domingo, 18 de outubro de 2015

Manifesto dos Iniciados e Filhos de Santo de Baba Rivas Ty Ogyion


Todos nós, integrantes da comunidade de Babá Rivas Ty Ogyion (Pai Rivas) assistimos, perplexos, às tentativas de difamação e calúnia de nosso sacerdote e irmãos de santo por redes sociais variadas tais como emails e facebook. Diante do exposto viemos à público afirmar nossa posição contrária ao que vem ocorrendo. Acreditamos que situações como essas enfraquecem e maculam as religiões afro-brasileiras, já tão preconceituadas e estigmatizadas. 
Nosso Babá sempre manteve um posicionamento claro: o trabalho em prol das diversas tradições afro-brasileiras. Em mais de cinquenta anos de atuação sacerdotal foram muitas as realizações efetivas e positivas, as quais caminham em defesa da diversidade religiosa, do reconhecimento e identidade afro-brasileiros assim como o empenho por condições civis democráticas: vários terreiros espalhados pelo país, produção literária relevante no campo teológico afro-brasileiro, bem como a fundação da primeira e única Faculdade de Teologia com ênfase em religiões afro-brasileiras, reconhecida com nota de excelência pelo Ministério da Educação (MEC).
Nesse sentido, basta o mínimo de coerência para que sejam feitos os devidos distanciamentos entre aquele que trabalha e os que ocupam seu tempo em propagar mentiras e distorções.
Assinam esse texto todas as filhas e filhos de nossa comunidade de santo.



Link:
http://sacerdotemedico.blogspot.com.br/2015/10/manifesto-da-comunidade-de-santo-de.html

sábado, 17 de outubro de 2015

Consagração como Mestra de Iniciação de 6º Grau no TUO (2ª Fase da Umbanda Esotérica)


Não há como agradecer as alegrias e emoções vivenciadas na TUO. Somente a eterna gratidão ao meu Babá Pai Rivas Ty Ogyion pelas bençãos misericordiosamente estendidas a mim e ao meu grupo, que foi iniciado. É impossível descrever esta experiência. É a passagem do profano para o Sagrado. Este momento foi um marco na vida de todos nós. E peço aos Ancestrais que nos acobertaram neste dia, que nos ajudem a nos tornarmos dignos desta grande alegria, e que possamos honrar nosso Baba e sua Ancestralidade todos os dias de nossa existência. Asé Babá mi.

domingo, 4 de outubro de 2015

Benzedeiras, Religiões Afro-brasileiras e o caldeirão cultural brasileiro.


