois grupos, em partes iguais.
# O governo deve ajudaR as empresas endividadas ? Veja o que aconteceu com o INSS e o FGTS. E por que a Abril não entrou naGazeta Mercantil
Nos anos 70 a Folha era uma das maiores devedoras da Previdência. Negociou e pagou tudo, seus funcionários não tiveram prejuízo e sempre gozaram dos benefícios a que tinham direito. Não é o que acontece noJornal do Brasil e na Manchete: os profissionais são descontados mas as empresas não repassam as contribuições nem comparecem com a sua quota.
Além da apropriação indébita - o que configura infração prevista no Código Penal - os trabalhadores são prejudicados nos benefícios a que têm direito.
A Rede Record rompeu com o governo federal e a Igreja Universal passou à oposição porque os fiscais da Receita Federal descobriram irregularidades nas suas contas.
A parceria entre a Gazeta Mercantil e a Editora Abril foi desfeita porque os auditores desta descobriram dívidas com o fisco não mencionadas nas primeiras negociações. Nosso mais importante jornal de economia e finanças é dos mais veementes na cobrança do ajuste fiscal.
Ironias da vida: jornais que defenderam as privatizações estão agora sofrendo, porque os novos donos das empresas (de energia elétrica, por exemplo) querem receber as contas, que costumavam ficar penduradas. Além disso, grandes empresas que "salvavam" situações críticas com generosos anúncios (a Vale do Rio Doce é o exemplo clássico) são agora movidas por uma lógica diferente.
Perguntas finais:# Deve o governo anistiar as empresas jornalísticas?
# E por que não todas as empresas?
# Como é que ficam o orçamento, a dívida interna, os juros, o câmbio, o PIB?
Nota: por falta de informações fidedignas não foram mencionadas a Rede Bandeirantes, os Diários Associados, a CNT, a Fundação Gazeta, a Editora Três e as empresas jornalísticas regionais. Qualquer colaboração será bem-vinda.Dr. Roberto não foi aposentado aos 55Fritz Utzeri
Na redação do Globo no Rio foram demitidos 16 jornalistas. Como um dos "passaralhados", concordo em gênero, número e grau com as observações de Alberto Dines no Observatório na TV (13 de outubro de 98).
O pior é que a expulsória dos caquéticos cinqüentões nega a própria história das organizações Globo. O que seria do grupo, hoje hegemônico, se o seu patriarca e "nosso companheiro" tivesse se aposentado aos 55 anos? Foi justamente entre os 60 e os 90 anos de idade que o Dr. Roberto construiu o maior império de comunicações do Brasil. É dose...

O salário do talentoNahum Sirotsky, de Jerusalém (*)

Apesar de me encontrar em Israel, numa temporada de duração imprevisível, não deixo de acompanhar tanto quanto é possível o que vai por aí, no Brasil. Com o milagre da Net, leio os jornais e revistas, escuto rádio. E acompanho o que se diz sobre o Brasil na mídia internacional. Os versos do poeta, lidos quando garoto, não me saem da cabeça: "Minha terra tem palmeiras etc." O que, para mim, que já rodei mundo, continua mais verdade do que nunca.
Minha leitura inclui o OBSERVATÓRIO, o qual recebe, às vezes, observações minhas. A crítica da imprensa por ela própria é, hoje, generalizada. O motivo que se apresenta é o de sempre: defesa da qualidade, do leitor etc. Na verdade, reflete a preocupação de acionistas e proprietários com a velocidade de entrada no mercado de novos meios de comunicação e do que implicam em concorrência aos meios que poderíamos chamar de tradicionais. (Estima-se que o comércio promovido via Net deve chegar a dois trilhões no milênio?! Quando deixei o país, há dois anos e meio, os cibernautas somavam em poucos milhares, todos devidamente autorizados pela RPN, com permissão da Net americana!).
Os veículos querem descobrir como preservar a clientela, que é o que "vendem" às agências de publicidade. Eles também criaram uma dependência das pesquisas. No entanto, existem as respostas que são públicas e notórias que, suspeito, nem sempre são vistas pelos que respondem pela indústria e o comércio do jornalismo. Através dos séculos, e de todas as transformações provocadas pelos avanços tecnológicos, sobreviveram e prosperaram os veículos que souberam (a) escolher seu público; (b) servi-lo adequadamente em termos de qualidade e informações compatíveis. Com ele e seu potencial econômico.
Lembro alguns exemplos recentes: o Wall Street Journal não baixou sua linguagem nem sua qualidade com a concorrência da televisão etc. E cresceu mais do que nunca no contexto da concorrência da nova mídia. OWashington Post, de jornal provinciano transformou-se num dos melhores e mais ricos diários do mundo. Aparentemente, o N. Y. Times, que se deixou influir pela equação da massificação, não é mais o mesmo. O Financial Times entendeu a questão, e melhora a cada dia. OEconomist não necessita de promoções de baixo nível para aumentar seu prestígio e conceito. El País, da Espanha, é uma prova provada de que erram os que dizem que não se quer mais ler. É mesmo inigualável na sua cada vez mais elevada qualidade de texto e substância. O sucesso da CNN se explica pela qualidade de sua gente e, conseqüentemente, de como expõe informações e de como são analisadas. Mas a BBC mantém seu conceito e prestígio por nunca fazer concessões em questões de qualidade e respeito aos seus ouvintes e telespectadores.
Todas essas observações são para cumprimentar Alberto Dines pela tese central de seu artigo sobre a crise na mídia; ele disse, bem claro e explícito, que as circunstâncias da economia nacional e internacional não a explicam. São influências do momento. É imaginar que o leitor, ou espectador, não tem senso crítico, e que não sabe diferenciar, por exemplo - para falar de quem se foi e nunca foi igualado - um cronista como o Rubem e os que foram improvisados nos últimos anos, de um Ibrahim, com seus pobres imitadores, de um Paulo Francis, cuja coluna tantos criticavam, mas que nem sequer se consegue imitar.
A variedade de mídias - entre imprensa e eletrônicas - é a "janela da oportunidade", na linguagem moderna, para através dela permanecerem os que compreenderam o que acontece e o seu papel. A revista Coliersmorreu por excesso de circulação! O Economist é prospero com umas centenas de milhares de leitores. Hoje, mais do que nunca - e, no caso da mídia, devido à curta vida da notícia -, o veículo tem de ter a mais alta qualidade possível compatível com o consumidor que escolhe. A mídia impressa tem de ser a mídia da exposição de significados que, por definição, exigem reflexão. É a mídia que exige um corpo de colaboradores experientes e, no mínimo, com conhecimentos gerais, de preferência, porém com base cultural tão sólida quanto possível. Uma foto vale mil palavras, se diz. Mas, o que diz o mais dramático flagrante da bolsa de Wall Street além da angústia dos corretores?
A jogada do estagiário já é antiga. Não se pode culpá-los por não saberem o que foi o linotipo. Mas o leitor não pode pagar com a ignorância do que acontece no mundo o fato de que não se pode exigir desse jovem o conhecimento e a cultura que vêm com o tempo, o estudo, a leitura e a experiência.
Dines botou o dedo na ferida. Minha vida tem sido toda ela no jornalismo. Espero que o artigo consiga acordar os que dormem na inocência de que economizando no salário do talento se pode fazer de veículos um bom negócio. Anorexia de falta de qualidade mata.
(*) Correspondente de Zero Hora e Rádio Gaúcha e também Observador.

