"Somos todos viajantes de uma jornada cósmica - poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias. " Deepak Chopra

sábado, 28 de novembro de 2009

Leonardo Boff e O Encanto dos Orixás




Leonardo Boff
Teólogo

Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária
e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo,
ela alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda,
religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuina
brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas. Num contexto de desamparo social, com
milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas,
doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima
experiência espiritual.

O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete
Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos. Essa revelação tem como
destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual. Ela quer
reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar
a caridade e o amor fraterno, mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano
na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.

O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas
tradições orientais) e de BANDHA (movimento inecessante da força divina). Sincretiza de forma
criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso pais criando um sistema coerente.
Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres
humanos em suas necessidades. Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos
puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las. Os Orixás, a Mata
Virgem, o Rompe Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas
arquetípicas da Divindade. Elas não multiplicam Deus num falso panteismo mas concretizam, sob os
mais diversos nomes, o único e mesmo Deus. Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas
montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas
realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.

A Umbanda é uma religião profundamente ecológica. Devolve ao ser humano o sentido da reverência face
às energias cósmicas. Renuncia aos sacrifícios de animais para restringir-se somente às flores e à
luz, realidades sutis e espirituais.

Há um diplomata brasileiro, Flávio Perri, que serviu em embaixadas importantes como Paris, Roma,
Genebra e Nova York que se deixou encantar pela religião da Umbanda. Com recursos das ciências
comparadas das religiões e dos vários métodos hermenêuticos elaborou perspicazes reflexões que levam
exatamente este título O Encanto dos Orixás, desvendando-nos a riqueza espiritual da Umbanda.
Permeia seu trabalho com poemas próprios de fina percepção espiritual. Ele se inscreve no gênero dos
poetas-pensadores e místicos como Alvaro Campos (Fernando Pessoa), Murilo Mendes, T. S. Elliot e o
sufi Rumi. Mesmo sob o encanto, seu estilo é contido, sem qualquer exaltação, pois é esse rigor que
a natureza do espiritual exige.

Além disso, ajuda a desmontar preconceitos que cercam a Umbanda, por causa de suas origens nos
pobres da cultura popular, espontaneamente sincréticos. Que eles tenham produzido significativa
espiritualidade e criado uma religião cujos meios de expressão são puros e singelos revela quão
profunda e rica é a cultura desses humilhados e ofendidos, nossos irmãos e irmãs. Como se dizia nos
primórdios do Cristianismo que, em sua origem também era uma religião de escravos e de
marginalizados, "os pobres são nossos mestres, os humildes, nossos doutores".

Talvez algum leitor/a estranhe que um teólogo como eu diga tudo isso que escrevi. Apenas respondo:
um teólogo que não consegue ver Deus para além dos limites de sua religião ou igreja não é um bom
teólogo. É antes um erudito de doutrinas. Perde a ocasião de se encontrar com Deus que se comunica
por outros caminhos e que fala por diferentes mensageiros, seus verdadeiros anjos. Deus desborda de
nossas cabeças e dogmas.


Leonardo Boff é autor de Meditação da Luz. O caminho da simplicidade. Vozes 2009.

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