Vi, e vivi a realidade das benzedeiras desde menina. Minha bisavó e tias avós benziam.
E apesar disso, minha avó, mãe , tias  e primas diretas não quiseram aprender. Minha bisavó e tias avós morreram sem deixar sucessoras. E hoje, como médica e adepta das religiões afrobrasileiras, sinto-me herdeira delas.
Ao longo dos anos, o trabalho que elas faziam foi desprezado, perseguido pelos padres, pastores, médicos e até vizinhos, que não gostavam de ter ao lado um benzedor, macumbeiro...
Cresci vendo e ouvindo os contos irônicos, que ridicularizavam o árduo trabalho delas. Também conheci alguns benzedores homens, poucos, mas muito procurados.
Por certo, a maioria eram mulheres, e brancas. Negras, quando benziam, eram chamadas de macumbeiras.
Todas rezavam, normalmente, orações católicas. Todas usavam o terço, e tinham uma mesa onde colocavam imagens de santos católicos, acendiam velas, e as ervas. Ainda pequena, eu conseguia reconhecer poucas coisas, arruda e alguns galhinhos estranhos...
Via também copo com água, sal grosso, facas, tesouras, paninhos que elas costuravam com agulha e linha branca, e mandavam enterrar no cupim, lá no pasto. 
Reencontrei esses paninhos, anos depois, com o nome de patuás!
Reencontrei a arruda novamente, no terreiro de Umbanda,  nas mãos dos Pretos Velhos. Eles também usavam o terço e rezavam as mesmas orações. Também usavam o copo com água e as velas.
Diante dessas similaridades, minhas experiências infantis despertaram-se em forma de curiosidade. Como foi que essas duas realidades se cruzaram??? Como foi que minha bisavó e suas companheiras partilharam o mesmo lugar que os Pretos Velhos, sem nunca terem ido ao terreiro? 
Então, eu me lembrei de um quadro de uma senhora linda, pisando as águas do mar, cheia de flores nos seus pés. Esse quadro estava na parede da casa de minha avó, filha da bisa benzedeira Mãe Chica. Como foi que Yemanjá foi parar na casa de minha avó católica? 
Lembrei-me do que dizia meu professor de história: "...para entender qualquer fato, primeiro veja o contexto histórico." E lá fui eu, buscar alguma explicação que acalmasse minha necessidade de justificativas.
A região onde nasci foi região de escravos, pois cultivava café, gado. Além deles, tinha indígenas, na maioria Tupi-Guaranis, sangue que também corre nas minha veias (minha tataravó era indígena), e mais tarde, recebeu colonos italianos para a lavoura.  Seus sobrenomes europeus evidenciavam ser, na maioria cristãos novos, judeus sefaradis. Enfim, uma mistura bem interessante. 
Obviamente, o mediterrâneo recebeu grande influencia do povo árabe (mouros). E é notório que os povos árabes também dominaram alguns povos africanos, que chegaram ao Brasil como escravos, séculos depois. Portanto, a influência religiosa pode ter sido duplamente influenciada. Com a mistura das tradições no Brasil colônia, o catolicismo, o Islamismo, a Magia europeia e a tradição religiosa africana, resultaram em uma mistura muito profícua, um caldo rico e fértil, que formou a religiosidade brasileira. 
Obviamente, que um povo como o nosso, não se enquadraria em rígidos valores. 
A religiosidade do brasileiro transita sem conflitos. Exclusividade é uma palavra usada para aqueles que desejam hegemonia. Mas nós brasileiros, criados expostos desde pequenos a uma multiculturalidade impressionante, desenvolvemos uma capacidade adaptativa que impede a compreensão desta palavra. 
Vejo hoje o esforço de incutir na consciência do brasileiro esses limites. 
Contudo, basta ir a um terreiro, para perceber que não está dando certo. Lá encontraremos pessoas oriundas de todas as religiões, que, embora não se identifiquem como umbandista/candomblecista, vão e vêem sem dificuldade e sem dramas. Entram, recebem bençãos e voltam para seus lares e suas religiões tradicionais. Se forem perguntadas pelo Censo ou algum repórter, dirão em sua maioria, que pertencem à alguma religião monoteísta tradicional. Mas isso quer dizer que são menos ou mais religiosos? Não. Apenas não se sentem na obrigação de frequentar somente aquela religião tradicional, acreditam que não há nada demais em ir de vez em quando no terreiro ou na Roça de Candomblé. 
O que assistimos agora é a chegada de uma onda de intolerância religiosa explícita e estimulada pelos evangélicos, que agora exigem fidelidade ao Senhor, e combate aos hereges/infiéis/pecadores das religiões afro-brasileiras. Todo o esforço é direcionado ao combate incessante às religiões afro-brasileiras... 
O que vemos é a tentativa de retirar do povo brasileiro suas referências africanas. A cultura do povo negro, sua história e suas tradições são demonizadas, colocadas na periferia, na marginalidade. Tudo é relegado ao descrédito e ao demérito. 
Mas como negar que o sangue negro corre nas minhas veias, assim como o sangue europeu, o o sangue judeu, e até mesmo o mouro e o indígena? Sendo brasileira, como afirmar que sou pura em meu DNA, que não tenho a mistura fantástica da miscigenação e do sincretismo? 
Eu sou o resultado de séculos de uma mistura fabulosa de culturas, de credos, de cores e sabores.
Se eu guardo na memória as louvarias da Congada, dos Santos Reis, das Festas populares, guardo também as orações católicas, as ladainhas, os benzimentos. 
Se vejo hoje, o reconhecimento, ainda que tardio, do trabalho das benzedeiras, como vi o reconhecimento das parteiras dos nossos rincões, espero ver ainda nesta vida, o reconhecimento do árduo trabalho dos nossos Pais e Mães de Santo, que em seus terreiros/roças/templos/tendas, aliviam dores físicas, psíquicas e sociais de milhões de pessoas anualmente, mas que ainda sofrem a violência da intolerância religiosa.













Cidades habilitam benzedeiras como agentes de saúde pública
http://www.paulopes.com.br/2012/05/cidades-reconhecem-benzedeiras-como.html#.VhCv8rRViko


