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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A questão do apego


É comum se fazerem aos psiquiatras perguntas do tipo “o que leva uma pessoa a matar” ou “porque alguém escolhe ser bandido”, atos anti-sociais que chocam as pessoas. Meu trabalho cotidiano é avaliar comportamentos e personalidades, o que tem me mostrado o valor de um velho aforisma da Medicina, segundo o qual “cada caso é um caso”. Muita gente aprecia teorias generalizadoras, aquelas que se aplicam a todos os casos, o que torna difícil explicar que não é porque duas pessoas cometeram atos violentos, que as duas tenham agido pelos mesmos motivos, sejam estes conscientes ou inconscientes.
Um dos fatores relevantes é a história de vida da pessoa, que costuma trazer luzes sobre suas emoções e formas de pensar e agir. Mas, mesmo assim, há motivos que podem seguir obscuros, por mais esforços que se façam para desvendá-los. Mas isso não acontece só com quem é encaminhado para uma avaliação psiquiátrica, há motivos difíceis de entender em condutas nas mais variadas situações sociais.
Imagine, por um instante, que você fosse presidente do Egito e uma multidão de um milhão de pessoas exigisse a sua renúncia, o que você faria ? Não é fácil reunir um milhão de pessoas, você sabe disso. O Roberto Carlos já disse que queria ter “um milhão de amigos” e nesse caso seriam um milhão de pessoas reunidas em torno de você, mas não de amigos. Não pareceria mais lógico simplesmente negociar com a oposição, buscar uma “saída honrosa” e renunciar, sabendo que você não está agradando ?
Do ponto de vista prático, levaríamos em conta as implicações financeiras, mas não parece ser o caso. O ditador egípcio teria uma fortuna no exterior e já enviou toda a sua família para viver em Londres, confortavelmente. O que o mantém apegado ao poder, em um país que visivelmente não o tolera mais, a ponto do próprio Exército evitar tomar o partido dele ?
Não parece haver outra explicação racional a não ser a do apego à situação conhecida (o poder, no qual está há três décadas), mesmo com risco de vida ao permanecer lá, tão hostilizado e sem apoios leais. A vida dele, evidentemente, é muito diferente das nossas, mas o que sua conduta quase inexplicável tem de útil para nós é uma reflexão sobre a questão do apego. Mesmo sem situações de vida tão extremas como as dele (ou num país com costumes tão diferentes do nosso como o Egito), também temos em nossas vidas, em algum momento, o enfrentamento com a questão do apego.
Ninguém passa por essa vida sem alguma escolha que implique em se desapegar de algo, de alguém, ou de uma situação. O que casos extremos podem nos mostrar, e nos servir, é que o apego pode vir a se tornar, em si mesmo, um vício – como uma droga – quando não há mais motivos racionais que o sustentem.
Montserrat Martins, colunista do Ecodebate, é Psiquiatra.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Por que temer o espírito revolucionário árabe?


A reação ocidental aos levantes no Egito e na Tunísia frequentemente demonstra hipocrisia e cinismo. A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente". O artigo é de Slavoj Zizek.
O que não pode deixar de saltar aos olhos nas revoltas Tunísia e Egito é a notável ausência do fundamentalismo islâmico. Na melhor tradição democrática secular, as pessoas simplesmente se revoltaram contra um regime opressivo, sua corrupção e pobreza, e demandaram liberdade e esperança econômica. A sabedoria cínica dos liberais ocidentais - de acordo com os quais, nos países árabes, o genuíno senso democrático é limitado a estreitas elites liberais enquanto que a vasta maioria só pode ser mobilizada através do fundamentalismo religioso ou do nacionalismo - se provou errada.

Quando um novo governo provisório foi nomeado na Tunísia, ele excluiu os islâmicos e a esquerda mais radical. A reação dos liberais presunçosos foi: bom, eles são basicamente a mesma coisa; dois extremos totalitários - mas as coisas são simples assim? O verdadeiro antagonismo de longa data não é precisamente entre islâmicos e a esquerda? Ainda que eles estejam momentaneamente unidos contra o regime, uma vez que se aproximam da vitória, a sua unidade se parte e eles se engajam numa luta mortal, frequentemente mais cruel do que aquela travada contra o inimigo comum.