Pobreza, religião e cidadania: a tradição do candomblé e a luta pela cidadania na Baixada Fluminense


 Magali da Silva Almeida
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Faculdade de Serviço Social – UERJ


Problemática e delimitação

A problemática deste estudo prende-se à construção de ações assistenciais e sócio-educativas na Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuaro. Esta comunidade é dirigida por Beatriz Moreira da Costa, conhecida como Mãe Beata de Yemanjá, yalorixá dirigente do culto e responsável pelos projetos sociais. O terreiro situa-se à rua Francisco Antonio Nascimento, 42, Miguel Couto, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, Brasil.
 O estudo está delimitado ao período do surgimento da Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuaro em 1985 a 1998. O terreiro segue a tradição do Alaketu, com sede em Salvador – Bahia.
 Para consecução da pesquisa apresentamos os seguintes objetivos:
 – Conhecer as tradições, ritos e crenças do candomblé de ketu.
– Conhecer as representações sociais sobre pobreza e seus sujeitos sob a perspectiva religiosa do candomblé.
– Identificar e analisar os principais temas presentes no discurso Mãe Beata de Yemanjá motivadores das ações assistenciais e sócio-educativas realizadas no Terreiro Ilê OmiOjuaro.
 Genericamente, os projetos sociais realizados nos terreiros têm em comum trabalhar a questão da identidade, viabilizando ações políticas pelo viés cultural e obedecem à dinâmica de relações sociais estabelecidas internamente nos terreiros e destes com a sociedade mais ampla.
 A finalidade do candomblé é o culto religioso. No entanto, outras atividades, circunscritas ao mundo profano, ocorrem no espaço interno dos terreiros, o que indica a influência dessa perspectiva religiosa em outros aspectos da vivência do “povo-de-santo” nos terreiros e destes na sociedade abrangente.
 A investigação foi orientada segundo as seguintes hipóteses:
1ª)  A realização de projetos sociais na Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuaro responde à ausência de projetos governamentais na área social em atenção às necessidades da população pobre.
2ª) Os projetos realizados na Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuaro são construções da cidadania popular e afirmam a memória e identidade negro-brasileiras.
 A produção cultural negra opera, segundo uma dinâmica diferente da lógica sócio-cultural burguesa. Ela se afigura enquanto um projeto social com base em valores e princípios éticos distintivos da cultura erudita.
 Na visão do mundo do candomblé, o sagrado e o profano se integram. No universo integram os homens, orixás, voduns , inquices, ancestrais, terra, água, ar, fogo, plantas, bichos, constituem parceiros da vida, todos comprometidos com o ciclo vital. Portanto o candomblé reflete uma visão integradora, fundada na preocupação básica do ser que procura a harmonia, o ajuste do ser humano com o universo visível e invisível.
 A presente comunicação tem em vista analisar os principais temas do discurso de Mãe Beata de Yemanjá procurando identificar sua concepção acerca da pobreza e seus sujeitos, em cujas representações se ancoram as práticas sociais para sua superação.

Procedimentos metodológicos

Para esta pesquisa, utilizamos as seguintes fontes documentais:

a) arquivo pessoal de Mãe Beata de Yemanjá (discursos proferidos em palestras e seminários, documentação referente às atividades desenvolvidas no terreiro);
b) ABC (arquivo da Biblioteca Nacional), seção de microfilmagem para levantamento de fontes coletivas, dentre as quais a imprensa negra do RJ;
c) oral: entrevistas com Mãe Beata, realizadas em sua residência entre junho de 1997 à julho de 1998. O material gravado foi transcrito e submetido a posterior análise.
 Todas as entrevistas foram realizadas pela própria pesquisadora, entre julho de 1997 e julho de 1998.
 As opiniões, crenças, informações e atitudes, contidas no discurso de Mãe Beata, foram submetidas a análise de conteúdo. Essa técnica de análise, permite identificar a freqüência de determinados temas na narrativa do entrevistado. A importância a eles atribuídos pelo depoente permite depreender os elementos constitutivos da representação.
 Além da fonte oral, utilizamos fotografias como forma de apoio e como meio de captação e reforço da memória.


