"Somos todos viajantes de uma jornada cósmica - poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias. " Deepak Chopra

terça-feira, 8 de março de 2011

MONTEIRO LOBATO E O RACISMO: O princípio do avestruz


Por Muniz Sodré em 8/3/201

A regra pode ser aplicada a situações sociais mais complexas: Se alguém ofende judeus e é socialmente classificado como racista ou antissemita, parece lógico que ofensas dirigidas aos negros tipifiquem o racismo. Aliás, o antissemitismo, como bem mostra o antropólogo Louis Dumont em Homo Aequalis, é a forma princeps do racismo no Ocidente.
Trata-se de um tipo simples de raciocínio que pode servir para dirimir certas dúvidas quanto às ambigüidades da discriminação. Não comparece aqui nenhum vezo acadêmico, mas um exercício de observação de imprensa, considerando-se as repercussões do episódio "Monteiro Lobato/bloco carnavalesco "Que merda é essa?" sob o pano de fundo do incidente em Paris com John Galliano, estilista da Casa Dior (ver, neste Observatório, "Monteiro Lobato vai para o trono?" e "Monteiro Lobato não precisa de buzinadas").

Eugenia rediviva

Todo mundo está a par, mas vale um pequeno resumo. De cara cheia do que não se sabe, o estilista que veste (agora, vestia...) celebridades insultou judeus em pleno Marais (bairro parisiense com uma presença numerosa de comércio e moradores judeus), além de proclamar o seu amor por Hitler. As conseqüências foram imediatas: Galliano não só foi demitido da Dior como as roupas que ele assinara para as atrizes da festa do Oscar deixaram de ser usadas. "Ele me enoja" foi a frase-síntese da atriz Natalie Portman para o episódio.
Agora apliquemos a regra da quarta proporcional a um caso fictício em que um estilista da língua, um bom escritor se refira ao povo de Israel nos mesmos termos em que Monteiro Lobato se referia aos negros, por exemplo, nos textos transcritos pelo jornalista Arnaldo Bloch na página "Logo" de O Globo (2/3/2011). Pergunte-se: o que aconteceria? Haveria escritor, editor ou colunista atestando que não havia racismo nenhum, que os tempos eram outros, que é ridículo buscar cabelo em ovo, que a consciência infantil jamais seria afetada pelas imagens de rebaixamento e que, no fundo, imaginação literária não é imagem em ação?
Temos certeza de que não haveria. Por quê? Pelo simples fato de que a comunidade judaica aprendeu a repelir a infâmia do racismo. Primeiro, ela sempre soube, por sua milenar tradição intelectual, da importância de se ter autoridade semântica sobre si mesmo; segundo, por meio do sofrimento infligido à consciência pela disseminação, realmente virótica, dos estereótipos negativos. O humor judaico conhece a diferença entre as auto-ironias e o discurso da infâmia.
Ora, dirão, os tempos eram outros, até mesmo da pena esclarecida de um Sérgio Buarque de Hollanda partiu em certo momento (1920) um juízo negativo sobre a mestiçagem. Muito antes disso, entretanto, intelectuais brasileiros como Joaquim Nabuco e Rui Barbosa entenderam perfeitamente o papel desempenhado pelos africanos e seus descendentes na formação do povo nacional. Aliás, todos os próceres abolicionistas, claros ou escuros – Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José do Patrocínio, Luiz Gama e outros – eram atravessados por uma espécie de "espírito" educacional, que não podia comportar juízos "lobatianos" sobre a condição negra.
O abolicionismo era em si mesmo um movimento educacional no sentido amplo da palavra, porque se tratava de preparar as elites dirigentes para o ingresso da nação brasileira no século 20 sob o signo de uma modernidade (de inspiração liberal e européia) incompatível com a escravatura e já muito atrasada frente à conjuntura internacional. Os intelectuais abolicionistas eram educadores coletivos, porque representavam aquilo que Nietzsche chamaria de "autoridade imperiosa em matéria de cultura" (a exemplo de Goethe, Hegel ou Schopenhauer na Alemanha). Por isso, podiam ser implicitamente reconhecidos como "instrutores públicos" ou indicadores da necessidade histórica de se mudar toda uma estrutura anacrônica.
Por outro lado, havia a eugenia, nome da pseudociência surgida em fins do século 19, com o fim de "melhorar" geneticamente a espécie humana, assim como se pode experimentar com animais. Era um anacronismo que arrefeceu nos EUA por volta dos anos 1930, transferindo-se para a Alemanha nazista, onde fez carreira. Além de anacrônico, era um pensamento violento, porque não disfarçava o desejo de morte do Outro considerado geneticamente inaceitável e, por derivação, culturalmente rebaixado pela consciência investida do pior do universalismo europeu. Mesmo deixando de lado o nome próprio, às vezes falando em nome da genética, a eugenia persistiu ao longo do século em escritos de antropólogos, sociólogos, ficcionistas, jornalistas e, pior de tudo, nas falas de professores que os recitavam para platéias em formação.

