quinta-feira, 24 de março de 2016

Sobre águias e urubus

[...]pensando sobre os atuais momentos do país, deparei-me com este belíssimo conto, decidi reproduzir nesta página. 

"Era uma vez uma águia. Desde pequena, nascida num ninho dentro do oco de uma montanha bem alta, conviveu com as alturas. Seu grande sonho era poder voar mais alto que todas as pipas, encostando nas nuvens do céu.
Toda vez que se lançava ao voo, lá das alturas, dava um mergulho no vazio e atirava-se, toda cheia de coragem e frio na barriga (pois coragem é isso, lançar-se a despeito do medo).
Voava plácida, onde se ouvia o silêncio absoluto. Sentia no seu íntimo o quão prazeroso era entregar-se à pureza do ar e à beleza do sol. O mundo lá de baixo não lhe importava. Ela só queria gozar a liberdade do seu voo. Por isso podia voar alto: não fazia questão de enxergar o que acontecia em terra firme. Seus pais haviam lhe ensinado que quem voa baixo para vigiar o que os homens estão fazendo, tem medo da liberdade e está sempre mais preocupados com o que os outros pensam que consigo mesmo… Assim nossa querida e mansa águia vivia lá no alto, onde só os mais valentes se atrevem ir.
Bem mais baixo que o ninho onde nascera, porém na mesma montanha, nasceu uma bela ninhada de urubus. Urubus como todos sabem, vivem em busca de carniça. Nada no mundo deles é mais importante que a suculenta carniça, resto que fica depois que a morte faz seu trabalho.
Todos os seres vivos são dotados de brilho nos olhos, alma que lhes sussurram vontades, amor e magia pelo encanto da vida. Ao morrerem, todas as coisas boas e bonitas se vão. Fica só a carniça, matéria que apodrece e se torna mal cheirosa. Pois é justamente pela carniça que os urubus se interessam. Não lhes comove a liberdade, muito menos a beleza. Só querem saber daquilo que se decompõe, cercado de moscas e larvas. Por isso voam baixo para poder vigiar a vida na terra. Seus pensamentos não importam. O que lhes importa na verdade é vigiar o pensamento e a vida dos outros, para que toda deliciosa carniça seja encontrada!
As águias voam felizes nas alturas dos céus.
Os urubus voam felizes, porém não tão alto.
Aconteceu um dia uma pessoa míope olhou para o céu, viu um urubu e achou que fosse uma linda águia que voava plácida pelas alturas. Ficou comovida pela beleza do voo da imaginária águia, chamou seus amigos e lhes mostrou apontando para o céu a beleza que vira. Muitas pessoas se juntaram para admirar a beleza da suposta ave que voava. Todos admiravam o urubu, achando que ele lhes falava sobre a beleza do voo livre.
Diferente da velha fábula “A roupa nova do rei”, onde todos viam que o rei estava pelado mas ninguém tinha coragem de falar a verdade, as pessoas desta história olhavam para o urubu mas não o enxergavam. Diante delas voava um linda e bela águia, tão linda quanto só a nossa imaginação pode pintar.
Um menininho curioso, querendo ver a águia de perto, resolveu olhar através de um binóculo. Para a sua surpresa, viu que a bela águia na verdade era um urubu. Ninguém acreditou nele. E curiosamente, ninguém quis olhar pelo binóculo para checar se o menino falava a verdade… As pessoas ficaram com raiva do menininho, por querer estragar o encanto de beleza do urubu!
Na vida, é assim… Os que tem a alma míope, permitem que urubus se tornem águias e que águias se tornem urubus. O que não é permitido é que a miopia seja revelada e a verdade dita. Pois todos os míopes juram de pés juntos que enxergam de forma clara e cristalina…"
http://www.revistapazes.com/menino-urubu/

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Que Orixá rege o ano?