O pobre na cidade: imaginários em confronto

Vivemos hoje um período de profundas transformações provocadas pelo processo de globalização. Com a modernização contemporânea, todos os lugares se mundializam. A cidade, dada a sua natureza, é o espaço onde vetores de diferentes ordens se manifestam buscando finalidades diversas, que se entrelaçam, se opõe, se reconstroem cotidianamente.
 Palco da atividade de todos os capitais e de todos os trabalhos, ela pode atrair e acolher as multidões de pobres expulsos do campo e das cidades de pequeno porte pela modernização da agricultura e dos serviços. E a presença dos pobres aumenta e enriquece a diversidade sócio-cultural, que tanto se manifesta pela produção da materialidade, quanto pelas formas de trabalho e de vida.
 A presença do pobre na cidade, introduz no cenário urbano uma nova forma de ser/viver que por se diferenciar do padrão hegemônico normativo, tem condições de expansão e criação do novo, ainda que sob as malhas do poder disciplinar.
 O disciplinamento e o controle exercido pelas instituições não são competentes para impedir a expansão e presença dos pobres na cidade.  Os asilos para idosos, as casas lares para crianças e famílias de rua, os manicômios e prisões, espaços específicos para o trabalhador informal – camelódromos –, correspondem a territórios de exclusão provocada pela exploração econômica, opressão e estigma social.
 O imaginário urbano, moderno, tecnológico, não comporta a convivência com pobreza. Os grupos excluídos para sobreviverem, e assim atenderem as suas necessidades, criam um conjunto de equipamentos sociais e tecnológicos, que por desafiarem ao padrão instituído continuamente, se sofisticam e escapam do totalitarismo da racionalidade.
 A cidade moderna “luminosa” tecnificada é rotineira; um sistema de gestos sem surpresas. Nela a dinâmica histórica cria, no organismo urbano, áreas criadas ao sabor da modernidade que se justapõe, contrapõe ao resto da cidade onde vivem os pobres, as zonas “opacas”. Estas são espaços aproximativos da criatividade, opostos às zonas luminosas espaços da regra e da exatidão.
 Os setores excluídos da população, se diferenciarão dos setores dominantes à medida que a resistência daqueles produz expressão uma clivagem sócio-cultural, ou seja, esses grupos constroem mais identidades referenciadas em uma herança cultural suportes da memória coletiva, originária, através da qual abre-se a possibilidade de busca do novo.

Para Milton Santos, os pobres, “por serem “diferentes” [...] abrem um debate novo, inédito, às vezes silencioso, às vezes ruidoso, com as populações e as coisas já presentes. É assim que eles reavaliam a tecnoesfera e a psicoesfera, encontrando novos usos e finalidades para objetos e técnicas e também novas articulações práticas e novas normas, na vida social e afetiva. [...]
Trata-se, para eles, da busca do futuro sonhado como carência a satisfazer  carência de todos os tipos de consumo, consumo material e material, também carência de consumo político, carência de participação e cidadania. Esse futuro é imaginado ou entrevisto na abundância do outro e entrevisto, como contrapartida, nas possibilidades apresentadas pelo mundo e percebidas no lugar.”

Nesse sentido, é na dinâmica das relações sociais que os grupos sociais, movidos por interesses antagônicos, constroem suas identidades e memória.
 A memória dos grupos socialmente excluídos em nossa sociedade tem sido, pela classe dominante, alvo de ações violentas, profundamente destruidora de seus suportes materiais. Em respostas a essas ações, as camadas pobres da população, motivadas por fatores de ordem étnica/racial, religiosos, políticos dentre outros, construirão suas memórias, em cujas tradições forjarão suas identidades.
 O racismo, o sexismo e a exploração econômica, não foram “assimilados” pelo conjunto da sociedade brasileira, com a aquiescência de homens e mulheres negras. Ao contrário, africanos e seus descendentes têm subvertido às formas de dominação impostas apesar da imposição de um padrão cultural supostamente universal.
 Frente ao empobrecimento da população negra e o massacre de sua cultura, homens e mulheres, de forma organizada formularam novas formas de vivência, cuja experiência se ancora em padrões materiais e espirituais herdados na tradição africana.
 Nesse contexto, situamos o candomblé, entendido neste trabalho, como prática social de resistência religiosa que no bojo das transformações provocadas, historicamente pela luta de classe; desponta como projeto sócio-político-religioso alternativo ao padrão cultura instituído no Brasil.

Brancos e negros – a cidadania hierarquizada

 A prática discriminatória e o preconceito racial aparecem historicamente como resposta da adoção do sistema do trabalho escravo. Terminado o escravagismo, as sociedades escravocratas passam a se defrontar com a questão de inserção do negro em seus quadros sociais. O sistema escravista propiciou a criação de uma estrutura de privilégios a favor da população branca. Admitir o negro como cidadão significaria perda de benefícios acumulados ao longo da adoção do trabalho escravo.
 Preconceito e discriminação ganham então novos significados e espaços de atuação, voltado para essa defesa de privilégios.
 A trajetória do Brasil e da maioria dos brasileiros espelha fortemente a história de um povo colonizado por descobridores, mercadores, senhores da terra, senhores do capital, senhores do aparato de Estado, senhores da comiseração, pelos donos do poder.
 Roberto da Matta, do mesmo modo, diz que a lógica de nossa sociedade, formada de panelinhas, de cabides e de busca de projeção social encontra-se na desigualdade e na hierarquia como mito da democracia racial, conseqüência da ideologia do branqueamento, ganha forma e corpo a grande violência racista brasileira. A sociedade brasileira pretende que o negro se torne branco. Ela destrói a identidade do sujeito negro e o socializa segundo seus padrões estéticos e culturais.
 No Brasil conforme revela Neusa de S. Souza, ser negro não organiza por si só uma identidade possível de ser afirmada ou negada. Juntam-se às práticas discriminatórias os efeitos advindos da interiorização, pela maioria da população negra, de uma auto imagem desfavorável. Os atos discriminatórios e a violência simbólica passam a regular as aspirações do negro em consonância com que o grupo étnico impõe e define os “lugares apropriados para os negros”.

