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sábado, 2 de março de 2013

Homeopatia, Espiritismo e Medicina no século XIX


A INSERÇÃO DA HOMEOPATIA NO BRASIL E O ESPIRITISMO COMO ESTRATÉGIA DE LEGITIMAÇÃO. 1860-1890
Nádia Míkola
Mestranda em História na UFSC
nadiamikola@hotmail.com



Resumo: A propagação da homeopatia no Brasil enfrentou muitos obstáculos e sua trajetória foi e continua sendo marcada por constantes tentativas de legitimação. No momento de sua inserção no cenário brasileiro, em 1840, a homeopatia sofreu inúmeras críticas da medicina oficial que, por medo de perder seu poderio, marginalizava a mesma através de seu racionalismo científico, enfatizando um caráter obscuro e místico na medicina de Hahnemann. A homeopatia então, buscou aliados, primeiro no catolicismo, e após 1860, no espiritismo. Tal aproximação se deu, sobretudo devido ao conceito de força vital sugerido por Hahnemann e o de fluido vital sugerido por Allan Kardec, codificador da doutrina espírita. Pretende-se então entender esta relação existente entre homeopatia e espiritismo no século XIX.

Palavras-chave: homeopatia, espiritismo, século XIX.

O presente trabalho toma como objeto a produção de discursos sobre uma corrente médica específica, a homeopatia, dentro de uma análise temporal marcada pela descontinuidade. Portanto, a história da homeopatia é percebida dando-se importância a cada momento, e não como uma sucessão de fatos, como “causas e conseqüências”.

A busca do homem pela cura de suas moléstias sempre foi uma constante na história. Sendo assim fica fácil entender que o conceito de medicina vem sofrendo modificações consideráveis ao longo dos séculos. O mesmo ocorre com a prática médica que, em diferentes momentos, teve de se adaptar às exigências de novas doenças e novas formas de interpretá-las. No desenrolar do século XIX o saber sobre a cura cada vez mais foi se concentrando nas mãos dos médicos, tornando-os figuras “indispensáveis” na vida das pessoas.
As interpretações sobre a cura, a metodologia e tecnologia das práticas médicas estão inseridas nos contextos de suas épocas. No momento em que a influência religiosa perdeu terreno para o cientificismo surgiu a medicina oficial, que via o organismo humano de uma forma materialista e mecanicista. É sobre essa medicina oficial que a homeopatia se contrapunha, tratando o organismo de forma vitalícia, ou seja, acreditava que a doença era provocada por uma desordem na energia vital das pessoas. Elaborada pelo médico alemão Cristian Friedrich Samuel Hahnemann no século XIX, a homeopatia acredita que essa desordem se manifesta de forma diferente em cada doente, portanto deve ser tratada de forma individualizada.
Hahnemann, alemão de nascimento, viveu de 1755 a 1843. Filho de um operário luterano, pobre de nascimento, sustentou seus estudos de medicina com a tradução de textos franceses, ingleses e italianos para o alemão, aproveitando seu pendor para as línguas, tendo se doutorado aos 24 anos em 1779 pela Universidade de Erlangen. Cinco anos depois publicou seu primeiro trabalho importante, um ensaio onde criticava a ausência de princípios para indicar o poder curativo dos remédios na medicina. (1)
A medicina de Hahnemann estrutura sua terapêutica no enunciado Similia Similibus Curantur proposto por Hipócrates2, este enunciado explica que os semelhantes são curados através dos semelhantes. Portanto as substâncias curam os mesmos sintomas que produziram ao serem experimentadas em um homem são.
Hahnemann dava ênfase em seus artigos principalmente sobre o efeito dos medicamentos nos doentes. Após traduzir a “Matéria Médica” de Cullen, médico escocês, discordou de sua interpretação sobre quinquina no tratamento de febres intermitentes. Assim, resolveu experimentar o medicamento em si próprio, analisando todas as reações e sintomas que a substância causava nele, para depois aplicar o medicamento nas pessoas doentes.
(...) E a cada dose que tomou, experimentou um verdadeiro acesso de febre intermitente, semelhante ao das febres palustres, de acordo com seus seguidores. Este experimento, até hoje polêmico, deu início às experimentações homeopáticas de Hahnemann, embora a dinamização não fizesse ainda parte de suas experiências.3
Hahnemann teria até o fim de sua vida, experimentado os efeitos de mais de cem drogas em homens saudáveis, sendo este então o fundamento da construção da terapêutica em homeopatia.
A obra principal do fundador da homeopatia, que reúne todos os princípios do método homeopático, só foi publicada em 1810, sob o título de Organon da Ciência Médica Racional. Mais tarde, em 1819, em sua 2a edição, ficou sendo conhecida como Organon da Arte de curar ou Exposição da doutrina médica homeopática.
A farmacologia no século XIX se modificava através da introdução de novas tecnologias e fármacos e as teorias médicas tornavam-se cada vez mais racionalistas, realizando experiências clínicas, em que as cobaias eram os próprios doentes. Hahnemann discordava da forma como a medicina vigente, alopática, atuava, tratando doenças, e não doentes, e muitas vezes, através de suas inúmeras experimentações prejudicar ainda mais os enfermos.
Em “Organon da Arte de Curar”, Hahnemann aponta:

A velha medicina (alopatia), a fim de dizer algo em geral, pressupõe no tratamento das doenças, ora uma (nunca existente) superabundância de sangue (plethora), ora uma substância morbífica e acridades, fazendo, portanto, escoar o sangue vital, esforçando-se, ora para expulsar a matéria morbífica imaginada, ora para desviá-la (através de vomitivos, laxantes, sialagogos, sudoríficos e diuréticos, vesicatórios, meios que favorecem a supuração, cautérios etc) na suposição de poder enfraquecer e suavizar materialmente a doença, aumentando, contudo, os sofrimentos do doente, retirando, assim, do organismo, como também através de seus medicamentos, as forças e os humores vitais indispensáveis à cura. Ela agride o corpo com grandes e, muitas vezes, amiúde, reiteradas doses de fortes medicamentos, cujos efeitos prolongados, não raro terríveis, ela desconhece e que ela, ao que parece, aplica- se em tornar desconhecidos, através da mistura de várias dessas substâncias desconhecidas em uma fórmula medicamentosa, provocando, assim, no corpo doente, por meio de seu emprego prolongado, novas doenças medicamentosas, em parte ainda mais impossíveis de ser erradicada.4


Na teoria homeopática, a cura ocorre através da reação da força vital ao medicamento aplicado. Quanto mais força vital, melhor. É partindo deste princípio, que a homeopatia pregava o mínimo enfraquecimento do doente, o que explica a não aceitação de muitos meios utilizados pela medicina tradicional. Os homeopatas também testavam os medicamentos nos homens, porém os homens estavam saudáveis e não doentes, como ocorria na prática alopática.

O fundador da doutrina homeopática teve inúmeros seguidores que se espalhavam por distintas cidades e países. Os ensinamentos de Hahnemann também chegaram ao Brasil, através de um discípulo seu: Benoit Mure. O assunto será melhor analisado a seguir.