Mãe Stella: Que orixá rege o ano?
Publicado em Sexta, 06 Janeiro 2012 12:30
 
por: Maria Stella de Azevedo Santos

Este é um artigo que possui objetivo esclarecedor. Tentarei tornar compreensível um assunto que surge todo princípio de ano. A imprensa faz reportagens e as pessoas indagam uma das outras ou perguntam a si mesmas sobre o orixá que influenciará o novo ano que surge. Fazem isso na tentativa de adivinhar o que é preciso ser DIVINADO.
Adivinhar é fazer conjecturas sobre um tema usando a intuição, o que todo ser humano pode fazer. Divinar, todavia, é entrar em comunicação com o sagrado, através de rituais guiados por sacerdotes. É claro que todo ser vivo, por possuir uma parcela divina, é capaz de se conectar com os deuses. Mas a utilização de oráculos, os quais fornecem informações mais precisas sobre o destino da comunidade, requer uma preparação especial e um estilo de vida que propicia à intuição, inerente a todos, apresentar-se de maneira muita mais clara. A intuição se transforma aqui em revelação: quando os véus que encobrem os mistérios são retirados pelos deuses, a fim de que nossa jornada aconteça de uma maneira orientada e, assim, possamos cumprir a tarefa que nos foi legada com o mínimo de percalços possível, o que torna a vida bem mais leve.
Os leitores acostumados com os artigos que escrevo poderão estranhar a formalidade deste texto. É que "há tempo para tudo": para contar anedotas, falar poesias, refletir sobre a vida... Esse tema pede seriedade! Faço isso porque creio ser a imprensa o meio ideal para esclarecer assuntos, que só não são melhor comentados por falta de oportunidade e conhecimento. Tendo agora essa oportunidade que me é dada pelo jornal A TARDE não quero desperdiçá-la. Mesmo tendo eu a consciência de que nada se modifica de um dia para o outro, aproveitarei o momento para tentar fazer com que a população melhor compreenda as respostas do oráculo trazido pelos africanos para o Brasil, esperando que as sementes aqui jogadas possam um dia florescer e dar bons frutos.
A pergunta correta não é qual o orixá que rege o ano, e sim qual o orixá que rege o ano para aquelas pessoas que cultuam estas divindades e estão vinculadas à comunidade em que o Jogo de Búzios foi utilizado. Se isso não for bem esclarecido e, consequentemente, bem compreendido, parece que todos os sacerdotes erram em suas respostas, uma vez que uma Iyalorixá diz que o orixá do ano é Iyemanjá, enquanto outra diz que é Oxum, ou um Babalorixá diz que é Oxossi. Mesmo correndo o risco de o texto ficar enfadonho, insistirei em alguns pontos, a fim de elucidá-los melhor. No nosso Terreiro, o Ilê Axé Opo Afonjá, o regente do ano 2012 é Xangô. A referida divindade, que se revelou no Jogo feito por mim, não está comandando o mundo inteiro, nem mesmo o Brasil ou a Bahia. Ela é o guia das pessoas que, de uma maneira ou outra (mais profunda – como é o caso dos iniciados; ou mais superficial – os devotos que freqüentam a "Casa"), estão vinculadas a mim enquanto Iyalorixá, ou ao Terreiro em questão.
O leitor, diante dessa explicação, poderá ficar confuso e sentir necessidade de perguntar: "E eu, que não cultuo orixá e não tenho relação com o Candomblé, não serei orientado nem protegido por nenhuma divindade?". A resposta é: Claro que sim! Por aquela que você cultua ou acredita. Um católico, ou um protestante, será guiado pelos ensinamentos de Jesus; um budista, pelas sábias orientações de Buda... Outra pergunta ainda poderá surgir: "E quanto às pessoas que não são religiosas, elas ficarão a toa?". Não, é claro que não. Essas serão guiadas e orientadas pela natureza, que é a presença concreta do Deus abstrato. Seus instintos, protegidos por suas cabeças e corações, conduzirão suas vidas de modo que seus passos sigam sempre na direção correta.
Que Xangô – divindade da eloqüência, da estratégia, do fogo que produz o movimento necessário a todo tipo de prosperidade – possa receber, de meus filhos espirituais, cultos suficientes para que fortalecido possa torná-los cada vez mais fortes para enfrentar as intempéries que todo ano traz consigo. Obrigado Ano Velho pelas experiências passadas para Ano Novo.


Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá
http://arquivo.geledes.org.br/em-debate/colunistas/12516-mae-stella-que-orixa-rege-o-ano


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O Tempo - Carlos Drumond de Andrade

O Tempo 
(Carlos Drummond de Andrade)

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, 
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.
Para você, desejo o sonho realizado,
o amor esperado,
a esperança renovada.
Para você, desejo todas as cores desta vida,
todas as alegrias que puder sorrir,
todas as músicas que puder emocionar.
Para você, neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família seja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de lhe desejar tantas coisas...
Mas nada seria suficiente...
Então desejo apenas que você tenha muitos desejos,
desejos grandes.
E que eles possam mover você a cada minuto
ao rumo da sua felicidade."
Feliz 2016

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Presença sim! Presentes não!