A pobreza desconstruída

 Beatriz Moreira Costa, 67 anos, conhecida como Mãe Beata de Yemanjá, reúne qualidades inigualáveis. Mulher guerreira, em 1968, migra para o Rio de Janeiro, como muitas mulheres pobres, para “tentar uma vida melhor”.  Superando desafios, hoje, essa mulher com apenas a 3ª série primária constrói a sua história, publicamente, afirmando a contribuição da mulher negra tão silenciada na memória nacional.
 Suas narrativas, acompanhadas de muita emoção e gestos, traduzem a vivência da história coletiva de uma cultura profundamente violentada pelas práticas racistas, sexistas e de exploração do trabalho.
Aposentada da TV Globo, hoje Mãe Beata além do sacerdócio, desenvolve atividades assistenciais e sócio-educativas em sua comunidade de terreiro, o Ilê Omiojuaro. É escritora, publicou o livro Caroço de Dendê, sobre história de terreiro, contribuindo para valorização da tradição oral. Reconhecida nacional e internacionalmente, pela sua importância no meio do candomblé, assim como pelas atividades que vem desenvolvendo em parceria com outras instituições sociais, optamos por conhecer também a sua visão de pobreza.
 Quando indagada sobre pobreza, ela diz:

Essa questão da pobreza vem em toda minha vivência, desde a minha formação com o “gente” aqui no universo. Eu tenho mania de dizer que eu nasci da fome, porque a minha mãe estava grávida e deu vontade de comer peixe e não tinha o que comer em casa e foi pescar no rio, e lá, a bolsa se partiu, tingiu a água do rio toda de sangue e ela saiu do rio e aí eu nasci. Então, eu conheço a fome é desde aí. É por isso, o meu grande interesse em trabalhar a questão das necessidades dos meus semelhantes, em cima, pensando, principalmente no meu povo, do povo negro, do povo africano, de tudo o que eles passaram aqui na sua vinda de África para o Brasil, e a religião tem uma grande parcela dentro disso, porque o comer e o beber,  na  religião afro, é muito importante. É uma comunhão com os deuses, com a natureza, com tudo isso. É muito importante.

Nota-se, que em suas idéias o fator motivador da identidade com os “seus semelhantes” passa pelo reconhecimento histórico de sua cultura, da memória fragmentada pela dominação e exploração do trabalho escravo no Brasil. 
 Do mesmo modo, percebe-se que a pobreza enquanto destituição das condições de vida é negada, e denunciada na prática do candomblé. Se no mundo “profano” se é impedido de comer, o ritual religioso afirma essa necessidade.

Diz Mãe Beata:

“Quando nós fazemos esse sacrifício, nós não fazemos como se faz no açougue, que mate o boi a espetada para depois abrir em filé mingnon, isso e aquilo para vender, nós não matamos o frango por matar, ficar “empendurando”, sangrando no espeto, nos fazemos o sacrifício, é uma troca através de cânticos, orações, lamentos. Em cima daquela troca está toda uma vivência, então, esta troca são trabalhos de revitalização.”

Em seu discurso há também uma forte presença da solidariedade comunitária na busca de soluções para os problemas da população. Em sua concepção, o processo de auto-ajuda é fundamental já que o Estado não responde adequadamente às demandas das populações.
 Esta representação propiciou a criação do IDEC (Instituto de Desenvolvimento Cultura), através da qual Mãe Beata vem desenvolvendo seus trabalhos na área social. Nota-se que, nestas atividades, a questão da história do negro, e de sua cultura, integra o universo de suas preocupações, assim como a história de Nova Iguaçu, dentre outros.
 Articulando-se a outros grupos religiosos, juntamente com outros babalorixás e yalorixás procuraram realizar encontro nas respectivas comunidades para discutir as necessidades do bairro.
 Esse trabalho lhe garantiu notoriedade conduzindo-lhe à articulações político institucionais mais amplas, dentre as quais inclui-se a REDEH (Rede de Desenvolvimento Humano); Grupo de Mulheres Negras do Rio de Janeiro; Organizações Não-Governamentais ligadas a prevenção de DST/AIDS no Rio de Janeiro, assim como sua participação efetiva no movimento da Saúde no Município de Nova Iguaçu e também do ponto de vista político partidário na década de 80 e 90.
 A questão político partidária e o exercício da cidadania são pontos tocados por Mãe Beata quando se tratou dos Direitos Sociais. Vejamos o que pensa sobre os políticos:

“Eu, há vários anos, fazia aqui um trabalho social por minhas custas e com as pessoas da comunidade, com as mulheres da comunidade, com os próprios filhos-do-terreiro. (...) Todas essas pessoas procuravam me dar ajuda, não só o meu esforço, porque eu sou capaz de não esperar, se eu tiver de pedir, eu vou pedir, se eu tiver de pedir a Deus eu não vou pedir a Santo Antônio, eu vou direto a Deus. Eu bato nas casas de negócio, nos vizinhos, na vizinhança, eu peço para ajudar àqueles que têm mais, ajudar àqueles que têm menos. Aí, eu comecei fazendo esse trabalho, procurei pessoas que passaram a trabalhar junto comigo.
Eu não gosto muito de pedir ao político, porque eu não gosto de dever a minha cabeça a ninguém, porque se errar comigo, eu reclamo na “cara”. Eu tenho essa casa de candomblé construíds as minhas custas e dos meus orixás, eu não tenho um político que chegasse aqui e me desse um cano, uma telha, então ele não pode chegar e dizer que amanhã vai fazer um na minha porta. Se vier, eu vou dizer não quero, não pode botar faixa, pode ser até do PT (Mãe Beata é filiada ao Partido dos Trabalhadores) mas se eu não quiser que eu não devo nada a ele.”