O surgimento da Homeopatia no Brasil


No início do século XIX, José Bonifácio de Andrada e Silva conheceu a teoria homeopática por meio de cartas com Hahnemann. Bonifácio era um naturalista dedicado à mineralogia e, sendo Hahnemann um grande químico da época que detinha vasto conhecimento naquela área, a aproximação entre os dois ocorreu através da troca de conhecimentos 5.
Em 1811, novas informações sobre a Homeopatia chegaram ao Brasil. O Prof. Dr. Antônio Ferreira França, que ministrava aulas na Faculdade de Medicina e Cirurgia da Bahia, fazia considerações um tanto quanto maledicentes sobre a doutrina, desestimulando novos alunos a terem contato com o conhecimento homeopático(6).
No dia 21 de novembro de 1840, data escolhida para a comemoração da homeopatia no Brasil, aportou, no Rio de Janeiro, a barca francesa Eole, a bordo da qual estava Benoit Jules Müre. Bento Müre, como ficou conhecido, foi um dos discípulos de Hahnemann, possivelmente o principal responsável pela divulgação da homeopatia no país.
Müre nasceu em Lyon, no dia 4 de maio de 1809, e foi um dos maiores propagandistas da doutrina homeopática. Isso se deveu, afirma Galhardo7, em reconhecimento por ter sido curado de tuberculose pela homeopatia, através do Conde Dr. Sebastião des Guidi. Discípulo de Hahnemann. Müre foi ainda o fundador do dispensário homeopathico de Palermo, na Itália, e do dispensário da rua La Harpe, em Paris. Ingressou, na França, por volta de 1839 no movimento fourierista, engajando-se no grupo da dissidência denominado Union Harmonienne. Nesse ambiente, na convivência com a elite operária que formava então uma das alas da dissidência do movimento fourierista, foi que em Müre despertou a idéia da realização, fora da França, de um projeto de colonização nos moldes propostos por Charles Fourier. Para lapidar esta idéia uniu-se a outros membros da Union Harmonienne, entre eles Jamain e Derrion, e, em 21 de janeiro de 1840 compuseram os estatutos da associação Union Industrielle. Em 21 de setembro, na residência do Cônsul brasileiro em Paris a associação assumiria um aspecto oficial8.
Diante do Imperador D. Pedro II, um mês após a sua chegada, ao Brasil, Benoit Müre declara ter vindo ao país “em nome de todas as classes sofredoras que na França aspiravam melhorar sua posição, para pedir os meios necessários à produção que os levariam a gozar o legítimo fruto de seu trabalho”. Tratava-se do estabelecimento de um Falanstério, uma colônia socialista, baseada em princípios empregados por François Charles Marie Fourier, e cujo projeto já havia feito publicar na imprensa diária.9
Fourier, pensador francês, juntamente com outros pensadores, como Saint-Simon e Owen, representaram as características do pensamento utópico da primeira metade do século XIX.
Fourier planejou uma forma de promover a transição da sociedade do século XIX para o regime falansteriano. Os falansterianos se organizariam através de sociedades por ações, e os proprietários aplicariam seus capitais em troca de títulos, de maneira a gerar uma boa remuneração. Assim, de acordo com sua organização do trabalho, os mais pobres teriam tanto bem-estar quanto os mais ricos.
Em suma, o falanstério abrigaria um mundo no qual reinam não só o bem-estar e a justiça, como também a liberdade. Há nele, liberdade por todo lado, na alma humana, cujas paixões estão livres de todos os preconceitos, de todas as tiranias do moralismo. Há liberdade na organização social, que não implica sujeição alguma, nem nada mais que a atração do prazer. Nem o Estado existe. A unidade é o falanstério, no qual, é certo, as pessoas se agrupam numa espécie de hierarquia, cujos chefes vão desde o “unarca” até o “omniarca”, o imperador Universal, mas esta hierarquia quase não é mais que honorífica10.