Recado entendido

Monteiro Lobato está agora em foco precisamente porque era um militante do movimento eugenista, com coragem para dizer o que pensava e sentia. "A escrita é um processo indireto de fazer eugenia", repetia ele, como que deixando aberto o convite, para além do que explicitava em suas cartas, a que se pesquisasse o conteúdo subliminar eugenista em seus textos. Era, reiteramos, racista confesso, sem meias falas. Ignorância é o encobrimento desse dado histórico.
Por que se encobre? Podem ser muitas as respostas, mas simplifiquemos um pouco com a hipótese da existência nas elites brasileiras de um "princípio do avestruz", essa ave que, segundo a mitologia popular, enterra a cabeça na areia para não ver aquilo que teme. Na prática, o struthio camelus é bicho de visão e audição aguçadas, capaz de formidáveis patadas, se ameaçado. Mas o mito lhe atribui esse estranho comportamento, que costuma repercutir na vida real. A mídia, por exemplo, que é intelectual coletivo das classes dirigentes, caixa de ressonância dos fantasmas elitistas, sabe bem a hora de meter a cara no buraco.
Não é um princípio que se aplique a todas as situações espinhosas. Se um economista apresenta a realidade da discriminação em números e com a terminologia de praxe, as pessoas são capazes de assentir com a cabeça, a imprensa escrita é capaz de publicar com destaque a apresentação. A coisa toda pode até incomodar um pouco, mas o economês é discurso de poder, logo, tem vias de trânsito, ainda que levante contradições.
O problema aparece de fato quando o discurso antidiscriminatório tem conotações políticas com rebatimento sobre o plano das relações interpessoais. Aí o bicho pega e comparece o princípio do avestruz: ver o real é assustador. Como "ver" que aquele escritor com que nos embalaram desde a infância e cuja obra resultou naquela série de televisão tão afetuosa e tão vendida no exterior era pior do que o estilista John Galliano, já que não precisava sequer encher a cara ou o nariz para dizer o que pensava? Sobre a mídia ou sobre o cotidiano de cada cidadão, paira o princípio do avestruz como uma espécie de garantia para que não se veja a ignorância própria ou não se veja o tamanho da própria coragem existencial, certamente ínfimo diante da coragem de Lobato que, como frisamos, assinava embaixo da infâmia.
Não se trata, portanto, de censura nem de aplicação do "politicamente correto". Trata-se, sim, de dar nome aos bois, de encarar o real e aprender coletivamente a lidar com os paradoxos, as contradições e as ambigüidades de que também é feito o nosso meio vital, esse "mundo da vida" de que tanto fala o ilustre alemão Jürgen Habermas. Monteiro Lobato e sua literatura fazem parte do mundo da vida nacional.
Mas o Estado-Nação brasileiro ainda não está concluso: deve-se, mais do que nunca, continuar a ler Lobato, apenas, quem sabe, com o cotejo de predecessores como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José do Patrocínio ou de autores contemporâneos com uma visão mais generosa da espécie humana. Enfim, é preciso recuperar um pouco do espírito de instrução pública que bafejou o Brasil nas lides abolicionistas e republicanas. A mídia – será apenas a televisão? – tem-nos feito esquecer a brasilidade oitocentista, que presidiu ao nascimento da Nação independente, soterrando-nos com lixo cultural reciclado.
Não procede a afirmação de que esse tipo de revisão é coisa de acadêmico. Academicamente, já fui orientador de tese de doutoramento sobre a literatura de Lobato, sem que se levantasse o tópico do racismo. Não eram majoritariamente acadêmicos aqueles que se incomodaram com a camiseta do bloco carnavalesco em que Lobato sambava com uma negra. Pareceu-me gente que entendia do recado: ele poderia dançar fox-trot, jamais sambar, muito menos com uma negra ou mulata.