Em seu discurso, enfatizas a necessidade de uma postura de relativa autonomia política:

“(...) Não devo a minha cabeça, não tenho um filho empregado porque político arrumou emprego, eu não viajo porque político arrumou, eu viajo por reconhecimento do trabalho cultural que eu faço. Agora mesmo, viajei para a Califórnia pela URI, o Fórum Global das Religiões do Mundo, fui para Califórnia, São Francisco, Nova York, Memphis, já há reconhecimento do meu trabalho.”

A noção de cidadania, exige, segundo Mãe Beata, um despertar da consciência de negritude e de gênero. Essa consciência que orientará as atitudes críticas diante da discriminação e dominação de gênero e raça.
 A luta pelos direitos de cidadania é diária, cotidiana. Não termina nas instituições formais, como por exemplo, o voto. Ser cidadã é lutar pelo direito de ser reconhecido, segundo a identidade construída na história, com seus pares. É a consciência de ser mulher, trabalhadora e negra.
 Sobre o preconceito, tem a seguinte opinião:

“Nós é que somos os culpados de existir esse preconceito porque se eu chegar no palácio eu não vou querer entrar pela porta da cozinha porque eu moro na Baixada Fluminense. Eu vou querer entrar pela frente, não é porque moro na Baixada que eu vou chegar em Copacabana para visitar uma amiga e vou entrar pela porta dos fundos, sou negra, eu vou me identificar e entrar pelo elevador.
(...) Você por si não constrói o seu direito dentro de você, você não bota na cabeça que você tem esse direito, está na Constituição, não mostramos as pessoas que nós conhecemos esse direito, às vezes até porque as pessoas têm vergonha  não, vai me dar trabalho  me chamou de neguinha, se respeite meu nome é Dona Beatriz, briguei muito na TV Globo Baiana,  meu nome é Beatriz Moreira Costa, eu tenho nome e fui batizada, a mesma coisa aqui no Brasil, eu tenho um poema onde eu digo – me chame de jambo/ de sapoti/ me chame do que quiser/ mas eu sou negra/ sou mulher e estou aqui. Olha que coisa linda, que sonzinho gostoso  Sou negra! Mulher negra! é o mesmo que uma mulher ser mãe solteira e ter vergonha de dizer que é mãe solteira, mulher que tem direito de conceber, de ter um filho, de parir um filho, vai ter vergonha? Ela deve ter é dignidade, vou criar meu filho, vou ensinar para ele ser um cidadão, mas um cidadão brasileiro.”

As atividades assistenciais e sócio-educativas, desenvolvidas no terreiro, passam a ganhar forma, a partir de 1994, quando Mãe Beata integra-se ao ISER, como conselheira no Fundo Interreligioso. Por conta dessa parceria Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuaro / ISER pode viabilizar o Projeto Ação Viver. Este projeto foi interrompido 8 meses depois por falta de verbas. Basicamente, suas atividades eram voltadas para uma clientela infanto-juvenil e mulheres.
 O projeto Ação Viver, constituía-se de oficinas de corte e costura, cabeleireiro, manicure/pedicure, pintura em tecido, eletricidade industrial, além de oficinas culturais, capoeira e samba de roda.

“Fui convidada para ver a campanha do Betinho, questão da cidadania, da fome, aí eu fui convidada para fazer parte do grupo do ISER. Nós tínhamos discussões todas as semanas, aí o Betinho me conheceu e o grupo todo me conheceu. Sabendo do meu trabalho, fizeram primeiro uma pesquisa sobre mim, e me convidaram para ser uma das conselheiras. Acho que eram 14 ou 15 conselheiros e eu como mulher fui reconhecida como quem tinha um trabalho de base, porque todas as pessoas que trabalhavam, que fosse conselheira, e tivesse um trabalho e quisesse melhorar este trabalho, podia fazer um projeto que teria ajuda de custo. Aí eu fiz um projeto “Ação e Viver” e nesse projeto eu recebi quatro mil dólares e eu mantive aqui em 8 meses, porque depois que o dinheiro acabou, porque era somente para 6 meses, e eu ainda continuei mais 3 ou 4 meses levando o pessoal, era curso de manicure, cabeleireira, costureira, pintura em tecido, as crianças vinham para aqui, passavam o dia, tinham lanche, curso de capoeira, alfabetização, eletricidade industrial.”

Atualmente, a Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuaro, desenvolve o projeto “Rumo ao Terceiro Milênio”, financiado pela Comunidade Solidária.

“(...) agora eu fiz um projeto para o Comunidade Solidária que é “Rumo ao Terceiro Milênio”, graças a Deus ganhei e vamos abrir um curso de informática para adolescentes, que é criança de 15 a 18 anos, que tenha da 5ª a 8ª série, são 6 meses e a criança vai ter aula de História, Geografia, Português, Matemática e Informática. Para adolescentes da comunidade, para que essas pessoas tenham a sua auto-estima. Veja que a Baixada Fluminense não é só de marginalização, que tem pessoas que querem fazer e às vezes não acham ajuda.”

