"Somos todos viajantes de uma jornada cósmica, poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias." Deepak Chopra

sábado, 9 de março de 2013

O tempo e o poder


Jociane Negrão


 Falar sobre o Tempo e sua importância na manutenção do Poder, o Poder Temporal, não é fácil. Ao propor este desafio, pensamos na primeira aula que tivemos sobre esse assunto, e quem nos despertou para ele foi a Profa. Maria Elise Rivas. Estranhamente, ao entrar na sala, diferente das outras vezes, ela falou “Graças a Deus”.  Digo diferente porque utilizar uma expressão exclusiva do Cristianismo não é algo comum nela. Ela sempre nos remeteu ao conhecimento de Síntese, mas nesse dia, ao entrar na sala de aula ela disse “Graças a Deus”.
        Ao iniciar sua aula com este jargão coloquial, ela nos remeteu à construção da idéia de Deus pelo Cristianismo. O Cristianismo construiu, fundamentou sua teogonia e teofania na escrita, por meio do Torah, o Antigo Testamento, e depois por meio dos escritos que datam o mais antigo cerca de 70 anos após a morte de Jesus, e que vieram a se chamar Novo Testamento. A esta união de livros do Antigo Testamento e Novo Testamento deu-se o nome de Bíblia, o livro sagrado do Cristianismo. A este processo de utilização de um livro sagrado como referência chama-se Tradição Escrita. Cristianismo, Judaísmo e Islamismo são as Religiões do Livro, e consideradas como as Religiões Tradicionais.
        Contudo, ao analisar as religiões do planeta, observa-se que uma parcela considerável delas não utiliza o livro sagrado, entre elas podemos citar as religiões ameríndias, as religiões africanas, as religiões orientais, e as religiões primitivas da Europa. A toda essa parcela deu-se o nome de religiões primitivas, apenas pelo fato de não possuírem um livro referencial. Suas teogonias, teofanias, hierofanias, cosmologia e cosmovisão são embasadas na Tradição Oral. O conhecimento é passado de geração em geração, de mestre a discípulo, por meio de um processo iniciático.
            Segundo Durkheim, toda religião é caracterizada pelo Mito, pelo Rito e pelo Ethos. As religiões tradicionais ou de tradição escrita têm muito bem caracterizados estes princípios. Monoteístas, seus ritos são bem determinados, passo a passo. As religiões orais são politeístas, multirreferenciais, polissistemáticas e, portanto, policêntricas. Politeístas porque não utilizam uma única divindade, mas um panteão, cada um com sua importância, daí a multirreferencialidade. São polissistemáticas porque não há uma única forma de realizar um rito, mesmo que ele seja destinado à mesma divindade. E policêntrico porque não há um único modelo a ser seguido, exemplo disso são as religiões afro-brasileiras, com suas inúmeras escolas (Culto da Jurema, Candomblé de Caboclo, Toré, Xambá, Babassuê, Xangô, Tambor de Mina, Umbanda, Candomblé, Catimbó).
            Nas religiões de tradição oral, o tempo é o tempo mítico, ou seja, o tempo vivenciado pelo mito. Não há marco inicial, o mito é revivido em cada rito. O rito reatualiza o mito. É comum ouvir “... no início dos tempos...” como referência nas historietas desta tradição, como exemplificam os Itans do Ifá. A idéia de tempo era bastante diferente, própria de cada povo. Por isso, os calendários são tão diversos. Normalmente, o tempo era determinado pelas colheitas, pelas estações ou pela necessidade de comercialização dos produtos.
Portanto, se a idéia de tempo era algo pouco importante na tradição oral, como se deu a passagem do atemporal para o temporal? Do tempo circular para o seqüencial?
Nas religiões monoteístas, a necessidade de legitimar a idéia em construção (Deus) deu o início a todo este processo de desconstrução das Tradições Orais. O Tempo foi esse símbolo legitimador. Ao construir a imagem do Deus monoteísta, ocorreu o marco inicial do Tempo. Portanto, o Tempo nasce com o Monoteísmo. E o Monoteísmo utiliza a escrita como ferramenta primordial.
A história da tradição escrita é totalizadora, com profundas ligações com a tecnologia e a urbanização. Com o início da escrita, todas as culturas que não se fundamentavam nela passaram a ser consideradas primitivas e atrasadas. As culturas agrárias, relacionadas com a natureza, passaram a ser desprezadas, em detrimento da urbana, distanciada dos valores antigos.
As culturas mercantilistas, e depois as industrializadas necessitavam de uma marcação temporal específica, uma forma de determinar lucro e produtividade. Não havia mais o interesse apenas pelo sustento do clã, da prole, do coletivo. O interesse agora era o enriquecimento individual, a exploração dos processos produtivos, a hegemonia do poder. A riqueza determinava o poder.
A escrita, que era apenas um método, passou a ser o método, tornando-se referência de progresso cultural, avanço social e poder.
Construiu-se um modelo de Homem de Bem, a ser defendido e implantado pelas nações “avançadas”. Este Homem de Bem era justificado pela Fé que só pode existir naquele que lê e respeita o Livro Sagrado.
Desacreditar, ridicularizar e inferiorizar as culturas orais foi apenas o começo do processo. Basta ver como os calendários antigos foram substituídos pelo calendário cristão para perceber como se deu o processo colonialista e explorador do homem europeu sobre os povos dominados.
Na tradição oral, o conhecimento está livre para ser interpretado, modificado e ritualizado conforme a compreensão de cada época e de cada povo. Não há rigidez. Há mobilidade, abraçando todas as formas de compreender o sagrado.  Ela estuda o Homem como sagrado.
Na tradição escrita, o conhecimento está fechado, limitado pela fé, e pelo dogma. Não permite reinterpretação. Estuda-se o Divino como ser poderoso, digno de adoração e medo. O Homem passa a ser aquele ser insignificante, criado pela Divindade, e por ele será castigado, se não se submeter às suas leis, escritas é claro no Livro Sagrado. A conduta moral e ética passa a ser ditada pela fé, permitindo a dominação da maioria analfabeta, pela minoria alfabetizada. Domina-se o pobre e ignorante pelo medo à Deus. Vende-se uma ideologia de submissão à vontade de Deus, e quem a representa é o Papa, o Rei, o senhor feudal, e posteriormente, o patrão.
O homem deixou de compreender a vida como um processo natural de nascer, crescer e morrer. Suas idades eram determinadas pela infância ( pureza), pela vida adulta (maturidade), e depois pela velhice (sabedoria). O homem passa agora a compreender sua vida pela produtividade e pela força. Ao envelhecer, deixa de ser valorizado e ouvido. Passa a ser considerado imprestável, doente, senil. É notável a diferença com a qual o idoso é tratado nas culturas primitivas e nas industrializadas.  Incapazes de acompanhar o processo tecnológico, seu conhecimento, adquirido com o esforço ao longo dos anos, é desprezado, e agora, o sábio ancião é considerado um velho inútil, desatualizado, imprestável. O jovem, valorizado pela vitalidade e agilidade, passa a considerar-se força motriz da sociedade, não tendo mais como referência a imagem do ancião sábio a direcionar-lhe o ímpeto da juventude.  Deslocou-se o ancião para a periferia e o guerreiro para o centro.
O homem moderno trocou a Sabedoria dos anos pelo Poder do lucro e da força. Como resultado, uma sociedade frívola, superficial, sem princípios éticos, tampouco espirituais.