Mais embaixo

Aqueles que se manifestaram na rua eram membros dessa coorte crescente de cidadãos cada vez mais inspirados pelas lições anti-racistas da comunidade judaica. A "pretalhada" (termo lobatiano) é mesmo "inextinguível" (termo lobatiano) e está em luta pela representação social. Para quem quiser ampliar até a substância a metáfora do avestruz, vale tomar nota de que a carne dessa ave já não é rara em supermercado: enterrou a cabeça, dançou. Ao jornalista-avestruz, congelado na restituição "afetuosa" do passado, vale a advertência cantada por Zeca Pagodinho: "Camarão que dorme a onda leva".
Por isso tudo foi muito interessante a página "Logo" de O Globo. Transcrevendo trechos inequívocos de textos de Lobato em caixa alta, o jornalista Arnaldo Bloch, jovem e esclarecido membro da comunidade judaica do Rio de Janeiro, deu um recado implícito aos profissionais da leviandade: o buraco é mais embaixo. É assim mesmo que se deve entender o tom do recado. Arnaldo, se bem me lembro, foi da turma do saudoso Bussunda na ECO (UFRJ), na época em que dirigi a escola. Saudoso, sim, pois Bussunda, membro daquela mesma comunidade do Arnaldo, era um iconoclasta que contornava saudavelmente a hipocrisia do "politicamente correto".
Saudavelmente? Sim, na contracorrente do princípio do avestruz e longe, muito longe, da infâmia raivosa.
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=632JDB001


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MONTEIRO LOBATO E O RACISMO
O desenho do racismo à brasileira
Por Heloisa Pires Lima em 8/3/2011
Dois monstros sagrados, ícones da produção editorial voltada para o público infantil e juvenil, acabaram reunidos numa mesma polêmica acerca do racismo no Brasil. O poder inegável do que representam para a sociedade parecia, até o momento, ter o reconhecimento das massas, do Estado e da mídia de capital privado. Mas, se a sacralidade lhes atribuída já adquirira a condição de perene, vimos aparecer o lado monstruoso dessas moedas valiosas.
Ano de 2010. Em novembro, um manifesto pró-Monteiro Lobato circulou em nome da falsa ideia de suas obras haverem sido proibidas pelo governo às vésperas de uma eleição. Longe disto, o parecer assinado pela conselheira Nilma Lino Gomes com o aval, por unanimidade, dos demais analistas do Conselho Nacional de Educação recomendava um conjunto de ações frente ao teor racista localizado na obra Caçadas de Pedrinho (original de1933). A partir da distribuição do título pela Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal, um educador mais atento toma a iniciativa de protocolar à denúncia. A análise, de instância a instância, acabou pauta para o CNE, que chamou para si a responsabilidade de emitir o parecer com as sugestões. O critério considerou o objetivo de promover uma educação anti-racista que prevê a formação do educador para lidar com o assunto.
"Racismo sem ódio não é racismo"O viés eleitoral amplificou o caso, com manchetes do tipo "querem proibir Lobato para as crianças". Foram inúmeros adeptos da hora a multiplicar o arsenal de matérias em defesa do escritor. Os blogs replicaram artigos afiados no desejo de interpretar o momento e impuseram o assunto. Os grandes jornais, revistas, programas radiofônicos, televisivos, enfim, tiveram à disposição uma pauta embasada em manifesto tornado celebridade. Somente a voz dos conselheiros demorou a ganhar a atenção da grande mídia. Até o ministro da Educação, paradoxalmente, emitiu opinião informal antes de ouvir o próprio CNE. Mas em pouco tempo a espetacularização foi serenando, tornando cada mais insustentável a defesa do racismo em nome da bio-bibliografia de um autor. O debate amadureceu nos meios de comunicação com elementos inéditos para o grande público auxiliando na flexibilização do juízo de valor anterior. E eis que, enquanto a posição definitiva e oficial do MEC estava ainda sendo aguardada para encerrar o caso aberto lá atrás, surge a ação protagonizada pelo cartunista Ziraldo. Numa tentativa de se adiantar ao ministro, o ponto final da polêmica, na concepção que ele adotou, foi desenhar um bem vestido Lobato agarrando uma mulata de poucas vestes para a estampa de um bloco de carnaval no Rio de Janeiro.