Conclusão

Por razões históricas as Comunidades de Terreiro de Candomblé concentram-se em regiões urbanas periféricas, nas quais a maioria da população vizinha não dispõe de uma estrutura coletiva básica (hospitais, lazer, escolas, transporte coletivo regular), dentre outros direitos sociais. Esses terreiros, originários no período colonial, são produtos da organização negra e se constituem espaços destinados ao culto religioso.
 Espaço de uma cultura desterritorializada, os terreiros de candomblé se constituem referenciais identitários dos negros (e de outros grupos étnicos), no qual o encontro com o sagrado se constitui uma fonte renovadora de energias propulsora à afirmação das raízes étnicas, culturais e de sua humanidade, não reconhecida no sistema escravista e destituída no regime livre de trabalho.
 Acreditamos que na religião está presente, necessariamente, o esforço de um povo em equacionar uma visão de mundo, sua concepção metafísica, enfim, a maneira de compreender a existência humana, na sua singularidade e universalidade. Na diáspora, a prática religiosa será para o negro uma das formas de resistência e sua descaracterização, enquanto ser humano, e seu despojamento de tudo quanto lhe é caro.
 Acreditamos que a hipótese da realização dos projetos sociais na Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuaro responde à ausência de projeto governamental é confirmada. O discurso de Mãe Beata, remete a uma noção de trabalho comunitário bastante voltada para experiências de auto-ajuda e mutirões. O engajamento de Mãe Beata no movimento de mulheres, contra as epidemias de HIV, dengue, dentre outras, manifesta sua compreensão da importância da pressão e controle social sob o aparato estatal na luta pelos direitos sociais.

Quanto à segunda hipótese, os projetos realizados na Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuaro são construções da cidadania popular e afirmam a memória negro-brasileira também é confirmada  na medida que quase todas as atividades valorizam o encontro com a tradição africana.

Quando narrava sobre suas atividades culturais junto aos jovens da comunidade, Mãe Beata, elencou a capoeira, o Encontro das Florestas, atividade de contar histórias, dentre outras.
Daremos destaque as duas últimas por se tratar de experiências que valorizam a tradição oral.
 O Encontro da Floresta: IPADÉ NIGBE, realizado em 1990, ao valorizar o verde, comunga com a ideologia do candomblé, pois, sem o verde, sem as plantas e sem a natureza, a religião africana não tem sentido: “a religião dos orixás é muito  ecológica”,  diz Mãe Beata.
 Para Mãe Beata, a preservação da tradição oral significa fazer história e manter viva a memória da cultura e heranças ancestrais.
 Por fim, acreditamos que as representações de Mãe Beata sobre a pobreza se revelam como propostas históricas de desconstrução da imagem do pobre como ignorante, detentor de uma cultura desqualificada e, portanto, se ancoram num universo simbólico de construção da identidade de um “ser negro” a partir do olhar e da vivência coletiva.

Bibliografia:

BRAGA, JULIO.  “Aspectos da organização sócio-econômica do culto de Baba. Egum o dinheiro no chão e o sentido da hierarquia.”  In: SANTOS, J. E. DOS. (org.). Nossos ancestrais e o terreiro. Salvador: EGBA, 1997.
CHAUI, MARILENA. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989.
CHIAVENATTO, JULIO JOSÉ.  O negro no Brasil da senzala à Guerra do Paraguai. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
FRANCISCO, DALMIR.  “União na diversidade.” In: SANTOS, J. E. DOS (org.). Novos ancestrais e o terreiro. Salvador: EGBA, 1997.
MATTA, ROBERTO DA. 1980:168, apud  FUNARI, PEDRO PAULO A. “Cidadania e Compadrio: relações de poder e atividade acadêmica em questão.”  In: ARRUDA, GILMAR E DENIPOTI. CLÁUDIO (Orgs.). Cultura e cidadania. Vol. 1. ANPUH-PR, 1996.
MAZZOTTI, ALDA JUDITH ALVES.  “Do trabalho à rua: uma análise das representações sociais produzidas por meninos trabalhadores e meninos de rua.”  In: ANA MARIA QUIROGA FAUSTO (org.). Tecendo Saberes. Rio de Janeiro: Diadorim, 1994.
POLLAK, MICHAEL.  “Memória, esquecimento, silêncio.”  In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, Vol. 2, n. 3, 1989.
ROCHA, AGENOR MIRANDA.  Os candomblés antigos do Rio de Janeiro: a nação ketu: origens, ritos e crenças. Rio de Janeiro: Topbooks, 1994.
SANTOS, MILTON.  A  natureza  do  espaço:  técnica e tempo.  Razão  e emoção. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1997.
SOUZA, NEUZA S.  Tornar-se negro.  Rio de Janeiro: Graal, 1983.
SPOSATI, ALDAÍZA DE OLIVEIRA et al.  Os direitos (dos desassistidos) sociais. São Paulo: Cortez, 1989. Vida urbana e gestão da pobreza. São Paulo: Cortez, 1988, p. 19.
VERGER, PIERRE FATUMBI. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos: dos séculos XVII à XIX. São Paulo: Corrupio, 1987.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

MANIFESTO DE APOIO À INDENIZAÇÃO REPARATÓRIA DE JOÃO CÂNDIDO FELISBERTO

MANIFESTO DE APOIO À INDENIZAÇÃO REPARATÓRIA, “POST MORTEM”,
POR PARTE DO GOVERNO BRASILEIRO
AO MARINHEIRO DE 1ª CLASSE JOÃO CÂNDIDO FELISBERTO,
( O ALMIRANTE NEGRO ) 