* Este texto é parte do artigo apresentado na FTU, no IV Congresso Brasileiro de Umbanda do século XXI. Autores:
Ariel Couto (FTU), ariel_couto@hotmail.com; Fernanda R. do Nascimento(FTU), fernanda.reg@hotmail.com; Jociane Negrão(FTU), jn.negrao@uol.com.br; Paulo Feijó(FTU), paulofeijodasilva@yahoo.com.br; Rodrigo Fagundes Bueno(FTU), buenorf@msn.com; Wilson Lopes (FTU), w.lopes@aasp.org.br.


Bibliografia
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ANDREWES, William J. H. – Uma crônica do registro do tempo. Scientc American Brasil, edição especial no. 21 (paradoxo do tempo). São Paulo: editora duetto, 2007.
CARVALHO, Nivaldo de. em "A filosofia Medieval, o Renascimento e a Filosofia Moderna"; texto para a disciplina de Filosofia para o segundo grau da Escola Vera Cruz, São Paulo, 1997.
ELIADE, Mircea. O Mito do Eterno Retorno. Editora Edições 70 – Brasil, 1999.
GOODY, Jack. Tradutor: SILVA, Luis Sergio Duarte da. O Roubo da Historia. Editora Contexto, 2008.
HUNHOFF, Elizete Dall’Comune. O Tempo: Fator de Identidade nas Obras de Florbela Espanca e de Cecília Meirelles. São Paulo, 2008.
JAGUARIBE, H. Tempo e História. . In. DOCTORS, M. Tempo dos Tempos, Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
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KLEIN, Étienne. O tempo. Lisboa: Instituto Piaget, 1995. (tradução original: Le temp, Flammarion, Collecton dominós 1995).
MAGALHÃES, Isabel Allegro de. O tempo das Mulheres. Lisboa: Casa da Moeda, 1987.
RIVAS, F. N. Escolas das Religiões Afro-brasileiras. São Paulo: Arché, 2012.
SCHENBERG, Mário. em "Princípios da Mecânica (Tese de Cátedra) - Introdução à História da Ciência (Curso)"; editado pelo CEFISMA do Instituto de Física da USP.
WHITROW, G, J. – O que é o tempo – uma visão clássica sobre a natureza do tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editora, 2005. (Tradução da 1º edição inglesa, What is time? The Classic account of the nature time, Oxford University Press,de 1972).

3 comentários:

Ygbere - Abaara disse...

Muito bom este texto minha querida Obaositala, continue produzindo materiais de grande valia para os que querem aprender verdeiramente!
ygbere

Ygbere - Abaara disse...

Muito bom este texto minha querida Obaositala, continue produzindo materiais de grande valia para os que querem aprender verdeiramente!
ygbere

Obaositala disse...

Muito obrigada Ygbere!!! Seu elogio é um grande estímulo!