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Candomblé e saude

Quando parei para assistir o último vídeo do meu Baba, Pai Rivas, confesso que estava com muitA expectativa.
A Medicina conhece muito pouco a respeito das doenças. Falar então dos processos de adoecimento, embora muito progresso já se tenha alcançado, ainda é mínimo. Sabemos bem que estamos longe de conhecer e muito menos tratar a maioria das doenças atuais. O que fazemos é amenizar, tornar controlável, estabilizar às vezes, a maioria das doenças. Cura, raramente. O fato é que, uma vez instalada, a doença é, quase sempre um processo crônico, que vai comprometer o indivíduo para o resto de seus dias, predispondo-o a quadros mais graves e limitantes, ao longo dos anos.
A Medicina moderna, em seus 300-400 anos de história, arvora-se detentora de toda a sabedoria da civilização. Acredita que somente seu caminho de aquisição de conhecimento é válido e admissível. Desprezando, repudiando e desacreditando medicinas populares e milenares dos povos autóctones.  Mas, é fato que muito pouco ela contribuiu para a melhoria de vida do indivíduo. 
Hoje, assistimos uma enorme indústria crescer em torno da doença e não da saúde. Os processos preventivos não são estimulados. Os processos curativos, caros e ineficientes giram bilhões de dólares ao ano.
Quando ouvi a respeito de um método milenar de predição, que busca o equilíbrio biopsicossocial, gerando harmonia do corpo, da mente e portanto, da sociedade, soou-me como uma brisa fresca diante de todo este colapso que vivemos na sociedade moderna.
Um método que propõe, há milhares de anos, prever o adoecimento e em que caminho ele dar-se-à, permite a prevenção das doenças. E se, mesmo assim, adoecer, propõe métodos curativos mais harmônicos e naturais. E ainda, propõe a auto-cura, por meio da Iniciação. Por meio do Asé, curar e transformar a vida de cada indivíduo.
Quanto poderíamos alcançar se admitíssemos que, apesar de todo o conhecimento gerado nos últimos séculos, nada sabemos quando comparados à medicina das religiões afro-brasileiras?
O que foi apresentado por nosso Baba é uma luz no final do túnel. É a possibilidade de oferecer de fato alívio e cura para as dores de muitos, reajustando destinos, promovendo caminhos abertos e melhores.
É uma honra ser sua filha.

Ibasé Baba mi.




domingo, 16 de agosto de 2015

O Barco e a Abyan



O Barco e a abyan –  o dia que marcou definitivamente minha religiosidade.

Nestes últimos meses, tenho vivido experiências intensas. Ampliar a capacidade de compreensão e aprender é algo desgastante e cansativo, mas muito estimulante.
O aprendizado que levará uma vida inteira começou. O desafio está lançado! O quanto conseguirei absorver, compreender, aprender e praticar causa angústia, mas ao mesmo tempo, excita e desafia.
A Tradição borbulha à minha frente, aguçando meus sentidos e meu intelecto. Chama aos brios o aprendiz.
Eis a hora derradeira, eis o que valerá a pena gastar uma vida inteira. Haja coração, mas antes de mais nada, haja pernas, braços, olhos e ouvidos.
Candomblé é aprendizado no trabalho, na prática, no exercício da religiosidade, da Tradição.
O que aprendi lavando panelas? Aprendi o valor do silêncio, da observação, e da hierarquia. A honra de participar da Cozinha das Ayabás foi minha, e a honra do aprendizado foi minha também.
As lições absorvidas no silêncio e no ouvido apurado jamais serão esquecidas.
Durante as horas passadas no Ilê Funfun, fui revisando minha vida, meus referenciais, minhas prioridades. Assistir minhas irmãs, dedicadas diuturnamente ao Axé, fez-me repensar muitas coisas. O que de fato tem valor?
As horas passaram rápidas, nossas preocupações foram sendo substituídas paulatinamente pela concretização das tarefas propostas. Todos, absolutamente todos conseguiram realizar, cada um dando sua contribuição, um grande feito.
O Ilê pronto, na hora certa, as comidas preparadas, os assentamentos alimentados, o branco absolutamente branco. E a grande hora, quando todos os esforços iriam ser apresentados, quando tudo deveria estar certinho, para que nossas irmãs pudessem manifestar seus Orixás, na grandeza de suas forças, estava chegando... os olhos de todos, ansiosos.
Como seria isso? Como elas estariam?
Eu, que nunca tinha ido a uma saída de santo, a uma feitura de santo, ao Candomblé... que pela primeira vez, participei dos trabalhos de um Ilê, e que veria pela primeira vez, a manifestação de 4 Orixás... que júbilo!
Oyá manifestada na minha irmã Aracyauara.
Nanã manifestada na minha irmã Yacyrê.
Ogun manifestado em minha irmã Yaranaya.
E enfim, Obaluayê manifestado na minha irmã Yaranacy.
Meus olhos, minhas emoções!
Senti que minha religiosidade jamais seria a mesma a partir daquele dia.
Meus olhos viam, meus ouvidos ouviam, meus sentidos todos aguçados, em verdadeira alegria, surpresa e estupefação.
Meu intelecto, medíocre diante da grandeza que eu assistia, silenciava.
E cada gesto, cada passo, cada dança dos Orixás manifestos pareciam remexer em minha gavetas internas, minhas memórias longínquas, minha natureza desconhecida. Medo? Não, ALEGRIA.
Esse foi o sentimento que me acompanhou por muitos dias.
E se todos os anos de aprendizado que se avizinham forem assim, que venham. Não vejo a hora!
O dia 01/08/2015 marcou o nascimento de minhas quatro irmãs, mas também simbolizará para mim o meu nascimento como Abyan no Candomblé!
Ibasé Baba mi!!!


PS: demorei tanto para escrever sobre este Barco, porque profunda foi a experiência, e necessitei digerir tudo o que vivi.

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