Justificativa
Com o propósito de acabar com o castigo corporal que sofriam nos convés dos navios, o marinheiro de 1ª Classe João Cândido Felisberto, articulou e comandou a “Revolta da Chibata”, ocorrida em 22 de novembro de 1910.
Reconhecendo as justas causas deste motim, o Congresso Brasileiro, em 24 de novembro, concede anistia aos amotinados.
Mesmo anistiado, em 13 de dezembro, o marinheiro de Iª Classe João Cândido Felisberto, foi preso, internado no Hospital Nacional dos Alienados e submetido ao Conselho de Guerra da Marinha foi absolvido.
Contudo, mesmo sendo absolvido pelo Conselho de Guerra, em 1912, o Marinheiro de 1ª Classe João Cândido Felisberto foi excluído da Marinha Brasileira.
A partir da sua exclusão da Marinha Brasileira, até sua morte em 6 de dezembro de 1969, no município de São João do Mereti, João Cândido Felisberto passou por terríveis dificuldades.
João Cândido aos 32 anos foi taxado de louco, desmoralizado, perseguido, teve sua vida pessoal e familiar destroçadas, sofrendo em conseqüência disto as mais diversas privações, que o afetou profundamente.
O reconhecimento como Herói Nacional.
Em 2007, (97 anos após o evento), Projeto de Lei do Senador Paulo Paim Nº 241, Inscreve o nome de João Cândido Felisberto, Líder da Revolta da Chibata no Livro dos Heróis da Pátria.
O CONGRESSO NACIONAL decreta:
Art. 1º Será inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, o nome de João Cândido Felisberto líder da Revolta da Chibata.
Em 13 de maio a Câmara Federal e em 23 de julho de 2008 o Senado concedem a 2ª anistia a João Cândido e seus companheiros.
O Texto da 2ª anistia, diz: “a Câmara Federal e o Senado concedem anistia “post-mortem” a João Cândido Felisberto, líder da chamada “Revolta da Chibata” e aos demais participantes do movimento”. Esta 2ª anistia foi publicada no Diário Oficial da União, no dia 24 de julho, Lei nº 11.756.
Em 7 de maio de 2010, o Presidente Lula batiza o Petroleiro produzido em estaleiro nacional com o nome de JOÃO CÂNDIDO.
Diante dos fatos aqui expostos,o Estado Brasileiro reconheceu a violência e arbítrio praticados contra o marinheiro de 1ª Classe João Cândido Felisberto, sem prestar a devida indenização, em razão da perseguição política que trouxe prejuízos consideráveis e notórios a este herói brasileiro.
Assim, nós abaixo assinados, apoiamos e manifestamos total apoio ao movimento que visa a legítima pretensão de indenização reparatória a ser encaminhada, através das vias legais, pela sucessão de João Cândido Felisberto, como forma de reparar os excessos e perseguição política cometidos pelo Estado Brasileiro que violaram direitos fundamentais. 

Os signatários


http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoAssinar.aspx?pi=JCF2010

Conselho quer vetar livro de Monteiro Lobato em escolas



Parecer sugere que obra não seja distribuída sob a alegação de que é racista

Racismo em "Caçadas de Pedrinho" estaria nas referências à Tia Nastácia e a animais como urubu e macaco 

ANGELA PINHO
JOHANNA NUBLAT
DE BRASÍLIA 

Monteiro Lobato (1882-1948), um dos maiores autores de literatura infantil, está na mira do CNE (Conselho Nacional de Educação).
Um parecer do colegiado publicado no "Diário Oficial da União" sugere que o livro "Caçadas de Pedrinho" não seja distribuído a escolas públicas, ou que isso seja feito com um alerta, sob a alegação de que é racista.
Para entrar em vigor, o parecer precisa ser homologado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad. O texto será analisado pelo ministro e pela Secretaria de Educação Básica.
O livro já foi distribuído pelo próprio MEC a colégios de ensino fundamental pelo PNBE (Programa Nacional de Biblioteca na Escola).
Em nota técnica citada pelo CNE, a Secretaria de Alfabetização e Diversidade do MEC diz que a obra só deve ser usada "quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil".
Publicado em 1933, "Caçadas de Pedrinho" relata uma aventura da turma do Sítio do Picapau Amarelo na procura de uma onça-pintada.
Conforme o parecer do CNE, o racismo estaria na abordagem da personagem Tia Nastácia e de animais como o urubu e o macaco.
"Estes fazem menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano", diz a conselheira que redigiu o documento, Nilma Lino Gomes, professora da UFMG.
Entre os trechos que justificariam a conclusão, o texto cita alguns em que Tia Nastácia é chamada de "negra". Outra diz: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão".
Em relação aos animais, um exemplo mencionado é: "Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens".
Por isso, Nilma sugere ao governo duas opções: 1) não selecionar para o PNBE obras que descumpram o preceito de "ausência de preconceitos e estereótipos"; 2) caso a obra seja adotada, tenha nota "sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura".
À Folha Nilma disse que a obra pode afetar a educação das crianças. "Se temos outras que podemos indicar, por que não indicá-las?"
Seu parecer, aprovado por unanimidade pela Câmara de Educação Básica do CNE, foi feito a partir de denúncia da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, ligada à Presidência, que a recebeu de Antonio Gomes da Costa Neto, mestrando da UnB.