Mure conseguiu de presente 4 léguas de terra na península do Saí, em Santa Catarina, e mais o adiantamento de 60 contos de réis por parte do governo brasileiro. Tendo permanecido no Rio de Janeiro por aproximadamente nove meses, Benoit Mure embarca para Santa Catarina, acompanhado dos colonos que fizera vir da França.
Galhardo aponta, que segundo registros encontrados no “Jornal do Comércio”, Benoit Mure funda em novembro de 1842, naquela colônia, uma Escola Suplementar de Medicina e o Instituto Homeopático do Sahy. Justificando que o Brasil deveria estar no mesmo grau de desenvolvimento homeopático que outras nações do mundo, a Escola Suplementar de Medicina tinha como objetivo propiciar condições para que jovens médicos pudessem adquirir conhecimentos que o antigo ensino das faculdades não havia podido lhes ministrar. Além disso, visava popularizar e generalizar a Homeopatia11.
Um ano após sua chegada (1840-1841), as campanhas públicas, através de periódicos e jornais tornaram-se cada vez mais freqüentes. Importante destacar o papel desempenhado pelo Jornal do Commércio, na divulgação de novas idéias. (...) Müre não hesitou em desfrutar dessa disponibilidade, para divulgar seus planos, tanto no âmbito do socialismo utópico, como no da homeopatia. Sobre esta última, chegou a divulgar um Projeto para a instalação do Instituto Escola Homeopática, a ser implantado no Saí (...)12.
O fato é que por volta de 1843, a Colônia do Saí fracassou, então o Dr. Müre rumou para o Rio de Janeiro com a finalidade de criar o Instituto Homeopático do Brasil (IHB), o 1o consultório homeopático do RJ, e a Botica Homeopática Central, a 1a farmácia homeopática do Brasil.
O IHB deveria ser um centro irradiador do pensamento e da prática da homeopatia no país, além de formar médicos especialistas na nova doutrina. Basicamente, tratava-se de uma escola de atividades e propaganda e de experiência clínica e farmacológica com as substâncias homeopáticas. Até uma farmácia central era planejada para funcionar, garantindo assim maior segurança na manipulação das substâncias13.
No discurso de fundação do Instituto Homeopático, proferido em 10 de dezembro de 1843 percebe-se mais uma diferença entre as duas medicinas. A homeopática se propunha a cuidar dos mais pobres.
Nós e quem por convite nosso se nos unir constituir-nos-hemos em sociedade denominada Instituto Homeopathico do Brasil, a fim de propagar a homeopathia em proveito das classes pobres. Os meios são o ensino, as publicações, as experiências e a pratica dessa sciencia, a preparação dos medicamentos e as experiências no homem são14.
No mesmo dia da criação do Instituto Homeopático, foi aberto o primeiro Consultório Homeopathico do Rio de Janeiro, localizado na Rua São José, no 59. Em março de 1848, em reunião extraordinária do Instituto Homeopático, o Dr. Mure demite-se da presidência e, em 8 de abril faz publicar um artigo sobre seu afastamento por motivo de doença. Em 13 de abril, deixou o país. Retorna à Europa e posteriormente ruma para o Egito a fim de continuar a sua propagação da doutrina homeopática.
A contribuição do Dr. Müre para a definitiva implantação da homeopatia no Brasil é inegável. Segundo números fornecidos por Sophie Liet, que foi sua aluna, e o acompanhou posteriormente ao Egito, Müre teria deixado, só na província do Rio de Janeiro, mais de 25 dispensários, e no restante do império, 50. A sua obra intitulada "Prática elementar da homeopatia", teve uma tiragem de mais de 10.000 exemplares e serviu para a aplicação nas plantações de cana de açúcar, onde houve uma melhora no que se refere à saúde dos escravos, com uma baixa da mortalidade de 10% para 2 ou 3%. Müre também formou mais de 500 alunos que passaram a praticar a homeopatia em toda a América do Sul15.