Não fosse a provocação do tema, a livre expressão do cartunista tinha tudo para reacender os melindres acerca da representação da mulher negra. Não suficiente, a imagem ficou mais animada com a voz, em off, do próprio Ziraldo, que afirma:
"Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista."O pau do gatoO chiste é plausível na vida intelectual. A espirituosa capacidade de rir de si mesmo ou de realizar junções inesperadas, o duplo sentido ou o trocadilho são jogos que a linguagem permite para sutilezas bem construídas. No entanto, não há nada mais desagradável do que uma piada sem graça. Maldita, então, é a jocosidade ofensiva. O humano é capaz de exacerbar fragilidades emocionais produzindo prazer para si e para o público para o qual exibe a própria esperteza. Somente a sensibilidade crítica inibe esse tipo de prazer. O dado de realidade localiza o impulso e tem força para a suspensão do conteúdo que agride. A percepção da dor do outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença, é o princípio da alteridade, noção cara para os dias atuais.
Por isso, a "gracinha" de Ziraldo soou como um tapa na cara, sobretudo pela maneira displicente de referir o racismo que atinge a cidadania da população negra no país. A agressão veio acompanhada da asneira conceitual que pressupõe racismo com ódio e sem ódio. Mas a excrescência teve troco. A densidade e o estilo conhecido das análises definitivas da ágil intelectual negra Ana Maria Gonçalves (ver aqui) foi um golpe preciso. Outro, o isolamento do cartunista carente de eventuais defensores públicos da "carnavalização do racismo".
A vinculação entre os escritores a partir de uma mesma ocorrência pode vir a ser um marco para a atenção sobre o racismo, quando sobreposto à sociedade brasileira. Todavia, a etiqueta racista entregue a um ou a outro esgotaria o evento nele mesmo. Certamente, Ziraldo não está sozinho na sua livre expressão. É comum os pleitos racistas invocarem a liberdade de expressão associada à absolutamente condenada ideia de censura. Esta é uma das nuanças do "deixe meu politicamente incorreto em paz", como se a criação artística não devesse satisfação nem ao constrangimento que possa submeter seja ao gato, ao urubu ou à infância negra. Se a razão do Estado é garantir a proteção e a defesa dos incluídos em seu território, a cidadania é livre para agir, mas deve responder pelas consequências dos seus atos. Os aperfeiçoamentos legais conquistados arduamente são demandas que resultam do embate de argumentos culturais.
Portanto, não há como considerar irrelevante o racismo difundido por meio de aparentemente ingênuas obras ou o dimensionado no mapa da violência 2011 a demonstrar o extermínio de jovens negros. Se estampado fosse o slogan – "não somos racistas" –, a mensagem a circular no carnaval seria a mesma. Todavia, por trás dessa opinião há a dificuldade para reconhecer a história particular da parcela negra da população do país e o esmero em atrasar intervenções que superem a desigualdades que a atinge. É braço da manutenção de privilégios.
E com a "mulata" impressa, Ziraldo consegue animalizar mais ainda a mulatice das mulas que a semântica oferta às moças negras. Despida da história do uso semântico para racismos criadores de hierarquias entre mulheres reais, a do desenho está numa situação pior do que a do gato que segura numa das mãos o pau enquanto a outra lhe passa a mão na bunda.