Estou preparada para dormir, não tão cedo como dormem os idosos. Tenho 90 anos e 7 meses, mas minha filha joga fora os 90. Ela é de Iyemanjá. Como sua essência é de mãe, ela me cobre. Agora sou um bebê de 7 meses. Para que o pacote fique completo, minha filha/mãe começa a contar uma "estorinha":
"Era uma vez uma senhora encantada e encantadora que se tornou conhecida como 'A Grande Mãe'. Em seu colo, as crianças se aconchegavam e os adultos buscavam conforto para as dores do dia a dia. De sua boca saíam conselhos que ajudavam a secar as lágrimas de homens e mulheres aflitos. Se seus conselhos não bastavam, ela dançava e com suas mãos indicava os caminhos a serem seguidos.
"As desesperadas pessoas que buscavam 'A Grande Mãe' saíam de seu lar com a esperança renovada. Sua casa era uma extensão dela própria. E, por isso, todos queriam agradá-la e a presenteavam com flores para que sua casa ficasse ainda mais aconchegante. Isso agradava a generosa senhora, mas não era capaz de impedir que quando estivesse sozinha chorasse as dores do mundo.
"De seus olhos saíam tantas lágrimas, tanta água salgada, que sua adorável casa se transformou no mar. Iyemanjá era seu nome, que significa 'mãe que é respeitada e agradada com entusiasmo'. Todos são filhos de Iyemanjá, e todos ansiavam por agradá-la com flores, perfumes, maquiagem, joias. Iyemanjá adorava receber presentes, mas sorria da ingenuidade de seus protegidos:
"- Como ela poderia ter tempo de ser vaidosa, quando precisava dedicar-se a esfriar as várias cabeças quentes que deitavam em seu colo?...
"As pessoas não sabiam, mas quem gostava daqueles lindos e ricos presentes era a jovem e vaidosa filha de Iyemanjá: Oxum. Quanto mais Iyemanjá ajudava as pessoas, mais presentes eram depositados em sua casa. Seu lar foi ficando sujo. Iyemanjá pediu, então, que as pessoas não lhe dessem presentes de plásticos nem de metal, pois estes, com o tempo, transformavam-se em lixos difíceis de serem degradados. Os mais obedientes passaram a oferendar apenas o líquido dos perfumes e flores, mas os produtos químicos dos quais eram feitos os perfumes poluíam as águas e as pétalas das flores adoeciam os peixes.
"A população tinha crescido muito e no mar não cabiam mais tantos presentes. Iyemanjá retirou-se para meditar e encontrar a forma ideal de permitir que as pessoas continuassem a praticar seus ritos de agradecimento, sem que ela, sua casa (o mar) e seus filhotes peixes sofressem.
"Muito tempo já tinha se passado até que uma bela e harmoniosa melodia pôde ser ouvida pelo povo da Bahia. Iyemanjá cantava: 'Reúnam-se, cantem e me encantem; este é o presente que quero e posso receber a partir de agora. Não quero mais presentes, quero presença'."
Acordei na manhã seguinte. Já não sabia se tinha ouvido a estória ou sonhado com ela. Era uma vez; há sempre uma vez; há sempre a primeira vez; há de ter sempre pessoas que encarem a primeira vez. "O candomblé é uma religião ecológica" - dizem. Então vivamos o que pregamos!
Encaro o desafio e digo que a partir de 2016 o "Presente de Iyemanjá" do Ilê Axé Opô Afonjá não mais poluirá o mar com presentes. Meus filhos serão orientados a oferendar Iyemanjá com harmoniosos cânticos.
Quem for consciente e corajoso entenderá que os ritos podem e devem ser adaptados às transformações do planeta e da sociedade. Os ritos se fundamentam nos mitos e nestes estão guardados ensinamentos valorosos. O rito pode ser modificado, a essência dos mitos, jamais!
Sei que Iyemanjá ficará feliz, afinal qual é a mulher, principalmente sendo mãe, que não gosta de ouvir belas melodias que confortam e dão alento a um coração permanentemente preocupado com os filhos?


http://atarde.uol.com.br/opiniao/noticias/1734286-presenca-sim-presente-nao

O tempo e as Jabuticabas

Rubem Alves

"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver
daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela
menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela
chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir
quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos
para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem
para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir
estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões
de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo
majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas
não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a
essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente
humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta
com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não
foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados,
e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse
amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.'

O essencial faz a vida valer a pena...
e para mim basta o essencial".

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