Desde a sua inserção no Brasil, na década de 1840, a homeopatia sofreu influências religiosas, primeiro do catolicismo, e após 1860, do espiritismo. Em relação ao catolicismo, esta influência revela-se, por exemplo, no discurso dos divulgadores da doutrina, que a encaravam como missão:
(...) o „Hymno á Homeopatia‟, que descreve a medicina hahnemanniana como sciencia divina vinda dos céus; a profissão de fé feita pelos formandos da Escola Homeopática em 1857, onde juravam em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo; e ainda, o símbolo do Instituto Hahnemanniano do Brasil, mantido até os dias de hoje, onde se pode ver um cacique sobre uma região da terra, que representa o Brasil, empunhando uma cruz, symbolo da fé propagada em todo o território brasileiro, e, finalmente, a aguia de Hahnemann dilacerando a serpente de Galeno16.
Já a influência do espiritismo na doutrina homeopática dá-se, sobretudo após 1860. Com a aproximação das filosofias de Hahnemann e Kardec.
Hippolyte Leon Denizart Rivail nasceu em Lyon, na França, em 3 de outubro de 1804 Formou-se como pedagogo em Yverdum, na Suíça, junto a Jean-Henri Pestalozzi, educador liberal de grande prestígio. Retorna para França, por volta de 1822 radicando-se em Paris, onde escreve uma série de manuais de instrução acadêmica, trabalhando como tradutor e professor17.
Foi em maio de 1855, na casa de Madame Plainemaison que Allan Kardec teve seu primeiro contato com o „fenômeno das mesas girantes‟18. A princípio Kardec não teria se convencido muito de tais fenômenos, porém foi aconselhado a continuar, recebendo dos Srs. Carlotti, René Taillandier, Thiedman-Mantêse Sardau e o editor Didier, 50 cadernos de comunicações recebidas em cinco anos. Desta forma Kardec adotou seu método experimental e continuou seus estudos sobre o fenômeno. As sessões então, passaram a ter um objetivo determinado e Kardec propunha aos Espíritos perguntas, que versavam sobre Filosofia, Psicologia e natureza do mundo invisível19. Posteriormente tal estudo veio o formar O Livro dos Espíritos, publicado em 1857.
Rivail adotou o pseudônimo de Allan Kardec após iniciar seus estudos sobre o espiritismo, sobretudo por ser um intelectual reconhecido, e não desejar que isto influenciasse a aceitação ou não de sua teoria. Afirma-se ainda que um espírito teria informado a Rivail que ele tivera o nome de Allan Kardec em outra encarnação, quando vivera entre os druidas na Gália20.
Após “O Livro dos Espíritos” sobrevieram mais “O Livro dos Médiuns”, publicado em 1861; “O Evangelho segundo o Espiritismo” em 1864; “O Céu e o Inferno”, em 1865; “A Gênese” em 1868; além de “A Revista Espírita”, jornal de estudos psicológicos, periódico mensal que começou a circular na França em 1o de janeiro de 1858.
Kardec faleceu em 31 de março de 1869, devido a um aneurisma cerebral.
Segundo Giumbelli21, o espiritismo é introduzido no Brasil em um momento em que várias outras correntes de idéias, originárias da Europa, invadem a intelectualidade nacional. Segundo ele, por volta de 1870, três vertentes dominariam o panorama intelectual: uma „cientificista‟, fascinada com a leitura de manuais de positivismo, evolucionismo e darwinismo social, outra „liberal‟, associada à afirmação do princípio da liberdade humana e das bandeiras políticas do republicanismo e do abolicionismo; e outra „conservadora‟, dominada fundamentalmente pelo pensamento católico.