O saber compartilhadoO argumento aí implícito defende que não ser racista é sair ridicularizando uma pedagogia anti-racista. A indignidade sexista recupera ainda a contenda da miscigenação, ora exaltada, ora condenada como síntese sociológica do Brasil. A máxima de sermos todos mestiços, concepção, aliás, soberana em princípios racialistas a priorizar o aspecto genético da questão, está da mesma forma dimensionada. Essa conotação social do feminino negro o transforma em categoria apaziguadora de conflito racial. É a mesma lógica presente em teorias do relacionamento harmônico que tendem a evidenciar a felicidade do convívio inter-racial nas ruas e a silenciar no que diga respeito à segregação dos mesmos nas esferas de poder do país. A evidente desigualdade para acessos sociais e as iniciativas que afirmem a condição da diferença na escala dos fenótipos tem sido um importante desafio para a sociedade compreender, demandar e alterar padrões de poder no país. O principal entrave está nas visões que insistem ser o fator classe suficiente para o desdobramento de políticas universalistas gestadas pelos governos. Para o Estado, essa homogeneidade atrapalha a nuança da história da escravidão e suas consequências para os que dela descendem como uma variável particular na administração do bem comum.
Se o que os escritores protagonizaram pode ser visto como dimensionamento do racismo enrustido ou explícito, condenado ou negligenciado na sociedade dos nossos e de outros tempos, a inesperada reunião propicia uma circunstância ainda mais singular: a de ambos serem sujeitos nativos e informantes de conteúdos vinculados ao setor editorial.
Aproveitando a problemática relação nativo-informante para a teoria, dicotomia central para o saber antropológico, área que adotei como profissão, ela não deixa esquecer a busca de sistemática fundamentação a lançar luzes sobre o intercâmbio entre argumentos culturais e produção de conhecimento. A revisão incessante teve para exame as contingências imperialistas, colonialistas e tantas outras istas imbricadas nesse conhecer o "outro". Os inúmeros alertas apontando a condição de monólogos discursivos para a imagem do "outro" confirmaram ao menos uma certeza: o acesso à produção a garantir o espaço para pontos de vista distintos, para o embate de ideias, é a única e a mais louvável das lapidações em prol da democracia a gerar o saber compartilhado.
A ilustração como focoMas e quando o tema passa a considerar a perspectiva infantil de ser informada pelo mundo e sobre o mundo? No caso brasileiro, podemos nos dar conta do imenso espaço que Lobato e Ziraldo ocupam na cabeça de várias gerações de brasileiros, o que ressalta o tema da presença negra na história editorial. As figurinhas negras elaboradas por suas mentalidades fazem parte do imaginário que produziram abundantemente, quase como um monólogo promovido e consentido. A representação ofertada por esses autores quase não teve contraponto.
Pensando ainda sobre os polos que se opõem, é hora de recordar o fato de sermos mais complexos que a teoria. Se a filiação ao partido político pode enviesar o julgamento de um relatório do MEC, o que dizer dos males da xenofobia? Reveladas as ideias racistas de Lobato, como o fez, recente e brilhantemente, Ana Maria Gonçalves, examinando inclusive o acervo de cartas do escritor, a análise da produção do autor ganhou em redimensionamentos. Não há como negligenciar que, para a história da presença de personagens negros no universo da literatura infantil, os textos que ele produziu foram inovadores, assim como o valor positivo para gênero, ou o protagonismo do idoso e outros aspectos que o exame atento pode, infinitamente, revelar. Caso o foco seja a ilustração de seu material, lá também está a Nastácia pelas mãos de Voltolino recebendo tratamento visual mais equitativo do que se poderia esperar quando relacionada à Benta.
 