Nós não testemunhamos precisamente tal luta depois das eleições no Irã? As centenas de milhares de apoiadores de Mousavi lutavam pelo sonho popular que sustentou a revolução de Khomeini: liberdade e justiça. Ainda que esse sonho tenha sido utópico, ele levou a uma explosão de criatividade política e social de tirar o fôlego, experiências de organização e debates entre estudantes e pessoas comuns. Essa abertura genuína, que liberou forças de transformação social então desconhecidas, um momento no qual tudo pareceu possível, foi então gradualmente sufocada pela dominação do controle político e do establishment islâmico.

Mesmo no caso de movimentos claramente fundamentalistas, é preciso ser cuidadoso para não perder de vista o componente social. O Talibã é usualmente apresentado como um grupo fundamentalista islâmico que impõe suas leis pelo terror. No entanto, quando, na primavera de 2009, eles tomaram o Vale de Swat no Paquistão, o The New York Times noticiou que eles arquitetaram "uma revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de ricos donos de terra e seus inquilinos desprovidos de um chão". Se, ao "se aproveitar" dos apuros dos agricultores, o Talibã estava criando, nas palavras do New York Times, "um alerta sobre os riscos ao Paquistão, que permanece sendo largamente feudal", o quê impediu os democratas liberais do Paquistão e dos Estados Unidos de, da mesma forma, "se aproveitarem" desses apuros e de tentarem ajudar os agricultores sem terra? Ocorre de as forças feudais no Paquistão serem aliados naturais da democracia liberal?

A conclusão inevitável a ser delineada é que a ascensão do islamismo radical sempre foi o outro lado do desaparecimento da esquerda secular nos países muçulmanos. Quando o Afeganistão é retratado como sendo o exemplo máximo de um país fundamentalista islâmico, quem ainda se lembra que, há quarenta anos atrás, ele era um país com uma forte tradição secular, incluindo um poderoso partido comunista que havia tomado o poder lá sem dependência da União Soviética? Para onde essa tradição secular foi?

É crucial analisar os eventos em andamento na Tunísia e no Egito (e no Iémen e ... talvez, com esperança, até na Arábia Saudita) em contraste com esse pano de fundo. Se a situação for eventualmente estabilizada de modo ao antigo regime sobreviver, apenas passando por alguma cirurgia cosmética liberal, isso irá gerar um intransponível retrocesso fundamentalista. Para que o legado chave do liberalismo sobreviva, os liberais precisam da ajuda fraternal da esquerda radical. De volta ao Egito, a mais vergonhosa e perigosamente oportunista reação foi aquela de Tony Blair noticiada na CNN: mudança se necessário, mas deverá ser uma mudança estável. Mudança estável no Egito, hoje, só pode significar um compromisso com as forças de Mubarak na forma de ligeiramente alargar o círculo do poder. Este é o motivo pelo qual é uma obscenidade falar em transição pacífica agora: pelo esmagamento da oposição, o próprio Mubarak tornou isso impossível. Depois de Mubarak enviar o exército contra os protestantes, a escolha se tornou clara: ou uma mudança cosmética na qual alguma coisa muda para que tudo continue na mesma, ou uma verdadeira ruptura.

Aqui, portanto, é o momento da verdade: ninguém pode arguir, como no caso da Argélia uma década atrás, que permitir eleições verdadeiramente livres equivale a entregar o poder para fundamentalistas islâmicos. Outra preocupação liberal é de que não existe poder político organizado para tomar o poder caso Mubarak parta. É claro que não existe; Mubarak se assegurou disso ao reduzir a oposição a ornamentos marginais, de forma que o resultado acaba sendo como o título do famoso romance de Agatha Christie, "E Então Não Havia Ninguém". O argumento de Mubarak - é ele ou o caos - é um argumento contra ele.

A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente".

Para onde, então, Mubarak deve ir? Aqui, a resposta também é clara: para Haia. Se existe um líder que merece sentar lá, é ele.

(*) Nota do Tradutor: o título original do livro de Agatha Christie é "And Then There Were None", conhecido aqui no Brasil como "O Caso dos Dez Negrinhos".

Referências feitas pelo autor:
http://www.guardian.co.uk/world/2010/feb/02/iran-mousavi-dictatorship-khameini-protests

http://www.nytimes.com/2009/04/17/world/asia/17pstan.html?_r=1

Fonte: http://www.guardian.co.uk

Traduzido por Henrique Abel para o Diário Liberdade.
 

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