Devido ao estreito contato do Brasil com a França, para onde ia parte da elite brasileira, isso favoreceu a importação das idéias correntes no „Velho Continente‟, dentre elas encontrava-se o espiritismo de Kardec.
Dentre os introdutores do espiritismo no Brasil destacam-se Casimir Lieutaud, Adolphe Hubert e Madame Collard. Casimir Lieutaud, fora diretor do Colégio Francês, estabelecimento de ensino dos mais conceituados na Corte. Foi Lieutaud quem publicou o primeiro livro de divulgação da nova doutrina, impresso no Rio de Janeiro, em 1860: “Les Temps sont Arrivés”. Adolphe Hubert era diretor do Courrier du Brésil, cuja redação era um local de encontro da colônia francesa e de discussões sobre os mais variados temas. Madame Perret Collard revelou-se uma médium psicografa, figura indispensável às sessões espíritas22.
Foi na Bahia, porém, que o espiritismo teria se estabelecido de forma mais firme e organizada. Lá se formou o primeiro centro espírita de que se tem notícia, o Grupo Familiar do Espiritismo, fundado em 17 de setembro de 1865, sob a direção do Dr. Luís Olímpio Teles de Menezes23.
Apesar da ação controladora da Igreja, o Espiritismo estabeleceu-se de modo firme e duradouro. Formaram-se grupos de estudos voltados para a apreensão do conteúdo filosófico da doutrina e, logo, para a prática da caridade, expressa na forma de assistência aos necessitados. Principalmente, multiplicaram-se as sessões de efeitos físicos, onde as pessoas buscavam a comprovação da existência dos espíritos e a consolação para a ausência de seus entes queridos que haviam falecido24.
Na Corte, Quintino Bocaiúva foi também personagem importante para a divulgação do espiritismo. Maçom e republicano, foi redator-chefe e depois diretor do “Diário do Rio de Janeiro”, colaborou em diversos periódicos. Por volta de 1880 assumiu o cargo de redator-chefe de “O Paiz”, o que possibilitou ao Dr. Bezerra de Menezes o acesso às colunas do periódico. De 1887 a 1894, sob o pseudônimo de Max, Bezerra de Menezes escreveu para “O Paiz” uma coluna denominada „Espiritismo‟, da maior importância para a propagação da doutrina25.
O fato que mais nos interessa é perceber que muitos médicos se voltaram ao espiritismo, sobretudo médicos homeopatas. Uma possível explicação para tal fenômeno deve-se à doutrina espírita ser, naquele momento, uma doutrina elitizada, pois era uma religião pautada no livro, e somente uma pequena parte da população em meados do período imperial era letrada, e, parte menor ainda detinha a possibilidade de ler em francês, idioma no qual encontravam-se muitas obras espíritas. Já a “conversão” dos homeopatas ao espiritismo pode estar atrelada às semelhanças do conceito entre força vital sugerido por Hahnemann e de fluido vital sugerido por Allan Kardec, codificador da doutrina espírita.
Segundo alguns espíritas:
(...) Mas as afinidades da Homeopatia com o Espiritismo não param aí. Para bem apreciá-las, basta reler os parágrafos do „Organon‟, antes citados. Quando Hahnemann diz, por exemplo, que o corpo material deve ao ser imaterial que o anima, tanto no estado de saúde como de doença, todas as suas sensações (como o cumprimento de todas as suas funções vitais) ele entreviu, evidentemente, a existência do perispírito, com o papel que desempenha em fisiologia como em psicologia humanas, na qualidade de elemento intermediário entre o Espírito e o corpo, conforme está sobejamente estudado nas obras fundamentais de Allan Kardec, Leon Denis, Gabriel Delanne, e através dos trabalhos de Durville, de De Rochas e tantos outros, especialmente os modernos, de procedência mediúnica.