O contrário também é exemplar. Uma leitura contemporânea das edições, ilustradores afora e além do período original, reserva as mais grotescas formas da personagem. Idiotizada, bestializada, animalizada, inferiorizada sob todos os aspectos, tornada monstrenga, suja o que facilmente contrasta com a composição das demais figuras.
Racismo editorial produziu história de violência
O dado, sem dúvida, tem muito a dizer a respeito da livre circulação de preconceitos para as gerações de diferentes contextos. Por sua vez, Ziraldo, com seu trabalho O menino marrom (1986), produziu uma narrativa datada deixando como depoimento a dificuldade do cartunista em construir um personagem negro bonito, que é o que o enredo propõe. E ele cumpriu a tarefa reservando o cuidado gráfico ao personagem. O que se depara, nesse caso, é a dificuldade em desenhar um menino negro. Negro, não; marrom. A estrutura da obra testemunha que nos anos 1980 ainda não havia meninos negros bonitos retratados nos livros. Também deixa dicas sobre a resposta da época em afirmar a identidade negra. A interlocução com o menino cor-de-rosa reduz a densidade da história pela da cor.
 
É um ângulo para lidar com a questão, mas não o único. É provável que tanto Lobato quanto Ziraldo precisassem localizá-lo para traçar mapas, itinerários e rotas de viagem em terras desconhecidas, como a de facultar seus modelos de humanidade negros. Dá para imaginar os dois submetidos a uma série de circunstâncias políticas e de logística expedicionária durante o processo de suas criações. E, se muito se sabe das práticas coletivas de atribuir significados aos povos negros pelos não tão negros, pouca é a investigação dos processos em que a paisagem humana negra vai surgindo no universo desconhecido do explorador. E é nessa brecha que pode surgir o destaque para a força dos personagens em sua soberania a propor conteúdos para a autoria. Na verdade, as Nastácias ou os Barnabés lobatianos são expressões da narrativa popular se impondo. O autor se serviu da saborosa fonte para as suas elaborações. A alusão ao menino negro, apesar da assimetria com o cor-de-rosa também conquistou visibilidade. E todo o escritor sabe que a construção do sentido literário nunca é unilateral. Ela indaga e negocia o tempo todo com a criação. O personagem, como espessura inconsciente, adquire vida, espaço e autonomia. Incluir a imagem da população negra por Lobato e Ziraldo foi uma condição advinda do contato com o tema, já que antes ele não havia. Apesar das concepções racistas, é a demanda por um protótipo negro que chama a atenção para si, a ponto de entrar para o livro. E é esta soberania que torna mais notória ainda a ausência/presença da imagem como nativos e/ou informantes para dar a conhecer o mundo.
O outro lado dessa mesma moeda é o comparecimento de escritores negros no cenário das publicações. A existência negra expressa na literatura pouco abasteceu bibliotecas, videotecas, acervos de brinquedos. O racismo editorial produziu uma história de violência. O personagem, mas também o autor negro, são heróis da mesma jornada contra o preconceito. A desigualdade das cenas ficcionais dentro das obras é a mesma fora delas. Temos a chance de percebê-la.
Cadê o bloco do anti-racismo?Em pleno século 21, não fosse o educador bater à porta do MEC, os conteúdos do livro de Lobato continuariam pouco problematizados. Da mesma forma, o tabu de questionar seja quem for o autor consagrado nas bibliotecas escolares. Por sua vez, não estariam colocadas na mesa as indagações extensivas, como o acesso à produção diversificador de pontos de vista. Não havendo confronto, a ignorância lúcida ou ingênua é mantida e não conseguirá identificar a dor do racismo. A "mulata" impressa na camiseta, nesse ínterim, se olharmos bem, começa a falar da violência e da assimetria em que a posicionaram e que está ali sufocada e constrangida. A passividade simbolicamente sugerida, no entanto, acabou tridimensionalizada pela realidade. A entrada da internet como variável para os principais polêmicas nacionais tornou o nativo informante e aponta a precariedade da dicotomia. Este é um ponto de inversão cultural.
O racismo, enfim, é um desafio para todas as sociedades e todas as esferas. O acervo de obras singelas é a extensão de obras acadêmicas. A prevalência de fórmulas racistas em material aparentemente ingênuo também significa a falta de analistas formados para a temática. A tecnologia, consenso para aperfeiçoar o desenvolvimento do país, deveria tornar mais apto o saber acerca do racismo. Assunto de impacto, as diretrizes da tecnologia das relações raciais ocupam qual o espaço no gerenciamento da ciência produzida no país? Cadê o bloco do anti-racismo no investimento e na inovação tecnológica voltada para circunscrever as dinâmicas raciais? Ou a gestão de financiamento da pesquisa em centros universitários atenta para a diversidade e equanimidade dos pesquisadores? Estas, entre outras, são histórias a serem impressas no desenho de Brasil.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=632JDB002

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