"Somos todos viajantes de uma jornada cósmica, poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias." Deepak Chopra

sexta-feira, 15 de julho de 2011

OSWALDO FAUSTINO E A LEGIÃO DOS INVISÍVEIS



Na História da literatura brasileira, contam-se nos dedos os romancistas pretos e pardos que se assumiram como negros. E, na atualidade, são raros os que têm sua obra reconhecida.

Da mesma forma, na História do Brasil moderno, rareiam os episódios em que se celebre o protagonismo negro. Daí a importância do romance “A Legião”, de Oswaldo Faustino, sendo agora lançado pela paulistana Selo Negro Edições.

O ponto de partida do livro é o pós-Abolição, momento em que a cidade de São Paulo, como o Rio, atraiu grandes contingentes de população negra, vindos do interior da província. No mesmo momento, proclamada a República, as oportunidades de trabalho continuaram atraindo negros não só do próprio Estado como de regiões vizinhas, em ondas migratórias contínuas. Nesse quadro, os ­três maio­res re­du­tos ne­gros na ci­da­de de São Paulo, desde o nascimento da República, fo­ram os bair­ros da Barra Fun­da e do Bexiga, e a localidade conhecida como Baixada do Glicério.

Lembremos que, na década de 1920, o escritor Alcântara Machado, publicava as coletâneas de contos Brás, Bexiga e Barra Funda e Laranja da China, lançadas respectivamente em 1927 e 1928. Obras altamente representativas do Modernismo de 1922, elas fornecem importante registro histórico da cidade na segunda década daquele século. E, assim, fornecem um fiel retrato da visão estereotipada e quase sempre negativa que o paulistano, em geral, tinha do povo negro.

Isto pode ser constatado nos exemplos seguintes, pinçados, entre muitos outros, na edição conjunta das duas obras, produzida em São Paulo por Editora Martin Claret em 2001. Vejamos:

“Dá aí duzentão de cachaça! O negro fedido bebeu de um gole só. Começou a cuspir” (pág. 66);

“Rua do Ipiranga. Êta zona perigosa. Platão não tirava os olhos das venezianas. Só mulatas. Êta zona estragada. – Entra, cheiroso! – Sai, fedida!” (pág. 93);

“Mas o melhor ainda não tinha sido contado: a negra perdeu a paciência e meteu a mão na cara do gerente. A rapaziada por pândega fez uma subscrição e deu uns dois mil e tanto para a negra. E a polícia? Que polícia? Negra decidida está ali.” (pág. 97);

“Voltou para a cozinha. – Aurora! Ó Aurora! Pensou: Essa pretinha me deixa louca. – Onde é que você se meteu, Aurora?” (pág. 107).

Mas a negritude da Paulicéia modernista, é óbvio, não foi só essa, assim vista por Alcântara Machado e seus pares.

Na capital do importante Estado, a du­re­za da dis­cri­mi­na­ção fez com que os ­afrodes­cen­den­tes bus­cas­sem a afir­ma­ção de sua iden­ti­da­de ét­ni­ca ­mais por meio da par­ti­ci­pa­ção po­lí­ti­ca do que por ­meio de ex­pres­sões cul­tu­rais, co­mo, por exem­­plo, no Rio e na Bahia. Cidade on­de o ra­cis­mo an­ti­­ne­gro re­ves­tiu, até os pri­mei­ros ­anos da Re­pú­blica, o ca­rá­ter de um ver­da­dei­ro apar­theid, da ca­pi­tal pau­lis­ta foi que o mo­vi­men­to pe­la igual­da­­de de di­rei­tos, prin­ci­pal­men­te por ­meio de uma per­sis­ten­te im­pren­sa ne­gra e da Frente Negra Brasileira, FNB, se ex­pan­diu pa­ra to­do o Bra­sil.

Criada por dissidentes da FNB, a Legião Negra do Brasil engajou-se na chamada Revolução de 32, através de um cor­po mis­to de vo­lun­tá­rios de­no­mi­na­do Batalhão Henrique Dias.

E é essa a história contada no romance “A Legião”, do nosso querido biógrafo e amigo Oswaldo Faustino. Nele, o “negro fedido”, o “mulato sem-vergonha”, as “negras de confete na carapinha” da ficção modernista vão se reconstruindo em sua real dimensão humana, com estatura e dignidade.

Com este A Legião, a já alentada obra de Faustino, escritor, jornalista, autor de livros infantis e ator, ganha também nova dimensão. A mesma de toda uma legião de grandes escritores e escritoras menosprezados, silenciados ou tornados invisíveis. E até hoje mantidos à margem da Literatura que se divulga e vende neste país incorrigível.


2 comentários:

Olavo Solera - Ygbere disse...

São pessoas como você minha querida Obaositala, que propicia a massa dos esquecidos serem lembrados...
Força e muita proteção pois os que querem aparecer com discursos prontos existem as pencas.
Ygbere

Obaositala disse...

Muito obrigado pelo carinho de sua leitura. Sempre trazendo palavras de incentivo e apoio.