Aí estão, portanto, as idéias de Hahnemann, nitidamente espiritualistas, senão espíritas, e dignas de serem partilhadas pelos adeptos do Espiritismo26.
Desta forma, muitos médicos, então espíritas, seguindo aos ensinamentos dos espíritos buscavam pautar-se na caridade, o que resultava na prática gratuita da homeopatia. Em muitos centros espíritas eram receitados medicamentos homeopáticos. O problema estava no fato de que nem sempre eram os homeopatas quem receitavam tais medicamentos, mas “médiuns receitistas”, pessoas incorporadas ou inspiradas por homeopatas já falecidos.
Acontece, porém, que com o início da República e a perseguição mais intensa aos chamados “charlatães” a parceria centro espírita - homeopatia começa a ficar mais criteriosa nos centros espíritas filiados à Federação Espírita Brasileira, FEB, devido ao fato de que em 1890, o Código Penal Brasileiro, em seu artigo 158 estabelecer a prática ilegal da medicina um crime. Condenava à prisão de seis meses até um ano quem “ministrasse ou prescrevesse uma substância de qualquer dos reinos da natureza”. Se a prescrição resultasse em morte do paciente, o curandeiro seria condenado a uma pena que podia chegar a 24 anos de prisão27.
(...) Com efeito, meses antes do Código Penal de 1890, em janeiro, o Dr. Polidoro Olavo de São Tiago organizara o „Serviço de Assistência aos Necessitados‟, que funcionava na sede da Federação, e que ajudava a todos os carentes de atendimento físico e espiritual que a ele recorressem. Aí trabalhavam, gratuitamente, alguns médicos diplomados, mas a maioria dos atendimentos era realizada por médiuns sem a devida habilitação para o exercício da medicina. Alguns desses receitistas atendiam, também, em suas residências. Em decorrência, tornou-se fato corriqueiro a invasão dos domicílios na ação policial de caça aos curandeiros, dentre os quais estavam incluídos os receitistas28.
Em sua busca por legitimação, a homeopatia procurou demonstrar um caráter científico em sua doutrina, e no início do século XX, sinônimo de discurso científico era discurso positivista.
Mesmo que Auguste Comte, fundador do Positivismo, tenha iniciado a publicar suas idéias em 1830, período no qual a doutrina hahnemanniana já estava concretizada, os médicos brasileiros não se preocuparam com este defasamento cronológico. Neste sentido, houve todo um empenho em situar Hahnemann como uma consciência muito além de seu tempo e mostrar a homeopatia como uma prática regida por princípios positivos (...)29.
Interessante perceber que para assegurar a relação entre homeopatia e doutrina positivista, dizia-se que a homeopatia se aproximava das ciências exatas como a matemática e a física. “(...) Como prova disto, salientava-se que os principais médicos hahnemannianos tinham formação anterior em engenharia”.30
Após estabelecer um discurso científico da doutrina homeopática, esta passou a defender seu uso restrito a grupos especializados. Opondo-se ao fato de leigos a aplicarem, valendo-se apenas de manuais homeopáticos. De acordo com esta nova postura, os homeopatas agora também iam contra a prática homeopática nos centros espíritas.
Compartilha-se, portanto da teoria de DAMAZIO31 a respeito da propagação da homeopatia no meio espírita. A autora afirma que o aspecto taumatúrgico favoreceu sobremaneira a expansão do Espiritismo por todas as classes sociais, notadamente pelas menos favorecidas, tendo em vista o forte apelo em que se constituía em um país cuja população nunca teve acesso ao atendimento público à saúde na medida de suas necessidades; uma população que sempre manteve vivas as tradições de tratamentos populares alternativos: das benzeduras à homeopatia, do curandeirismo aos passes.

