"Somos todos viajantes de uma jornada cósmica, poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias." Deepak Chopra

domingo, 10 de outubro de 2010

O Encanto dos Orixás

Leonardo Boff - 





teólogo e autor de Meditação da Luz. O caminho da simplicidade. Vozes 2009.
http://alainet.org/active/34683





"Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela  alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuina brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas. Num contexto de desamparo social, com milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas, doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima experiência espiritual.

O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos. Essa revelação tem como destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual. Ela quer reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar a caridade e o amor fraterno,  mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.

O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas tradições orientais) e de BANDHA (movimento inecessante da força divina). Sincretiza de forma criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso pais criando um sistema coerente. Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres humanos em suas necessidades. Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las. Os Orixás, a Mata Virgem, o Rompe Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas arquetípicas da Divindade. Elas não multiplicam Deus num falso panteismo mas concretizam, sob os mais diversos nomes, o único e mesmo Deus. Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.

A Umbanda é uma religião profundamente ecológica. Devolve ao ser humano o sentido da reverência face às energias cósmicas. Renuncia aos sacrifícios de animais para restringir-se somente às flores e à luz, realidades sutis e espirituais.

Há um diplomata brasileiro, Flávio Perri, que serviu em embaixadas importantes como Paris, Roma, Genebra e Nova York que se deixou encantar pela religião da Umbanda. Com recursos das ciências comparadas das religiões e dos vários métodos hermenêuticos elaborou perspicazes reflexões que levam exatamente este título 
O Encanto dos Orixás, desvendando-nos a riqueza espiritual da Umbanda. Permeia seu trabalho com poemas próprios de fina percepção espiritual. Ele se inscreve no gênero dos poetas-pensadores e místicos como Alvaro Campos  (Fernando Pessoa), Murilo Mendes, T. S. Elliot e o sufi Rumi. Mesmo sob o encanto, seu estilo é contido, sem qualquer exaltação,  pois é esse rigor que a natureza do espiritual exige.

Além disso, ajuda a desmontar preconceitos que cercam a Umbanda, por causa de suas origens nos pobres da cultura popular, espontaneamente sincréticos. Que eles tenham produzido significativa espiritualidade e criado uma religião cujos meios de expressão são puros e singelos revela quão profunda e rica é a cultura desses humilhados e ofendidos, nossos irmãos e irmãs. Como se dizia nos primórdios do Cristianismo que, em sua origem também era uma religião de escravos e de marginalizados, “os pobres são nossos mestres, os humildes, nossos doutores”.

Talvez algum leitor/a estranhe que um teólogo como eu diga tudo isso que escrevi. Apenas respondo: um teólogo que não consegue ver Deus para além dos limites de sua religião ou igreja não é um bom teólogo. É antes um erudito de doutrinas. Perde a ocasião de se encontrar com Deus que se comunica por outros caminhos e que fala por diferentes mensageiros, seus verdadeiros anjos. Deus desborda de nossas cabeças e dogmas."

 
  Achei maravilhoso encontrar este texto de Leonardo Boff falando da Umbanda, na minha caixa de emails. Não sabia que ele havia se aventurado a falar da Umbanda. Ele tem conceitos claros e bons, embora equivocados em algumas partes. 


Por respeitar muito este escritor maravilhoso é que venho discutir os pontos mais conflitantes de seu texto.


  O primeiro conceito equivocado é quanto ao mito de origem da Umbanda. Não foi com Zélio Fernandino de Moraes, em Niterói, que a Umbanda se originou. Todos querem um ponto de início, é o mito da formação, e todos querem um fundador, mas o fato é que a Umbanda não tem fundador e nem mito de origem, ela é o resultado da mistura das diversas culturas que aqui se uniram.
 Confiram: 