[FENDH] TORTURA DE SACERDOTISA DE RELIGIÃO DE MATRIZ AFRICANA NA BAHIA

AGRESSÃO, TORTURA E RACISMO CONTRA A SACERDOTISA BERNADETE SOUZA
DO TEMPLO YLÊ AXÉ ODÉ OMÍ UÁ.
MUNICÍPIO DE ILHÉUS SUL DO ESTADO DA BAHIA

A COORDENAÇÃO NACIONAL DE ENTIDADES NEGRAS – CONEN, DIANTE DO FATO DESCRITO EM NOTA ABAIXO ANEXADA , COM DECEPÇÃO E INDIGNAÇÃO APRESENTA SEU REPUDIO AO INADMISSÍVEL ATO DE AGRESSÃO PERPETRADO POR FORÇA MILITAR DE ILHÉUS CONTRA SACERDOTISA  BERNADETE SOUZA DO TEMPLO YLÊ AXÉ ODÉ OMÍ UÁ.
 É PENOSO CONSTATAR QUE EM UM GOVERNO QUE NÓS CONSTRUIMOS E QUE SE DIZ DA MUDANÇA REELEITO EM ESTADO DE ABSOLUTA MAIORIA POPULACIONAL NEGRA TENHAMOS DE PRESENCIAR VIOLÊNCIA AOS VALORES E AOS DIREITOS HUMANOS DESTA POPULAÇÃO, SÓ COMPARADOS AOS TEMPOS DA DITADURA MILITAR.
 TAL ARREGANHO SÓ PODE ESTAR CONCEBIDO PELOS CRIMINOSOS DEVIDO A CERTEZA DA IMPUNIDADE.
 NÃO DA PARA ADMITIR QUE NESTE MOMENTO ÀS VÉSPERAS DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS, ONDE DISCURSOS AFIRMAM ESTAREM O GOVERNADOR REELEITO E A POSTULANTE À PRESIDÊNCIA DA REPUBLICA COMPROMETIDOS COM O RESGATE DA CIDADANIA , E COM A AFIRMAÇÃO DOS DIREITOS  FUNDAMENTAIS DA PESSOA HUMANA, PRESENCIARMOS VIOLAÇÕES DE TAMANHA BRUTALIDADE POR PARTE DE FORÇAS MILITARES DO ESTADO.
 POR ESTA RAZÃO A CONEN , DENUNCIA ESTE FATO ABSURDO E DESUMANO  EXIGINDO POSICIONAMENTO DO GOVERNADOR JAQUES WAGNER, ACOMPANHADO DE URGENTES E EFETIVAS PROVIDENCIAS, NO SENTIDO DE INTERFERIR NA IMEDIATA PUNIÇÃO DE TODOS ENVOLVIDOS NESTE BRUTAL FATO.
 DESDE JÁ, AFIRMAMOS QUE SERÁ DE RESPONSABILIDADE DO ESTADO AS CONSEQÜÊNCIAS TRÁGICAS QUE POSSAM ADVIR DESTE FATO.
 MAS GRAVE QUE ESTE  NEFASTO EPISÓDIO SERÁ A CONSTATAÇÃO DE UMA POSTURA DE OMISSÃO E SILENCIO DO GOVERNADOR JAQUES WAGNER
NO AGUARDO DE UMA RESPOSTA
ENTIDADES FILIADAS À
 COORDENAÇÃO DE ENTIDADES NEGRAS – CONEN
 FORUM CONEN – BAHIA
 CONTATOS: GRNLEAL@GMAIL.COM  / TEL:99829116
  
OS FATOS
RACISMO – INTOLERÂNCIA RELIGIOSA VIOLÊNCIA CONTRA MULHER – ABUSO DE AUTORIDADE-TORTURA
  
 SÁBADO DIA VINTE E TRÊS DE OUTUBRO DE 2010, POR VOLTA DAS 14: 00 HORA, UM PELOTÃO DA POLÍCIA MILITAR DA BAHIA, INVADIU O ASSENTAMENTO D. HELDER CÂMARA, EM ILHÉUS, LEVANDO A COMUNIDADE DE TRABALHADORES E TRABALHADORAS RURAIS A VIVEREM UM MOMENTO DE TERROR, TORTURA E VIOLÊNCIA RACIAL.
 COORDENADORA DO ASSENTAMENTO E SACERDOTISA (FILHA DE OXOSSI) BERNADETE SOUZA, INCRA – INSTITUTO NACIONAL E COLONIZAÇÃO DE VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS.
 BERNADETE FOSSE ALGEMADA PARA SER CONDUZIDA À DELEGACIA. NESTE MOMENTO O ORIXÁ OXOSSI INCORPOROU A SACERDOTISA QUE ALGEMADA FOI COLOCADA E MANTIDA PELOS PMS JÚLIO GUEDES E SEU COLEGA IDENTIFICADO COMO "JESUS", NUM FORMIGUEIRO ONDE FOI ATACADA POR MILHARES DE FORMIGAS PROVOCANDO GRAVES LESÕES, ENQUANTO OS PMS GRITAVAM QUE AS FORMIGAS ERAM PARA "AFASTAR SATANÁS".
 APONTOU A PISTOLA PARA CABEÇA DA SACERDOTISA. SPRAY DE PIMENTA FOI ATIRADO CONTRA OS TRABALHADORES.
 CRIANÇAS CHORAVAM, IDOSOS PASSAVAM MAL. ENQUANTO BERNADETE (OXOSSI)  ALGEMADA, ERA ARRASTADA PELOS CABELOS POR QUASE 500 METROS E EM SEGUIDA  JOGADA  NA VIATURA, "FORA SATANÁS"! BERNADETE AINDA INCORPORADA COLOCADA ALGEMADA EM UMA CELA ONDE HAVIA HOMENS, POLICIAS RIAM E IRONIZAVAM que tinham chicote para afastar satanás, e que  os Sem Terras fossem se queixar ao Governador e ao Presidente.
A delegacia foi trancada para impedir o acesso de pessoas solidarias a Bernadete, enquanto os policias regozijavam – se relatando aos presentes que lá no assentamento além dos ataques a Oxossi (incorporado em Bernadete) também empurraram Obaluaê manifestado em outro sacerdote atirando o mesmo nas maquinas de bombear água. Os policias militares registraram na delegacia que a manifestação dos orixás na sacerdotisa Bernadete se tratava de insanidade mental.