Notas

1 LUZ, Madel. A arte de curar versus A ciência das doenças: História Social da Homeopatia no Brasil. São Paulo: Dynamis Editorial, 1996, p.47.
2 Hipócrates, (460 a.C – 377 a.C), considerado o “pai da medicina” foi o autor da “teoria dos quatro humores”. Para ele, a doença e a saúde estão relacionadas ao equilíbrio ou não entre a bílis negra, a bílis amarela, a fleuma e o sangue.

Quinhentos anos mais tarde, Galeno (131 200 d.C), realizará grandes progressos, em particular no campo da anatomia, baseado nas idéias hipocráticas.
É a partir do século XIX que a teoria de Hipócrates começa a ser ultrapassada. Para Herzlich, isso acontece devido a alguns fatores: aproximação entre médicos e cirurgiões e à prática da autópsia; novas técnicas de exames; descoberta de microorganismos e desenvolvimento da assepsia.

3 Idem, p.48.
4 HAHNEMANN, Samuel. Organon da Arte de Curar. 6a edição. Tradução de Edméa Marturano Villela e Izao Carneiro Soares. Ribeirão Preto: Museu de Homeopatia Abrahão Brickmann, 1995, p. 8-10.
5 GALHARDO, in: Primeiro Congresso Brasileiro de Homeopatia. 1928. Instituto Hahnemanianno do Brasil. Rua Frei Caneca, 94. Rio de Janeiro. Brasil. p.271.
6 Idem, p.272.
7 GALHARDO, in: Primeiro Congresso Brasileiro de Homeopatia. 1928. Instituto Hahnemanianno do Brasil. Rua Frei Caneca, 94. Rio de Janeiro. Brasil, p.279.
8RIBEIRO, Mário Antônio Cabral, in: História da Homeopatia no Brasil, http://www.medholistica.med.br/historia_da_Homeopatia_no_Brasil_geral.pdf, p.7. Acesso em: 10/08/09.
9 NOVAES, Ricardo Lafetá. O Tempo e a Ordem: sobre a homeopatia. São Paulo: Cortez, 1989. p.227
10 THIAGO, Raquel S. Fourier: Utopia e Esperança na Península do Saí. Blumenau: Ed. Da FURB, 1995, p.33-34). 11 Idem, p.229.
12 GARCIA, Gisella Demaria. A busca da cura através da homeopatia em Florianópolis. (1968-1980). MONOGRAFIA. Florianópolis, UFSC. 1999, p.143.
13 LUZ, Madel T. A arte de curar versus a ciência das doenças: História Social da Homeopatia no Brasil. São Paulo: Dynamis Editorial, 1996, p. 67.
14 GALHARDO, in: Primeiro Congresso Brasileiro de Homeopatia. 1928. Instituto Hahnemanianno do Brasil. Rua Frei Caneca, 94. Rio de Janeiro. Brasil. p.304.

15RIBEIRO, Mário Antônio Cabral, in: História da Homeopatia no Brasil, http://www.medholistica.med.br/historia_da_Homeopatia_no_Brasil_geral.pdf, p.6-7. Acesso em: 10/08/09.
16 SIGOLO, Renata Palandri. Em Busca da “Sciencia Medica”: a medicina homeopática no início do século XX. Curitiba: Dissertação de mestrado UFPR, 1999. p.47.

17 Idem, p.57.
18 Os participantes colocam-se ao redor de uma mesa, em cima da qual colocavam suas mãos. A mesa levantando um de seus pés, enquanto se recitava o alfabeto, dava uma pancada toda vez que fosse falada a letra, que servisse ao espírito, a fim de formar as palavras. Aos poucos este processo foi sofrendo variações. AMORIM, Pedro Paulo. Roustaing: a cisão no interior da Federação Espírita Brasileira. Trabalho de Conclusão de Curso. UFSC, 2008,p.5. 2008,p.5.
19 JORGE, José. Allan Kardec: Esboço Biográfico. Distribuição realizada pela: Juventude Espírita Bezerra de Menezes. Órgão do Centro Espírita Allan Kardec.
20 Idem.
21 GIUMBELLI, Emerson. O cuidado dos mortos: Uma história da condenação e legitimação do Espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997,p.60.
22 DAMAZIO, Sylvia F. Da elite ao povo. Advento e expansão do Espiritismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994,p.65.
23 Teles de Menezes era professor e jornalista, e além de ser o articulador do primeiro grupo de estudos espíritas formado no Brasil, foi quem traduziu o primeiro livro espírita a ser impresso no país e quem fundou o primeiro jornal que, apropriadamente, denominou de O Eco d‟ Além Túmulo. Em torno dele formou-se um círculo seleto, formado pela nata da sociedade baiana.
p.66.
24 DAMAZIO, Sylvia F. Da elite ao povo. Advento e expansão do Espiritismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994,p.68.
25 Idem, p.71-72.
26 THIAGO, Lauro S. Homeopatia e Espiritismo. Federação Espírita Brasileira. Rio de Janeiro: Departamento Editorial, 1991, p.37-38.
27 PEREIRA Neto, André Faria. Ser médico no Brasil: o presente no passado. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2001, p.90.
28 DAMAZIO, Sylvia F. Da elite ao povo. Advento e expansão do Espiritismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994,p.120-121.
29 FILHO, Cláudio Bertolli. A doutrina homeopática no Brasil: os anos 30. In: Revista Homeopática. São Paulo, jun. 1988, p.77.
30 Idem.
31 DAMAZIO, Sylvia F. Da elite ao povo. Advento e expansão do Espiritismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994,p.

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