http://www.ftu.edu.br/Site/producoes/POR_UMA_NOVA_METODOLOGIA.pdf


"Umbanda foi um termo encontrado apenas a partir de 1936, através da obra O Negro Brasileiro, do professor Artur Ramos (1934). Para Artur Ramos este termo teria significado feiticeiro ou sacerdote. Nenhum autor da época, entre eles Nina Rodrigues, João do Rio, Manoel Quirino, Roger Bastide, Donald Pierson, Gonçalves Fernandes, citam este termo. Nem mesmo Gilberto Freire cita Umbanda em 1934, no Primeiro Congresso Afro-Brasileiro. Certamente pelo fato de todos terem escrito sobre a cultura Afro-Brasileira, avaliando apenas os Cultos de Nação.
Padre Manuel da Nóbrega (1549), um dos renomados nomes da Companhia de Jesus, relatou a manifestação de um pajé, que na ocasião apresentava a voz de criança, e induzia o transe nos nativos (PRIORI, 2004, p. 52). Pela descrição, podemos suspeitar que esta seja a primeira documentação escrita de uma entidade que, posteriormente, seria conhecida como a Criança da Umbanda. Então, a partir de 1860, manifestações de entidades como Caboclos, Pretos Velhos e Crianças, através de Juca Rosa (SAMPAIO, 2000), negro carioca alforriado, e de João de Camargo (RIVAS, M. E., 2008), negro paulista, começaram a ser relatados oficialmente.
Portanto, se as entidades umbandistas já se mostravam desde 1549, por que somente a partir de Zélio Fernandino de Moraes em 1908, considerou-se o surgimento da Umbanda? O fato de ser branco e kardecista teria alguma relevância? Na visão eurocêntrica, etnocêntrica, xenófoba da sociedade da época, somente a raça branca seria apta a confirmar uma fé (Mito de fundação)." (TCC de Osvaldo Olavo Ortiz Solera, teólogo umbandista e professor de Teologia Umbandista da Faculdade de Teologia Umbandista - FTU).




  Portanto, podemos no máximo admitir que o Movimento Umbandista começou no final do século XIX, mas a Umbanda já existia há muito, muito tempo.

  O segundo conceito equivocado é o significado de Umbanda. O conceito não está de todo errado, apenas não considera que existem outras formas de interpretação em outras escolas umbandistas.  O conceito mais belo é o de AUMBANDAN (pronunciado como OMBHANDHUM), que teria sua origem no alfabeto abanheenga, alfabeto sagrado dos antigos Tupis, fonte original do alfabeto adâmico ou devanagárico. Portanto, os Vedas, que foram escritos em devanagárico têm origem na tradição Tupi. Pasmem, mas é verdade!


  AUMBANDAN é a síntese ou reunião entrelaçada de todo o conhecimento ou gnose humana, é a própria ligação viva entre o que é espiritual e o que é natural, o conjunto sagrado das leis divinas (Umbanda, a Proto-Síntese Cósmica - F. Rivas Neto).

O terceiro conceito equivocado é o de que a Umbanda tem uma única raiz. Existem diversas escolas umbandistas que abarcam desde o Candomblé, a Pajelança, o Kardecismo e o Catolicismo. Então, a Umbanda é feita de Umbandomblé (termo novo para Umbanda com forte influência no Candomblé), Candomblé de Caboclo, Toré, Babassuê, Terecô, Tambor de Mina, Jurema, Catimbó, Pajelança, Umbandec (termo novo usado para definir a Umbanda com fortes traços do Kardecismo), Umbanda Esotérica, Umbanda Cristã/Católica... Vejam aqui um pouco mais sobre esse conceito de escolas umbandisas:



http://sacerdotemedico.blogspot.com/2010/10/unidade-umbandista-manifestada-na.html

Enfim, tenho certeza  de que esqueci de citar muitas das vertentes que compõem a Umbanda, tantas são as facetas que nela existem. E portanto, a ritualista irá diferir de acordo com cada escola. Algumas de fato, aboliram os sacrifícios ritualísticos de animais, outras ainda os praticam. E isto não as desmerecem. O conceito de restituição de Ashe à natureza e aos Elementais deve ser bem compreendido, antes de se usarem discursos retilíneos, que se originam em preconceitos cristãos. Quem desejar saber mais, consulte este blog:

http://sacerdotemedico.blogspot.com/2010/06/axe-o-poder-volitivo-do-orixa-manifesto.html

E por último,concordo plenamente com Boff quando ele fala que a Umbanda está impregnada de conceitos ecológicos. Ela fala sim do retorno às origens, do convívio harmônico com a natureza e seus recursos, do respeito às diferenças, e do convívio pacífico com o outro, mesmo que diferente de mim. 

Respeitar, Interagir e contribuir. Essas são as lições que mais compreendi até agora na Umbanda. E sei que estou apenas começando. 

Nenhum comentário: